A vida em uma música do Belle and Sebastian

When the first cup of coffee tastes like washing up
She knows she’s losing it, oh yeah she’s losing

She’s losing it. Parece que eu estou sempre no limite de perder alguma coisa, ou ao menos parece que eu venho escrever aqui sempre que estou no limite de perder alguma coisa. Gosto muito dessa expressão em inglês “losing it”, nunca consigo encontrar uma tradução que me sirva porque o que, afinal, você está perdendo? Tudo, eu, a sanidade, o equilíbrio.

Ouve-se as risadas da plateia quando eu falo em equilíbrio.

Toda vez que minha mãe vem aqui em casa ela reclama da bagunça. Minha casa é realmente bem bagunçada. Mas minha mãe, psicanalista que é, não diz que se incomoda com a bagunça, ela diz que se preocupa que talvez a desorganização da minha casa reflita minha desorganização interna. Eu sempre tenho vontade de rir com esse talvez.

A verdade é que eu me recuso a arrumar a casa. Claro, eu poderia dizer (e costumo dizer) que não dá para fazer tudo, escrever um mestrado, aprender russo, ler sessenta livros no ano e ainda arrumar a casa, logo, é claro que eu prefiro não arrumar a casa. Mas não é isso. Eu tenho uma resistência enorme a arrumar a casa, é algo que me esgota, que suga minha energia vital, quase como passar a noite trepando com a Vampira. Desculpem pela referência ridícula. Enfim, eu não organizo, eu me incomodo, mas não consigo nunca juntar as forças e a presença de espírito necessários para arrumar a casa.

Eu não consigo organizar nada, portanto é óbvio que não consigo organizar minha própria cabeça. Me pergunto por que permitem que pessoas tão obviamente desequilibradas façam coisas como um mestrado e pensem em dar aula, ou permitam a elas ter relacionamentos.  Vão dar alunos na minha mão um dia! Que tipo de mundo doente dá alunos na minha mão? Que tipo de mundo doente me permite interagir com pessoas e espera que eu faça isso de uma forma saudável?

Me pergunto como o Universo espera que eu me comporte de forma saudável em um mundo tão cheio de coisas que eu não quero ver ou saber? Tão cheio de coisas que eu posso usar para me torturar, me fazer ter a pior noite da vida e me sentir um lixo? Como eu vou ser produtiva quando posso me auto-sabotar a noite toda? Auto-sabotando até o chão poderia ser a trilha sonora da minha vida.

Eu vou atrás do que me dói. Eu fico lendo e relendo e revirando e cutucando e achando aquela coisa que vai pegar no ponto certo, no ponto exato em que eu vou querer morrer de dor, desistir, deitar no chão, abraçar a garrafa de vinho e ouvir Fiona Apple. Tenho bebido muito vinho, tenho ouvido muita Fiona Apple. Não que eu tenha levado um fora (parece a suposição natural quando alguém ouve muita Fiona Apple), eu só estou perdendo.

Perdendo o que, meu deus do céu? Perdendo. Losing my favorite game. Ok, desculpem de novo pela referência sem sentido.

Perdendo. Me perdendo. Perdendo o controle que eu estabeleci e não sei o que vai acontecer e me torturo me convencendo de que não pode acontecer porque eu sou esse ser humano desequilibrado desprezível. Ou talvez porque eu seja um prodígio de saúde mental e esteja me preparando para o pior assim evito frustrações e ganho o dobro de felicidade quando as coisas dão certo. Gosto de me convencer que é isso e não obsessão, insegurança crônica, maluquice pura e simples.

Poderia citar The Smiths, mas me recuso. Estou com birra de The Smiths e de uma personagem em The Newsroom, sou uma pessoa birrenta, me desculpem.

Auto-sabotagem. A arte de passar a noite lendo tudo que eu sei, que eu sempre soube, que ia doer e que poderia ter tranquilamente fingido que não existia, até porque não importa mais. E essa arte isn’t hard to master.

Mas espero que vocês saibam que esse blog é só um grande exagero estilístico. Eu estou bem, de verdade, estou ótima. Não mandem uma equipe médica com camisas de força até aqui, eu estou bem, juro que estou bem. Vou até sair as quatro da manhã para comprar uma samambaia e adotar mais 18 gatos. Estou bem, juro, só estou perdendo.

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