2+2=5

A gente esquece tanta coisa. Eu lembrava bem de você na bateria, lembrava de você tocando No One Knows enquanto eu tentava aprender o baixo da música; lembrava de Here Today, Gone Tomorrow; lembrava sobretudo de Hurt. Mas não me lembrava, até hoje de manhã, de True Love Waits.

Acho que mal me lembrava de você tocando violão. Lembro, claro, da guitarra, mas não lembrava do violão e, portanto, não me lembrava de True Love Waits. Nem lembrava que você gostava de Radiohead. Honestamente, acho que não gostava, talvez você só gostasse dessa música? Ou tenha aprendido por que eu gostava? Eu sempre adorei essa frase “true love lives on lollipops and crisps”

Eu teria gostado se você tivesse me dito que eu tinha um crazy kitten smile, às vezes eu acho que tenho um sorriso de gatinho maníaco. Pensei em te ligar só para perguntar se um dia você gostou de Radiohead, eu tenho tanta certeza que não. Você estava naquele show, no meio daquela lama, naquele dia? Você estava no mesmo lugar que eu? Às vezes, quase sempre em shows, eu tinha a certeza absoluta de que nós estávamos no mesmo lugar e pensava um pouco em você, mas só de leve, de um jeito meio pálido. Acho triste que a sua lembrança ficou tão no passado, tão soterrada pela dele, até isso ele tirou de você.

Aí um dia você estava. Exatamente no mesmo show que eu, naquela banda que, você disse, é como “NIN meets Belle and Sebastian” e porque era como NIN meets Belle and Sebastian você tinha a certeza mais que absoluta que eu estaria lá. Nesses anos todos eu devo ter te procurado na internet uma ou duas vezes, nem tinha certeza que você continuava em São Paulo. Eu tinha bastante raiva, entenda.

Eu me arrependo um pouco de nós termos tentado de novo. Ia tão obviamente dar errado, sempre foi tão óbvio que nós daríamos errado. Nós poderíamos ter sido amigos, se não tivéssemos tentado de novo, talvez. Eu sinto falta de alguém como você, se eu tivesse uma banda, não a teria com ninguém que não fosse você. Acho que por isso nunca mais vou ter uma banda. Nós poderíamos ter sido amigos.

Eu pensei em te ligar de manhã, só para saber se um dia você gostou de Radiohead. Eu senti falta de quando eu acumulava cds e meu sonho era trabalhar na Rolling Stones e lamentei nunca ter sido sua amiga. Mas talvez tenha sido bom tentar de novo, porque eu já não tenho raiva, sabe? E sua lembrança já não está soterrada na dele. Eu lembro de você. Um pouco com carinho, como o cara que apareceu na minha casa à uma e meia da manhã depois do show do Foo Fighters e também como o cara que foi embora porque eu era boa demais em ir embora. Eu te ouvi, de verdade, eu aprendi que preciso de alguém que goste tanto quanto eu de ir embora. E que às vezes eu preciso mentir, que se eu tivesse mentido para você, você não teria ido embora. Ironicamente, você foi dizendo que eu mentia bem demais.

Mas foi bom. Foi bom porque eu já não precisava ter raiva, porque eu já não tinha 15 anos e já não precisava ter raiva. Eu posso só lamentar que nós tentamos de novo, e nunca tivemos a chance de ser amigos.

Acho, tenho certeza, que você nunca gostou de Radiohead. Mas a música que mais me lembra você é High and Dry, sempre foi.

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1 comentário

  1. ótimo post! às vezes eu tenho a impressão de que algumas músicas servem só para isso. azar o delas.

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