Escrever para si mesma, sobre o hábito ridículo de manter diários

Eu mantenho diários desde sempre. Sempre mesmo, desde que eu aprendi a escrever ou coisa assim, pelo menos me lembro de ter pedido um no amigo secreto do ballet quando eu não poderia ter mais de seis anos. Quase toda menina tem um diário, um caderninho rosa da Barbie, ou da Hello Kitty, com uma chavinha tosca que qualquer grampo de cabelo abre, mas eventualmente, em algum momento entre os 10 e os 13 anos, a maior parte delas larga.

Eu nunca larguei. Eu mantive, sem parar, o hábito de registrar coisas, de escrever em um caderno secreto, extremamente querido e extremamente importante. Eles mudaram, é claro: o tom, o tipo de coisa escrita, a frequência, mas eu nunca sequer considerei parar, foi só algo que eu levei naturalmente, quase como respirar.

Mas, às vezes, eu paro para pensar sobre isso.

A primeira questão poderia ser, o que escrever: muita gente, quando fica sabendo que eu tenho um diário, comenta que gostaria de manter um, mas não tem disciplina. Acho engraçado. É como se houvesse uma obrigação do registro, para quem me diz isso, sentar e escrever sobre si mesmo para ninguém não é algo instintivo e eu sempre me perguntei por que essas pessoas gostariam de manter diários, o que elas gostariam de escrever.

Eu não registro nada. Não conto coisas. Muitas vezes falo de pessoas dizendo apenas “ele”, ou “ela, não tenho pretensão de que esses diários me sirvam de lembrança, eles são apenas um instinto meu, uma necessidade de vazar para o papel e talvez isso seja o que mais mudou com o tempo. Os diários da minha adolescência são registros, com divagações, angústias, neuroses, mas eu conto o que aconteceu, com nomes, com detalhes. Conforme eu avanço nos anos saem as historinhas, entram os fluxos de consciência desconexos. Nos últimos 5 anos eu posso dizer com certeza que nunca narrei um acontecimento em um diário, simplesmente registrei o fluxo do que se passava na minha cabeça no momento que sentei para escrever.

Uma segunda questão poderia ser sobre ler ou não diários antigos, se eles são afinal, um arquivo da própria história. Novamente, não os meus. Eu de vez em quando releio o caderno que estou usando: vou escrever e volto algumas páginas, releio uns meses para trás, mas nunca abro um caderno que já foi encerrado. O passado recente é uma lembrança boa, mesmo das coisas que não foram boas, ainda é uma lembrança íntima, você ainda pode chama-la para tomar um café, não é o caso das mais antigas. Ler diários de mais de um ano atrás é para mim como encontrar uma pessoa que só agora eu percebo que não gosto mais. Não é apenas uma questão de perceber as próprias mudanças e amadurecimento é que as lembranças que eles contem me ferem como faca, eu não reconheço, e não gosto, da pessoa que encontro ali.

Mas a questão mais importante, e aquela que me fez escrever esse post, é: onde raios eu sento para escrever? Sim! É uma questão importantíssima! Porque vejam: não posso simplesmente me sentar na escrivaninha para escrever, como se fosse um artigo acadêmico. É impessoal, profissional, e eu preciso de acolhimento, calor, de um ambiente que estimule a introspecção. Minha escolha favorita é a cama. Quase sempre faço chá, ligo as luzinhas em forma de floco de neve que ficam na cabeceira da minha cama, e me deito de bruços. É meu jeito preferido, quase como um casulo, mas é uma merda de escrever assim.

Meu braço doi depois de um pouco, é um inferno de alcançar a base da página, minha letra fica horrorosa, todo o conforto emocional é compensado por um desconforto físico desgraçado. E ainda assim, eu não tenho escolha melhor. Já tentei sentar na casa, ao invés de deitar, me sentar no chão, apoiar o diário na cama. Não dá, nenhum serve, nenhum jeito me faz entrar no estado de espírito necessário para acessar o que quer que seja que eu preciso colocar para fora. E me peguei pensando nisso: na posição ideal para se escrever no diário. No balanço perfeito entre introspecção e conforto físico e considero que talvez seja impossível. Talvez manter diários seja um hábito desconfortável, torto e dolorido em sua essência e nunca vai haver condições ideais. Talvez seja uma forma de meu corpo me lembrar que passei da idade, que eventualmente estarei velha demais para ficar nessa posição tão propícia a dor nas costas.

Talvez.

Talvez seja algo que eu devesse abandonar mesmo, talvez seja só um hábito, mas eu continuo enchendo páginas e páginas de fluxos desconexos de mim mesma. E não consigo considerar parar.

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