Então eu voltei de Paraty

Acho que é um dos maiores clichês da vida voltar de Paraty e falar das ruas. Todo mundo fala das ruas. Talvez porque elas dominem a existência na cidade tão completamente: você só pode olhar para o chão, não há outra possibilidade, as pessoas passam os restaurantes para onde estavam indo, esquecem o caminho, ouvem só mais ou menos o que os outros dizem porque é preciso olhar para baixo se quiser evitar uma perna quebrada.

No fim do dia suas pernas doem um pouco, elas tem uma sensação estranha de esforço ao qual não estão acostumadas, mas para mim o mais estranho é passar das pedras irregulares para a terra firme. Logo que eu cheguei eu andei saltitando pelas pedras e em alguns momentos dos dias seguintes eu ainda fazia isso, pulando de pedra em pedra, como se a existência que levávamos ali merecesse pulinhos, e quando eu pisava em uma calçada, porta de bar, recepção do hotel e percebia que podia simplesmente colocar um pé atrás do outro, era quase como emergir da água.

Não faz sentido, mas a sensação de andar nas pedras de Paraty é para mim quase como andar embaixo d’água. O que me lembra uma mesa muito bonita de moças poetas falando sobre o cotidiano embaixo d’água e rabos de baleia. A sensação era de caminhar no fundo do mar, sem segurança alguma, sem chão e de repente emergir e voltar a pisar em terra firme. Não sei se é uma sensação que eu gosto.

Não é que seja agradável andar nas pedras, não sentir firmeza alguma e ter o tempo todo medo de quebrar a perna ou dar com a testa no chão, mas cada vez que eu saía delas a estranheza era tanta que eu quase queria voltar. Meus pés se sentiam ainda menos firmes por terem que obedecer ao ritmo cotidiano de passadas, no tempo em que eu andava eles desaprendiam como era a sensação de terra firme.

É engraçado, mas anos atrás eu estive em Paraty, na Flip, e fiz a oficina de poesia. Um dia eu estava atrasada e saí correndo, olhava para o chão, mas corria, corria desabalada, de um jeito pouquíssimo aconselhável naquele calçamento do capeta. Mas não caí, não tropecei, nada aconteceu. Quando cheguei na casa de cultura e vi o que tinha feito respirei e me perguntei “como?”. Talvez a resposta seja que eu nasci para viver embaixo d’água.

Eu não quero desenvolver minha aptidão para o fluído. Mas as ruas de Paraty e minha estranheza ao sair delas são uma boa metáfora para esses 5 dias de Flip. É como ser capaz de respirar em baixo d’água, tudo é leveza, frescor, bolhas e peixinhos e então você sai. E precisa aprender a andar na terra firme de novo.

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