Gatinhos, `as vezes, são algo realmente triste

Ontem à noite eu perdi um gatinho. Ontem a noite porque esse post é programado, no caso eu estou escrevendo enquanto perdi o gatinho. E talvez, talvez, eu nem o tenha perdido. Talvez ele ainda esteja zanzando pela minha garagem e essa história tenha um final feliz. Mas eu não acredito realmente em finais felizes.

Eu estava saindo do alemão, fui pegar o carro no estacionamento e uma coisa pequenininha, branca e querida veio se enroscar na minha perna. “Ele tá procurando uma dona”, o moço me disse. Por um minuto eu pensei que não devia, que eu não sabia se ele tinha alguma doença, se ia acabar brigando com a Cléo, se, se, se. Mas eu não sou o tipo de pessoa capaz de deixar um filho de gato para trás, simplesmente não sou. Da mesma forma que eu demorei tanto tempo para desistir de alguém que precisava de mim, mas não me deixava chegar perto. E me dói até hoje se eu penso por muito tempo no que queria ter dado a essa pessoa.

Ele entrou no carro, mal miou, mas na hora de sair entrou de baixo de um carro. Pus comida, leite, água, esperei, esperei, ele veio, comeu, quase me deixou colocar a mão nele e outro carro chegou. Assustou com o barulho e sumiu. Engraçado, podia mesmo parecer a descrição de alguns dos meus relacionamentos.

O que dói em tudo isso é que eu me apeguei ao gatinho. Antes de chegar em casa ele já tinha nome: Gatsby, se fosse macho, porque é o nome que há anos eu sei que seria do meu próximo gato, ou Margarida, se fosse menina, porque afinal eu estava saindo do Goethe. Quem lê isso até pensa que eu sou aquela menina que você sorri e ela acha que você é o amor da sua vida. Não sou. Às vezes até queria ser.

Eu demoro a me apegar. Eu demoro pra deixar chegar perto. E eu fujo se fazem um movimento brusco, se tentam me segurar e eu não esperava. Eu me entendo com os gatos: é um carinho infinito, um amor enorme e intuitivo, que sempre vai saber quando você precisa de uma lambida, ou de um afago, mas você precisa esperar que eles venham até o seu colo. Talvez porque eu seja tão arisca, tão arredia em tudo, dói quando eu me apego a algo que vai embora.

Eu perdi dois gatos já, um para a velhice, a outra pro acaso, que é o nome que gente bem educada dá pra destino. E eu perdi esse gatinho que já era meu, de olhinhos azuis tão expressivos. Eu sempre reparo nos olhos dos gatos, a coisa que eu mais gosto na Cléo, minha gata já estabelecida, é que ela tem os olhos da exata cor dos meus, que tem uma cor um pouco esquisita.

Dói a sensação de que ele é tão pequeno e eu não soube cuidar. Assim como eu não sei cuidar de todas essas coisas que escapam fácil. Mas dói que eu queria, que ele me seguiu até o carro, me olhou como quem quer ser levado embora, mas não soube ficar. Dói mais do que quando um ser humano fez exatamente isso comigo, dói mais do que quando eu fiz com seres humanos.

É curiosa a tristeza das coisas tristes. Objetivamente, concretamente tristes. Esse blog foi muito feito da minha melancolia, disso que corre nas minhas veias e me faz ter um pé do outro lado e de alguns momentos em que eu achei que não convinha contar de onde vinha a concretude da tristeza. Mas perder um gatinho é algo triste, não importa quantas vezes aconteça e não importa que ele foi meu por meia hora.

Ele foi meu. E me faz sentir a dor das coisas que foram embora antes que eu deixasse de querer que elas ficassem.

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1 comentário

  1. eu sou um ser sentimental e gatinhos, principalmente brancos,pequenos e de olhinhos azuis me lembram…bem.. chorei lendo isso =/

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