De Beethoven a Trent Reznor

Eu estava tocando piano na Puc ontem, eu tenho aula nas terças à tarde e me convenci a aproveitar o último semestre lá e o piano na biblioteca e finalmente voltar a tocar. É engraçado, são anos que eu não tocava em um instrumento e ainda assim as minhas mãos foram sozinhas, automáticas, naquela posição que eu aprendi há tanto tempo, tão pequena, levanta o punho, faz uma alavanca, precisa de leveza. Leveza.

Toquei Für Elise, algum Mozart, gosto de Mozart, aquelas músicas para mãozinhas de crianças, voltei para a Sonata ao Luar. Nunca consegui tocar Sonata ao Luar, mas gosto tanto, aprendi piano com um livro de introdução a Beethoven e com Mozart, claro, porque eu tinha mãozinhas de criança. Quando você me conheceu eu já queria fazer arranjos para Hurt, ainda tenho essa ideia, de um arranjo para Hurt. Mas preciso da bateria, já não falo com ninguém que toque bateria.

Mas estava lá, tocando Mozart e Beethoven e quando me distrai percebi que dedilhava sem querer o pianinho de Right Where It Belongs. Não tinha ideia que ainda sabia Right Where It Belongs. É engraçado porque a música era minha verdadeira paixão, o piano e o baixo e o canto. Não era a escrita ou o cinema. E eu larguei, abandonei, desisti de tudo isso do mesmo jeito que desisti de muita coisa, acho que do mesmo jeito que desisti de você.

Acho que a trilha sonora desse blog podia ser Monomania, de tanto que eu falo de você, com você. Mas eu vou fazer 25 anos, me sinto velha. 25 é como se eu não pudesse mais brincar de não ser adulta, eu vou defender um mestrado pelo amor de deus e daqui a pouco. Eu paguei uma viagem para Turquia. Eu tenho dinheiro para pagar uma passagem para a Turquia. Me sinto velha.

E você saiu da minha vida, você que era o último laço que eu tinha com a outra pessoa que eu fui. Com a época antes de eu apagar tudo que eu fui e cair no buraco e me perder tão completamente. Você que olhou nos meus olhos e disse sem hesitar que aquela não era eu, que eu precisava sair dali.

Eu saí, eu voltei a ser quem eu era. Eu te ouvi. Na verdade não te ouvi, mas eventualmente percebi isso sozinha e achei que você ficaria orgulhoso. E tudo que você fez foi sair da minha vida. Ou eu te tirei, não sei. Eu acho que te tirei, porque então você, que sempre foi minha âncora necessária com aquela época , não conseguia sair daquela época.

Falo muito desse tempo dez anos atrás, porque quando eu me perdi foram essas lembranças que me tiraram dali: a caixa com os zines, as mixtapes, aquela camiseta do Bikini Kill. Eu tinha tanto orgulho de ser aquela pessoa e eu estava vivendo no maior pesadelo dela. Então eu saí. Falo muito desse tempo em que me perdi também.

A gente fala muito das mesmas coisas. Eu, particularmente, sou bastante obsessiva. Acho que não é a toa que gosto tanto de Bergman e Woody Allen, Bergman era um tremendo obsessivo, 43 filmes, todos sobre a mesma coisa, contando a mesma história de um jeito ou outro.

Right Where It Belongs começa falando sobre um animal em uma jaula. Sempre achei que você fosse um animal em uma jaula, que você não tivesse raízes, mas você tem né? Elas só não estavam aqui. Talvez eu tenha mais do que ache também, ou mais do que queira ter. Ainda é uma música sobre o vazio de ter as coisas onde elas deveriam estar. Acho que o animal na jaula era eu, eu que aceitei planos e sonhos que não eram meus, um relacionamento que não era meu, caixinhas com regras que eu não queria e um dia não deu mais.

De repente eu quase me vi tendo tudo no lugar de novo, optando pela segurança e evitando o que pode me quebrar. Mas não, não de novo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s