Ai Weiwei, Pompeia e Hiroshima

LUi: tu n’as rien vu à Hiroshima. Rien.

A utiliser à volonté. Une voix de femme, très voilée, mate égalemant, une voix de lecture recitative, sans ponctuaction, répond: 

Elle: J’ái tout vu. Tout.”

No início de “Hiroshima, Meu Amor”, a Emmanuelle Riva repete, insistente, urgentemente que viu tudo, tudo em Hiroshima. Eiji Okada responde categórico, firme, que ela não viu nada em Hiroshima. Eu analisei essa passagem exaustivamente, eu escrevi sobre ela, eu li Proust e Bergson e eu soube que todo o filme se continha nesse diálogo. Eu inventei uma hipótese, eu defendi essa hipótese, eu acreditei que havia entendido o que esse diálogo queria dizer.

No fundo eu sabia que não havia entendido. Que eu não tinha visto nada em Hiroshima.

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Em janeiro eu fui à Pompeia e eu poderia dizer que vi tudo em Pompeia. As casas, os mosaicos, o museu, os corpos queimados. Mas enquanto eu andava, em um dia morno e chuvoso do inverno italiano, algo dentro de mim dizia, no mesmo tom inequívoco do Eiji Okada, “você não viu nada em Pompeia”.

Dois dias atrás eu fui ver a exposição do Ai Weiwei no MIS. Antes de entrar eles te pedem para tirar os sapatos, como ao entrar em uma casa chinesa, como ao ser revistado pela segurança. Você segue descalço, pés no chão branco, imaculado do MIS e a primeira coisa que eles te dão é uma série de fotografias da Nova York da década de 90.

São fotos do Village, do Lower West Side, de artistas, do Allen Ginsberg, do próprio Ai Weiwei, de gatinhos. De protestos em fontes, de moças de vestido florido e botas grunge, da Kathleen Hannah. São fotos que congelam o tempo, retratos íntimos, ternos, de gente querida que vivia em uma época e um lugar que já não existe mais.

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Toda a exposição fala da possibilidade da arte capturar a vida. Da arte como experiência vivida. Daí ser necessário tirar os sapatos. Tirar os sapatos em público, na frente de estranhos, pisar no chão frio do museu.

Quando eu via aquelas fotos, ali descalça, a sensação que eu tinha era de olhar para um sonho, para um filme, para algo irreal. Eu podia ver aquelas imagens, mas eu era incapaz de capturar o verdadeiro sentimento ali. Era uma exposição sobre a vivência da arte, mas eu não podia vivenciar aquilo que me era mostrado, eu só podia ver.

Eu vi Pompeia, mas eu não vi nada em Pompeia. Eu vi corpos carbonizados de quase dois mil anos atrás. Eu vi casas inteiras, mosaicos perfeitamente preservados. Eu vi uma cidade fantasma. Eu saí fascinada por ter andado por uma cidade inteira da época do império romano, com detalhes tão delicados que minha lembrança de Machu Picchu ficou pálida. Quase dois meses depois eu tenho a impressão que parte do meu fascínio veio do vazio, de andar em um lugar que ao mesmo tempo era e não era mais. Que congelou no tempo.

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Pompeia não morreu como as coisas naturalmente morrem, ela parou. E esse contraste entre uma cidade que parecia tão naturalmente habitada, mas não era, talvez seja responsável pela sensação de estar fora do tempo, fora do mundo que eu tive ali.

Em Pompeia eu entendi um pouco do que eu convenci o mundo que tinha entendido. Na exposição do Ai Weiwei eu senti a imensa distância entre arte e vida que eu detesto que exista, mas que é inevitável, mesmo quando você tira os sapatos.

Nenhuma dessas coisas se conectam, exceto nas terminações nervosas do meu cérebro e é um pouco isso: a gente vê, mas tem um fluxo vivo ali que não, ninguém apreende. A Emmanuelle Riva não viu nada em Hiroshima.

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(as fotos são minhas, a citação no início é do roteiro de Hiroshima, Mon Amour, da Marguerite Duras)

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