Lydia Davis, por que eu fiquei obcecada

(vou falar da Lydia Davis, tem dois parágrafos sobre a “linha editorial do blog”, pode pular)

Esse blog já foi sobre muita coisa. Ele já foi sobre moda, quando eu mexia com figurino, ele já tentou ser sobre as coisas que eu gosto e ele acabou sendo sobre mim mesma. E eu já fiz mais de um post dizendo que tinha esgotado o formato “falar de mim mesma” e ia tentar outra coisa, no fim, acabava voltando pro mesmo. Sempre penso em falar de cinema, sempre acho uma ideia meio estúpida.

A verdade é que eu sempre fui meu tema. Eu não consigo exatamente dizer que gosto de falar sobre mim mesma, mas a literatura, o cinema e a música que sempre me interessaram mais são aqueles extremamente confessionais: Fiona Apple, Bergman, Sylvia Plath. No entanto, ultimamente eu não consigo escrever, por mil motivos eu não estou me acertando com o formato que sempre escrevi aqui, mas eu sinto falta. Eu sinto muita falta de escrever, eu tenho essa necessidade de escrever o tempo todo, eu encho diários, arquivos de computador, até post-its, só não estou conseguindo encher meu blog. Eu escrevo em alguns sites dessa internet, eu falo de cinema principalmente e justamente escrever tanto me faz ver o quanto me faz falta. Porque me dói deixar o blog morto, eu vou tentar finalmente ser disciplinada e falar das coisas nas quais eu ponho a mão, livros, filmes, cds, essas coisas… e de vez em quando, quando vier, entram aqueles posts sem pé nem cabeça de sempre.

lydia-davis-break-it-downDepois dessa longa e chata introdução, eu vou falar da Lydia Davis.

A Lydia Davis traduz Proust, Flaubert e Blanchot e escreve contos e romances. Quase todo mundo leu Tipos de Perturbação, que a Companhia lançou traduzido em uma edição com capa maravilhosa, mas eu decidi ser hipster e ler Break it Down em inglês mesmo. Na verdade, quando anunciaram a autora para a Flip eu descobri que já tinha esse livro, não sei bem por que, acho que anotei de alguma lista do Flavorwire, ou short list/long list de algum prêmio, sei que já tinha, encostado ali na estante e decidi ler antes de ouvi-la falar.

Break it Down tem 34 contos, todos eles curtos, poucos com mais de 10 páginas, nenhum com mais de 12 ou 13. Todos os contos seguem um formato mais ou menos parecido: um fluxo de consciência, em terceira pessoa, na maior parte das histórias girando em torno de um tema só.

O primeiro conto, por exemplo é o turbilhão sem sentido da mente de uma mulher que liga para o “relacionamento claramente não estável” e descobre que ela está com a ex. Por todos os motivos óbvios, a Lydia Davis me ganhou aí. Não só pela identificação barata de se ver nas mesmas circunstâncias, mas pela construção do pensamento da personagem: o cérebro da protagonista dá voltas em torno do nada, cria mil possibilidades a partir de um respiro, se enrola, vai, volta, é absolutamente neurótico e sem sentido. Igualzinho o meu. Achei de um primor e de uma exatidão o como ela captura o fluxo dos pensamentos não como corrente, mas como novelo, que me parece uma forma muito mais próxima da realidade.

O último conto também me chamou atenção, é, de novo, uma mulher, listando os sinais de perturbação em si mesma. É tão sem sentido analisar, reconhecer e catalogar os sintomas da própria loucura e ao mesmo tempo me parece profundamente real (talvez por que eu faça isso?) e talvez resuma bem a escrita da Lydia Davis: um fluxo de consciência extremamente auto-consciente.

É clara a influência de Proust, eu sentia ele em cada linha, mas ao contrário das frases longas, repletas e ricas, Davis tem frases mínimas, econômicas, sintéticas. A escrita dela é tão seca que me lembrou o Coetzee, de quem eu só li um livro (Disgrace), mas pelo menos nesse livro era alguém de uma escrita muito mais para fora, para o mundo, o real, o social, o que quer que seja. A Lydia Davis faz uma escrita do interior, do íntimo.

Acho que o que me ganhou tanto foi essa junção de uma literatura íntima com uma linguagem seca. Meus escritores preferidos são Hemingway e Plath e a Lydia Davis parece juntar os dois com um tipo de precisão que nunca tinha me conquistado na literatura, mas é algo que eu gosto muito no cinema. Ela fala do íntimo, mas escapa à influência óbvia da Virginia Woolf e é faz algo muito mais exato, limpo, preciso.

Eu uso muito esse conceito de preciso para falar do cinema do Haneke e do Kubrick, acho que o que quero dizer com ele é um domínio da técnica que permite encaixar o plano que é exatamente necessário em um momento, mas de uma forma que vai além do óbvio. Não é o plano esperado, é o plano perfeito. Mas não perfeito de uma forma totalmente genial e única e transcendente como o Tarkovski, é perfeita dentro dos quadros da técnica. E é isso que me parece que a Lydia Davis faz.

Ela retira o excesso e ordena palavras de uma forma exata, mas não óbvia. E ela consegue captar o funcionamento não exato e não racional da mente humana. Talvez não seja bem um fluxo de consciência, talvez seja uma polaroid de estados de pensamento (de perturbação?)

Anúncios

1 comentário

  1. Eu li um conto só dela, o da mulher obcecada com o namorado que vc mencionou e nao me empolguei. Tanto que agora lendo seu post, me pareceu que vc estava falando de outra pessoa/escritora.
    Claro que está tudo bem se eu nao sentir a mesma coisa que vc na minha leitura, mas vc foi tao elogiosa que me deu vontade de dar mais uma chance. =)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s