Keith Haring, The Political Line

Entre as muitas coisas nas quais eu não sou boa está terminar coisas. Ir até o fim, concluir, não deixar para lá em uma curva qualquer da vida. Eu largo textos, projetos, relacionamentos como quem perde as chaves, o isqueiro, as canetas. Claro que também perco essas coisas, exceto isqueiros, sou razoavelmente boa em manter isqueiros até o fim, por meses usei um verde de oncinha horroroso só porque era bom. Mas perdi o isqueiro que o amigo que mora em Israel me deu. Claro que esse eu perdi.

Enfim, sou tão ruim em terminar coisas que minha melhor amiga me manda mensagens diárias perguntando como anda aquele ensaio/dissertação/relacionamento. Agradeço ter uma melhor amiga com paciência para cuidar de mim e não deixar que eu saia abandonando membros vitais como um braço, uma perna e um coração por aí.

Tudo isso para dizer que encontrei esse texto nos rascunhos do blog. Eu me lembro que quando voltei de Paris eu tinha uma série de textos para escrever, sobre ver o “túmulo” (caixinha, na verdade) da Isadora Duncan, a exposição do Jaques Demy, meu amor por arte contemporânea, mas acabei só falando de como minha alma gêmea é uma cidade em que o vinho custa dois euros (inclusive, ótimo vinho, me rendeu a melhor noite de sono da minha vida).

Mas eu estava em Córdoba (!), vendo uma exposição de arte contemporânea e lembrei daquele texto que eu queria fazer sobre a exposição do Keith Haring que eu vi no museu de arte moderna (não o Pompidou, um outro) de Paris.  Faz tempo, então perdoem se já não lembro de tudo que eu senti e pensei quando estava lá, mas foi um dos momentos em que a arte teve significado, em que eu entendi por que alguém, em algum lugar do mundo, precisa fazer arte.

O Keith Haring é um artista plástico que trabalhou principalmente na Nova York do fim dos anos 70, início dos anos 80. Mesma geração do Basquiat, Mapplethorp, Patti Smith linda e jovem escrevendo Just Kids (um livro que eu comprei a tradução apenas por motivos de capa prateada). Ele é o cara daqueles bonequinhos de linha que viraram chaveiro e moleskine e é também uma das maiores forças criativas que eu já vi.

Existe um documentário sobre o Basquiat (recomendo o documentário, recomendo Basquiat) que se chama “Radiant Child” e para mim a alcunha vai para o Keith Haring também. Os desenhos do Haring são enérgicos, brilhantes, encarnados de força e desejo de mudar o mundo. Encarnados mesmo, não representativos. Ele não demonstra o que quer dizer. Ele coloca aquilo na essência da tela, aqueles quadros enormes e coloridos vibram com tudo aquilo que aquele menino queria dizer.

Porque ele era um menino, morreu em 90 com 32 anos de idade, de aids. Como o Basquiat, que foi aos 28 pelo mesmo motivo. Meninos, moleques, fazendo arte como meninos fazem, de brincadeira, mas muito séria.

A exposição em Paris se chamava “the political line, um belo trocadilho. A linha política, a orientação ideológica, mas a linha desenhada imbuída de política, a vida transformada em ato político. Keith Haring era gay, foi gay sem esconder, sem disfarçar, provavelmente morto de medo, mas sem olhar para o lado. Haring viveu politicamente e pintou em seus quadros os problemas que lhe inquietavam pessoalmente, há muita crítica social em seu trabalho, ele fala da África, da Aids, do Muro de Berlim, mas não como quem olha de fora e aponta problemas, como quem sente o sangue ferver e borbulhar. Como quem vive seu tempo nos ossos e o expressou em linhas simples e fortes, cores vibrantes, urgência e minimalismo, algo quase primitivo e perfeitamente pop.

A exposição me emocionou por isso. Não era a arte teórica, a arte que senta em seu gabinete e decide o que vai dizer sobre o mundo, era a arte viva, pulsante, de alguém que precisava por pra fora tudo que lhe doía no mundo em que estava. Um inconformado dos melhores, não do que rejeita simplesmente ou que se fortifica na hipocrisia, do que vive intensamente e transforma. Eu entendi porque ele fazia arte, eu que nunca entendo por que se faz arte, ou que sempre me bato com os motivos profundamente egocêntricos, narcisistas e autocentrados da arte.

Eu vi a arte capaz de mudar e nunca ela me tocou tanto quanto nos 40 minutos que passei naquele museu. Nunca admirei tanto um ser humano. Obrigada pela chance Keith Haring. Eu queria falar mais, mas já não há mais nada a dizer, no fim eu acabei me lembrando de quase tudo que senti e como seria inútil um post que ficasse falando e falando sobre Keith Haring e Basquiat, eu prefiro deixar apenas o título de radiant children.

IMG_7224“Art becomes the way we define our existence as human beings. We know that ‘humans’ determine the future of this planet. We have the power to destroy and create.”

 

 

 

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