Abismo

“He’d pull me back into the center, and I want to stay as close to the edge as I can without going over. Out on the edge you see all kinds of things you can’t see from the center.” 

“I want to stay as close to the edge as I can without going over”. É engraçado esse equilíbrio da margem, é engraçado isso de viver na margem.

Na beira do precipício a vista é maravilhosa, o ar parece mais limpo e tem uma emoção toda particular de andar na beira, de saber que a qualquer momento você pode cair. Eu sempre gostei de riscos, de apostas altas, de brincar com o fogo.Mas andar no abismo não é exatamente como brincar com um isqueiro.

As vezes eu tenho a impressão de andar numa linha muito tênue, ou de estar sentada na beira do penhasco olhando para todas essas coisas que você não vê do centro. Eu chego muito perto, perigosamente perto do que é escuro demais, em mim e nos outros e cada vez que eu volto é uma aposta, uma aposta em que eu não tenho assim tantas chances de ganhar.

Essa frase do Vonnegut me assombra e me fascina desde a primeira vez que eu li porque é exatamente isso. Eu não quero me sentir mais segura, eu não quero ter mais certeza da minha sanidade ou da minha capacidade de funcionar no mundo. Eu quero continuar na linha, eu quero continuar sendo capaz de ver tudo aquilo ali do outro lado, eu quero saber o que me espera no dia que eu tropeçar e cair.

E as vezes bate um vento mais forte, ou eu me desequilibro (eu bebo demais, afinal) e eu sinto o que está ali embaixo. Eu não só vejo, mas sinto correr no meu sangue aquilo que me espera se eu perder esse equilíbrio. Eu tenho dias horríveis, eu tenho dias em que a gravidade do penhasco é muito forte e tudo ali parece tão fácil, tão tentador, mas eu não consigo ver o fundo.

Eu vivo andando na beira do precipício e falando sobre o que eu vejo lá embaixo. Eu vivo prendendo estacas, cada vez mais estacas, onde eu posso me segurar se perder o equilíbrio. Mas parte de mim tem certeza de que está apostando contra as possibilidades. Uma hora eu vou cair.

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1 comentário

  1. Atenção – Spoiler: A gente cai sim, Isa, um dia, de tanto tentar, de tanto arriscar. Daí , nesse dia, descobre que não é a morte que espreita lá de baixo. É algo às vezes mais cruel, mais complexo e de certa forma mais interessante: A descoberta de outras possibilidades de existência. É a certeza de que não haverá descanso (senão os que nos oferecermos). De que outras quedas virão, e de que sobreviveremos — para os bens e para os males que há nessa continuidade.

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