Eu não sou Zooey Deschanel

Manic Pixie Dream Girl. A gente lê um monte sobre isso ultimamente, sabe, aquela menina linda, espontânea de um jeito fofo, inteligente e que magicamente tira o cara do limbo em que ele estava. Claire Colburn, Natalie Portman em Garden State, Zooey Deschanel dia sim, dia não e toda essa gente aqui. 

Eu quis muito ser essa menina. Eu quero ainda. Eu tentei uma vez e meio que consegui. Eu fingi ser algo que não era, eu fingi não ter todas as minhas dores, falhas, cicatrizes e neuroses e tirei um cara do buraco onde ele estava. O problema é que ele não queria todos os pequenos dias em que eu me sentiria mal, os dias em que eu queimava o bolo, que meus planos davam errados, que eu sentava no chão e chorava. O problema de ser a Manic Pixie Dream Girl de alguém é que você não tem direito ao seu próprio buraco, não tem direito a colo ou dor, não tem direito a pedir atenção, toda salvação é só para ele.

Eu ainda quero salvar pessoas, eu ainda quero conseguir tocar quem sempre afasta a mão, mas eu mudei de filme. Se for para salvar alguém eu quero ser a Bibi Andersson em O Sétimo Selo, a Marianne em Morangos Silvestres. Eu quero ser aquela que, com toda dor que as personagens do Bergman sempre tem, fica apesar de tudo. Fica porque algum momento alguém tem que ficar, porque algum momento alguém tem que aceitar todas as falhas e dizer que entende.

Eu quero ser, mas não sou. Ser essa pessoa requer ser vulnerável, requer se colocar em um lugar onde você pode se machucar, onde alguém pode te machucar, conscientemente e as vezes de graça. Eu não sei mais fazer isso. Eu não sei mais ficar ali e esperar que as vezes eu vá apanhar, mesmo que no fim valha a pena. Eu não sei porque eu fiz demais. Eu não sei porque eu gastei toda vulnerabilidade e toda doçura, eu gastei a menina pequena e loira de sorriso bonito. Eu fiquei fria porque fui a Manic Pixie Dream Girl.

A gente morre um pouquinho cada vez que tenta ser o que não é. Eu tentei ser leve demais e matei a pouca leveza que eu tinha. Sobrou uma bagunça que eu não tenho coragem de pedir pra ninguém olhar de perto, muito menos me ajudar a limpar.

Cuz I know I’m a mess he don’t wanna clean up
I got to fold cuz these hands are too shaky to hold
Hunger hurts, but starving works
When it costs too much to love

(talvez eu seja Fiona Apple?)

Anúncios

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s