Correções

… cada família infeliz é infeliz à sua maneira 

Eu não sou boa com pontualidade, qualquer um que já saiu pra tomar cerveja comigo sabe disso. Eu tenho alguns talentos: senso de humor sarcástico, fazer doces e consolar pessoas, mas pontualidade e organização definitivamente não fazem parte deles. Assim, eu venho aqui agora falar de The Corrections, quase um mês depois de ter lido o livro.

O engraçado de falar de um livro um mês depois de ler é que eu não lembro mais o que queria originalmente vir falar. Não lembro há ponto de ter passado os últimos dez minutos encarando a página em branco do WordPress e considerar “deixa, demorei demais”. Mas não, não. The Corrections, vamos lá.

The Corrections é um livro longo. Longo, com vários narradores, várias histórias e aquela história tradicional de “o que há por baixo do subúrbio americano” que aliás eu gosto muito. Talvez seja ter crescido em um lugar que, se você parar pra pensar, parece um pouco os subúrbios americanos de livro, mas algo nessas histórias me atrai. Me lembra ouvir que eu estava ali porque minha mãe tinha escolhido estabilidade, segurança e calma e então descobrir que a ex-namorada do cara com quem eu ficava pulou da janela.

Ou talvez seja meu simples desgosto por tudo que é organizado, limpo, “como se deve”. E talvez por isso eu tenha gostado tanto de The Corrections.

Em Freedom (que eu gostei até mais) o Franzen trata de personagens que querem escapar, aqui eles querem se conformar, se corrigir. É um livro sobre uma mulher que só gostaria que seus filhos fossem como deveriam ser, sobre um homem que teme ser deprimido mais do que tudo porque isso não é como ele deveria ser, sobre outro que foge de tudo que o pai acha que ele deveria ser porque isso é que ele acha que deveria ser e sobre uma moça que faz todo o esforço para ser algo, mas nem sabe bem que raios deveria ser.

Eu me identifiquei com ela. Eu grifo livros e eu recobri de asteriscos e setas as partes da Denise. Não que eu seja idêntica a ela (ela é, afinal, organizada), mas a sensação de que há um padrão a ser seguido mesmo que você não saiba exatamente qual é ele soou bem familiar.

The Correction é um livro sobre uma família infeliz. Infeliz como todas as famílias são infelizes, embora cada uma à sua maneira. Mas The Corrections é um livro bem próximo da maneira da minha família de ser infeliz, aquela maneira que espera que você seja algo e é claro que você (ninguém) nunca é. É um livro sobre querer se corrigir, de que, por que, ninguém sabe.

No fim de The Corrections os personagens acabam bem. Porque querer ser o que você deveria não é um grande drama e o Franzen é realista: há algo por baixo da existência de subúrbio, há algo por baixo de toda família, mas no fim nós estamos aí, razoavelmente bem, a maior parte da humanidade. Talvez seja um livro sobre isso, sobre ser ordinariamente infeliz como todo mundo o é, e talvez por isso eu tenha gostado tanto.

(esse não é absolutamente o texto que eu tinha planejado, mas oh well)

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