Go with the flow

Faz quase um mês que eu deveria ter escrito esse post. Ao menos, faz quase um mês que ele existe na minha cabeça. Mas talvez toda essa demora, o fato de que um mês depois ele continue existindo em mim mais ou menos da mesma maneira seja evidência do que quero dizer com ele.

Há coisas que nos fazem. Coisas que tornam a gente quem a gente é. Eu sempre fui um pouco fascinada, e bastante assombrada, pela ideia de que eu poderia ser completamente outra pessoa se algumas coisas tivessem acontecido diferentes. Eu pulei um ano na escola, poderia ter decidido não pular, aquela menina que foi minha melhor amiga poderia ter entrado em outra escola, eu poderia não ter passado um verão inteiro com gesso no braço, meus pais poderiam ter trepado em um outro dia, meus avós poderiam não ter conseguido sair da Polônia.

Mas há outro tipo de coisa. Aquelas que de alguma forma nós somos capazes de reconhecer como blocos, tijolos de quem somos. Eu consigo apontar algumas pessoas, uma pessoa em especial, que eu sei dizer o quanto me fez, o quando ainda corre nas minhas veias e o quanto por mais que eu tenha deixado para trás eu nunca deixei.

E quase um mês atrás, no meio do show do Queens of the Stone Age eu tive a sensação das coisas quem me fizeram quem eu sou. No meio de três dias em que eu usei vestidinhos estampados de coração com all star sujo de lama, aliás, no meio de três dias em que o que eu mais fiz foi enfiar o pé na lama eu quis voltar 8, 9, 10 anos e contar para o eu do passado que um dia ela estaria exatamente onde queria estar.

No One Knows foi a primeira música que eu aprendi a tocar no baixo. Baixo que eu escolhi porque era preciso ser hipster antes do termo até na escolha de instrumento. Foi a música que eu vi alguém tocar na bateria enquanto eu deitava em um sofá que eu não deveria deitar e perdia os tênis entre as coisas de uma outra menina. E perder os tênis entre as coisas de outra menina, não poder ser a menina que deixa as coisas ao lado da bateria, também me fez quem eu sou.

Há coisas que se pode perder. E eu fiz um longo e dolorido experimento de descobrir, do pior jeito possível, tudo aquilo que eu não posso perder, porque são parte da estrutura, dos ossos, do esqueleto de quem eu sou. A música, algumas músicas, são parte disso.

A música que me lembra que um dia eu pintei o cabelo de rosa na pia e quis mudar o mundo. E eu falo tanto nisso, tanto nessa menina que eu fui porque ela me assombra ainda hoje, porque ela vive como a pior juíza das escolhas que eu faço quanto adulta. Porque ela é parte do que me faz quem eu sou.

Parece irônico que hoje eu me sinta em paz com minhas escolhas sabendo que uma menina de 16 anos de cabelos rosa e unhas pretas aprovaria. Mas ela sabia, ela sabia de tudo que eu ia ter que aprender a lidar porque não queria abandonar, porque ela não queria, não quer morrer.

Há coisas que nos fazem quem somos. Enfiar o pé na lama enquanto uma banda me lembra da pequena tormenta que eu sempre fui certamente é uma delas.

Anytime you became the girl that you wanted to be
Oh I told you all along there was no point looking to me

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