Amor, Emanuelle Riva e tudo que eu não devia dizer

Eu esperei que saísse a minha crítica de Amor pra vir falar do filme aqui. Eu esperei estar em algum lugar o que eu, como pessoa formada em cinema, metida a crítica e acadêmica tinha a analisar. Tá por aí na internet, procurem que vocês acham. 

Eu não tenho exatamente medo da morte. Eu giro em torno da morte como uma questão que define a vida. Meu mestrado é sobre o sentido da existência face a iminência da morte. Minha iniciação foi sobre como respirar na onipresença da morte. Mas eu não tenho medo.

Ao contrário, talvez eu me sinta mais atraída por ela do que seria sensato dizer aqui. Talvez eu tenha flertado com a ideia mais vezes do que seja saudável assumir em qualquer lugar. Ou talvez eu só esteja fazendo o papel da escritora trágica por questões estilísticas.

Mas quando acabou Amor tudo que eu queria era um abraço. Eu tinha a impressão que, ao contrário do Jesse, eu precisava que alguém me tocasse para que eu tivesse certeza que não ia me dissolver em moléculas. Eu tive sorte. Eu tive sorte de ter ido com alguém que colocou a mão em volta do meu ombro e me apertou um pouquinho. Alguém que parecia ter tanta necessidade de tocar outro ser humano naquele momento quanto eu.

E eu precisava tanto ser tocada porque de alguma forma eu precisava me sentir humana. O que me doeu em Amor não foi a morte. Não no sentido físico, literal, biológico. O que me doeu ali foi ver o ser humano reduzido a corpo, a carne. É ver a Emanuelle Riva, que habitou tão magnificamente (embora de forma um pouco opressiva) a minha iniciação ser virada de um lado pro outro por uma enfermeira, como um saco de batatas.

Me doeu que durante todo aquele filme ninguém dizia o que era óbvio: Anne já estava morta. Me doeu que ninguém desligasse aqueles equipamentos, que ninguém desse uma dose um pouco maior de morfina para ela que ninguém acabasse com aquilo. Que ninguém lembrasse que ela era humana, cérebro, espírito, e não um corpo. Me doeu a absoluta fisicalidade a que ela era reduzida e na qual ela ficou encarcerada.

Ironicamente quando acabou eu precisei ser tocada fisicamente. Mas porque eu precisava que alguém reconhecesse que eu estava ali. Inteira.

O Bergman fala de uma morte em vida, a morte nos filmes dele só doem porque explicitam uma vida que não valeu. Haneke, sendo o Haneke, dá a essa morte em vida uma dimensão biológica, crua. Haneke sendo o Haneke te lembra do que você não quer lembrar: você é só matéria.

A morte não me assusta. A ideia de ser prisioneira de algo tão físico, tão fora do meu controle, sim.

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1 comentário

  1. “Ou talvez eu só esteja fazendo o papel da escritora trágica por questões estilísticas.”

    Ce escreve muito bem. Percebo que eu gosto mais da morte do que seria saudavel quando assisto “Mortes Bizarras”no Discovery Channel :B

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