Que eu cansei da minha fuga

As pessoas viajam por mil motivos. Para ver lugares, para conhecer o mundo, para terem experiências espirituais, para se encontrarem.

Eu fujo.

Cada vez que eu entro em um avião, um ônibus, um carro, tudo fica onde eu estava. Cada vez que eu durmo em um quarto de hotel ele é minha casa, minha bolha, as quatro paredes dentro das quais eu concentro minha existência nesses poucos dias.

Essa sensação já me fez ter um pequeno romance em um quarto de hotel que eu tentei levar pra fora, mas desde o início sabia que não daria certo, que ele só existia na medida em que nós dois estivessemos fora do tempo e do espaço normalmente habitado. Das coisas que podiam ter sido e não foram.

Eu já fiz malas de impulso pro Rio de Janeiro porque é pra onde é fácil fugir. Eu já me internei lá por duas semanas porque continuava sem querer voltar pra minha própria vida. Hoje eu começo a desconfiar que estraguei o melhor esconderijo que eu tinha (mas isso é assunto pra outro post).

O assunto desse post é que eu fui pra Paris. Eu sabia que ia, mas ainda assim fui fugida. Com um plano de fuga bem elaborado e um mapa do tesouro, mas fugindo, como sempre. Então eu cheguei lá e não tinha mais cara de fuga.

Paris teve cara de casa, de uma forma como São Paulo nunca teve. E não é porque é Paris, porque é fácil se sentir em casa em um lugar como Paris. Não é. Pra mim nunca é e eu já fui a uma boa quantidade de lugares maravilhosos.

Paris não teve cara de casa pelo Pompidou (que é um dos meus lugares preferidos do mundo), teve cara de casa pelo supermercado, o metrô, o cheiro do vento, a humidade do ar. É uma sensação nos meus ossos que não achei que fosse ter, que eu não achei que fosse para mim. Uma sensação de caber no cenário, de respirar no ritmo certo, do sol bater do jeito exato para minha cor de cabelo. É estúpido, é clichê, é poético do jeito que eu menos gosto de ser poética, mas também é verdade.

Eu sei que vou chegar lá e querer fugir. Eu sei, eu me conheço. Eu sei que tudo que eu tenho feito nessa vida é tentar ignorar o que eu sei: que eu perdi a pessoa que me fazia sentir em casa, que casa era onde eu estaria com ele e eu perdi. Perdi porque ele não existe mais.

Mas talvez, só talvez, eu não queira. Talvez eu tenha a mesma sensação que eu tive nesses dez dias, de que minhas partes encaixam ali, que eu me fundo como o resto exatamente como quando você acerta no quebra-cabeça.

Eu não sou otimista e essa esperança é muito leve, ainda assim, estou planejando a rota pra casa.

 

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(esse blog tem bons textos, esse definitivamente não é um deles, mas blog pessoal serve pra chorume de vez em quando então tá aí)

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