Sobre Ulysses, iogurte e o quanto isso não importa

Um tempo atrás, a essa altura já não sei se há algumas semanas ou alguns meses, eu sai com uma amiga e também não lembro porque eu comecei a dizer “porque aí, eu estou lá comprando iogurte grego e de repente eu percebo que parei no meio do supermercado, estou segurando um potinho azul e contemplando a existência de um jeito que parece fucking Ulysses na minha cabeça” (na época eu estava lendo Ulysses, que eu acabei faz um tempo e gostaria de poder marcar um ponto na coluna “ser humano adulto completo”, mas sei que não, não faz diferença).

E meu deus, poucas coisas que eu já disse foram tão verdadeiras quanto essa frase.

Estou eu fazendo qualquer coisa cotidiana, prática e necessária da vida e pah, de repente eu paro e sou completamente incapaz de continuar me comportando como ser humano normal pelos próximos dez minutos. Eu estou lá, sendo razoalvemente pragmática e responsável, comprando iogurte e coisas cozinhaveis em vez de miojo e bolacha e de repente eu me pego pensando que biscoito é uma palavra muito mais instintiva para mim, mas eu meio que insisto em falar bolacha por puro e simples hábito de birra desenvolvido ao longo dos anos para irritar minha mãe carioca. No que eu obviamente começo a pensar nesse meu hábito de fazer birra com as coisas e, por exemplo, ter a necessidade insuportável de responder com “não, sou um holograma” (ou outra resposta engraçadinha do tipo) cada vez que alguém pergunta “já chegou?”.

E aí eu estou contemplando toda minha estrutura psíquica/emocional/atômica/subatômica no corredor do supermercado. Ou no ponto de ônibus. No caixa eletrônico. Na fila do pão.

A Dindi tem um texto maravilhoso sobre essa nossa mania de achar que somos só nós que fazemos uma determinada coisa. Obviamente, embora meu ego queira achar o contrário, eu não sou a única pessoa que se vê contemplando as escolhas da vida enquanto tenta simplesmente viver. E eu não sou a única pessoa do mundo com tanta dificuldade de ser pragmática, prova é que eu não sou a única com um diploma em cinema e um mestrado em ciências da religião (quero adicionar habilidades em sueco e russo, mas está um pouco difícil a prática da coisa).

Então não sou só eu que quando tem que realizar uma tarefa simples da vida cotidiana se vê paralizada pela cotidianeidade (não me importa se não existe) da vida. Joyce foi lá e escreveu 1100 páginas sobre isso, 1100 páginas herméticas e maravilhosas. Então não, não sou só eu.

Mas é uma sensação de uma solidão brutal, essa de se sentir paralizada pelo fato da vida ser só vida. É desolador esse momento que você se vê escolhendo um iogurte em detrimento de outro e pensa “é só isso?” Sim, Isadora, é só isso. E você não é James Joyce.

 

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