The artist is present

“Okay I read this article about Fiona Apple in New York Magazine where she said, ‘Oh everybody acts like I’m nuts. I’m not nuts. I just want to feel it all.””

Eu só quero sentir tudo. Nesse último álbum da Fiona Apple a primeira coisa que ela diz é “I just wanna feel everything” e soa romântico, boêmio, um pouco saído de um romance do Kerouac, porque é fácil esquecer que um pouco antes ela disse “every single night is a fight with my brain”.

Eu gosto da ideia de sentir tudo. De aceitar cada coisa que vem, absolutamente todas as coisas. De entrar em relacionamentos que eu sei que vão dar errados, de pegar ônibus com cabras na Bolívia, de ceder a curiosidade de encostar meu dedo um pouco mais perto da chama, de me apegar.

Sentir tudo envolve uma quantidade imensurável de dor. Porque a vida é assim e na maior parte do tempo tudo que você ganha é mesmo decepção e sofrimento. E eu já disse aqui outras vezes, que eu tenho uma atração um tanto perturbadora por tudo que dói.

Mas é uma coisa se deixar machucar, chorar e sofrer no conforto do seu lar. No chão da minha casa eu me arrasto, choro ouvindo Edith Piaf e considero que aquela garrafa de vodca cheia na geladeira talvez seja suficiente pra minha dor passar. Mas é outra coisa fazer como a Fiona e transformar essa vulnerabilidade em arte.

Mas é mais que isso. Para se chegar nesse nível de “sentir tudo” que pode ser transformado em arte é preciso se despir de tantas defesas, é preciso uma vulnerabilidade tão sincera, tão crua, um desapego de si que soa quase suicida. É preciso ser a Marguerite Duras, menina, na balsa sobre o Mekong, de vestido transparente, totalmente pronta para amar ou não amar o Chinês.

E é essa a arte que me interessa. É a Sylvia Plath dizendo em Lady Lazarus “The second time I meant /To last it out and not come back at all” é a Fiona Apple assumindo que every single night is a fight with my brain. Me interessa fazer essa arte, me interessa me colocar nesse lugar completamente vulnerável a tudo, perder todas as cascas e deixar que minha pele absorva tudo que encosta. Me interessa a Marina Abramovic sentada, aceitando cada estranho que se coloca diante dela.

Esses dias eu me vi frente a essa questão. Frente a possibilidade de lembrar que sou gato escaldado. Eu senti, eu ainda sinto, o gosto do meu próprio coração se partindo. Eu ouço pulsar nos meus ouvidos aquele anúncio antigo de que vai doer, de que eu vou cair. Eu poderia ir embora, ou eu poderia fechar as portas dentro de mim. Simples, limpo, ascético, sem sangue, sem dor, sem sofrimento. Sem me envolver onde não me convidaram a me envolver, sem entrar com os dois pés onde eu não deveria ter nenhum.

Mas então eu quis fazer o experimento. Eu quis não lembrar que eu já sei o que vai acontecer. Não ser madura, ou experiente, não ter medo. Vestir o vestido de linho fino e transparente da Marguerite Duras e deixar que o Amante Chinês vire seu mundo de cabeça para baixo, mesmo que você saiba desde o início que o final não vai, não pode ser feliz.

Não é sentimentalismo. Não é amor. É a vontade de deixar meus ossos serem triturados porque aqui onde eu estou inteira não há arte. E é mais que isso, é aprender a me alimentar da minha própria vulnerabilidade. É ir contra todos os meus instintos: eu sou reservada, orgulhosa, distante. Mas eu me proponho a ser experimento de mim mesma, de expor (não aqui, vejam bem), de trabalhar, de construir uma fragilidade assustadora e tirar o que eu puder dela. É consciente, é difícil e é dolorido desde já. Talvez por isso eu esteja dizendo isso publicamente, para não poder desistir.

Ao mesmo tempo é empolgante e eu me sinto mais perto do que nunca do que eu realmente quero encontrar.

My heart’s made of parts of all that surround me
And that’s why the devil just can’t get around me

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