Hannah Arendt, o lado humano das coisas

Eichmann em Jerusalém talvez seja o livro mais incômodo que eu já li e ao mesmo tempo o mais importante. Eu me incomodei profundamente tanto pelo absurdo inato do tema principal, quanto pelo que a Hannah Arendt reconhecia como a absoluta mediocridade do próprio Eichmann.

Ele não é ninguém, ela queria me dizer, e eu queria resistir. Eu já tinha lido Kafka, Adorno, Horkheimer e Bauman, eu sabia do que ela estava falando, eu sabia sobre razão instrumental, burocracia, eu conseguia entender, eu conseguia concordar. Mas concordar e aceitar são coisas diferentes.

Como entender e perdoar, a própria Hannah Arendt diz nesse filme.

hannah-arendt-film-still

Hannah Arendt não é uma biografia, é um filme sobre um período específico da vida da filósofa: o acompanhamento do julgamento de Eichmann em Jerusalém, a escrita dos artigos para a The New Yorker sobre o evento e a repercussão a sua publicação. É um filme que pretende, talvez, explicar o que Hannah Arendt disse que mudou tudo tão fundamentalmente e ele parcialmente consegue.

Uma das primeiras coisas que me chamou atenção no longa é como uma teoria tão complexa e extensa foi bem condensada. A diretora encontra saídas inteligentes, como diálogos entre os amigos da escritora ou cenas em que ela dá aula. As falas são especialmente claras e situam bastante bem mesmo quem nunca leu nada que ela tenha escrito.

Embora seja um tanto teórico e cheio de diálogos filosóficos, Hannah Arendt nunca é chato, ao contrário, é engraçado, irônico, mesmo terno, porque busca encontrar a humana por trás do gênio. Um pouco como Arendt fez com Eichmann.

Mas se ao procurar o homem por trás do nazista o que ela encontrou foi uma profunda mediocridade, o que Margarethe von Trotta encontra por trás de uma das maiores intelectuais do século XX é uma mulher amorosa, apaixonada pelo marido, querida com a assistente, íntima da melhor amiga. Alguém que gosta de champagne, de festas e de jogar sinuca.

Um dos maiores méritos do filme é balancear um retrato das teorias de Arendt e seu impacto no mundo ocidental com a construção de uma personagem de carne e osso, que amou, perdeu e viu com os próprios olhos o teor do holocausto. A construção da personagem peca apenas nos flashbacks para mostrar seu romance com Martin Heidegger, sem conexão com a história, as cenas parecem estar ali apenas porque é impossível separar o filósofo da ex-aluna e amante, o que é uma pena.

Mais do que tudo, Hannah Arendt é um filme sutil e pleno de significados: sem nunca colocar isso explicitamente na boca de um personagem, von Trotta afirma que o julgamento de Eichmann nunca foi julgamento, mas exorcismo, expurgação. Era preciso enforcar um nazista, era preciso dar as pessoas a chance de contar sua história em público, era preciso revirar a cova.

O momento mais forte do filme é quando imagens de arquivo aparecem e vemos Eichmann, o homem real, se sentar em sua jaula de vidro e ouvir o que é dito sobre Auschwitz. Quando o filme ficou em preto e branco e eu entendi o que eram aquelas imagens algo apertou em mim, esses registros ainda possuem uma força extraordinária, vivos, assombrados. A imagem indiferente de Eichmann, seu tédio e sua impaciência me assustaram. Os trechos selecionavam mostravam um homem alheio, sem remorso, mas também sem medo, ou ódio, alguém que apenas esperava que aquilo acabasse.

É maravilhoso um plano em que vemos apenas, em detalhe, os olhos de Arendt e eles estão cheios de ódio. Também havia ódio nos meus olhos. E é tão genial quanto sensível ser capaz de perceber, como Arendt tão brilhantemente fez, que não é a Eichmann, ao menos não a ele em si, sozinho, que cabe esse ódio.

Hannah Arendt é um filme clássico, em que muitas vezes é possível antecipar o plano que vai se seguir e no qual momentos de tensão são muito bem demarcados. Raramente eu diria que um filme tão clássico é excepcional, mas esse é. É porque a forma clássica serve como moldura para um mundo de coisas a serem ditas e que uma estética menos invisível teria poluído e permite que Barbara Sukowa brilhe sozinha com sua personagem.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s