Lady Lazarus

Do you think that I can’t feel
When I touch you there’s words on your body

Esses dias eu escrevi na minha pele. Eu já tinha algumas tatuagens, mas dessa vez eu escrevi algo, explícito, direto. Eu estampei nas minhas costas um verso de Lady Lazarus, Sylvia Plath dizendo “for the eyeing of my scars, there is a charge”.

É curioso se você pensar que tatuagens nada mais são do que cicatrizes. Eu já disse isso aqui, mas eu marco muito fácil, um arranhão de gato, um acidente com a faca, aquele dia que você me segurou mais forte. Meu corpo é coberto de marcas: sardas, manchas, cicatrizes, tatuagens, um eventual hematoma está sempre lá.

E conforme algum tempo passa, a novidade passa, uma tatuagem é como uma marca de nascença: algo que faz parte da sua pele, que está ali, como parte intrínseca, inseparável de você. As pessoas me perguntam se eu vou enjoar e eu nunca consigo faze-las entender que já não há o que enjoar, elas estão ali e pronto, são parte de mim, é como se tivessem sempre existido. É como me perguntar se eu enjoo da cor dos meus olhos.

Mas é claro que são marcas que você escolhe. São a parte da sua história que você decidiu contar na pele, em oposição aqueles que o mundo impôs em você. Eu não escolhi afinal cair em uma tamareira aos dez anos de idade, mas eu escolhi o Hamsa na minha nuca. E eu escolhi dizer que para olhar minhas cicatrizes há um preço.

Essa é a tradução que eu encontrei na minha versão de Ariel, que é bilingue, mas eu não gosto dela. Eu acho que a frase original tem uma ambiguidade que a tradução perdeu, me parece que o que a Sylvia Plath queria dizer não é apenas que há um preço a ser pago para se chegar perto, mas que uma vez perto há um custo.

Lady Lazarus é um poema sobre o que há de mais escuro naquela que fala e não se sai ileso de chegar perto disso. Eu gosto mais desse significado, foi esse significado que me fez tatuar essa frase. Sim, claro há um preço para se chegar perto, ou pelo menos, há um longo processo, especialmente no meu caso. Mas me interessa menos pensar nas barreiras entre eu e os outros e sim no fato de que é impossível sair ileso se alguém te deixa chegar perto suficiente para ver suas cicatrizes.

Talvez especialmente aquelas que fecharam errado.

foto (5)

 

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