Sangue

I want to be strong I want to laugh along
I want to belong to the living
Alive, alive, I want to get up and jive
I want to wreck my stockings in some juke box dive

All I Want- Joni Mitchell

– Vai começar tudo de novo não vai? Quer dizer, eu, eu vou começar de novo. Eu estava bem, ok, talvez não bem, mas eu estava quieta. Não me olha assim, eu sei o que você acha. Mas só é bonito de fora. Eu sei, eu sei que você nem sempre esteve fora, mas você mesmo disse que não era fácil. Eu estava quieta, eu gostava assim, eu gostava de querer a mesma coisa por mais de 5 minutos. O que eu quero? Não sei. Eu quero ir embora. Para Suécia. Para Paris. Para Buenos Aires, para Austrália, quero ver aurora boreal. Vietnã! Não sei, não me importa… Por que? Porque não quero ir, quero ficar. Claro! eu quero escrever essa dissertação, claro que quero. Claro que não vou mudar de tema. Claro que quero mudar. Ah sim, não, esses eu não vou escrever. Tenho, três ideias, talvez uma delas eu escreva, a outra é muito cedo, a última não posso. Não posso porque preciso saber o que você viu, o que eles viram, o que eles fizeram, não quero, não posso saber. Desculpa, eu sei, mas eu não posso, foi sua escolha e o que você viu é só seu, não posso carregar junto. Por que? Não sei, mas eu já bebia demais quando você me conheceu, deve ser para desacelerar. É, sabe? quando tudo começa a ficar mais devagar, eu penso mais devagar, eu quero menos coisas. É claro que eu quero querer menos coisas, ninguém pode fazer tanto. Se eu durmo? as vezes, nem todos os dias, mas eu nunca dormi todos os dias, você sabe disso. Eu não fumo demais, você fuma muito mais que eu. Não quero parar. Sim, um dia eu paro. Não agora. Por que? Não sei, você me faz perguntas difíceis demais. Não, não é por isso. Talvez seja porque eu não devo. O que você quer que eu diga? Eu sempre tive um gosto por quebrar regras, só por quebrar, tem um gosto ótimo. Como beber rum cubano escondido direto da garrafa, você lembra? Você disse que eu tinha um jeito adorável de desprezar tudo que era sensato e eu disse que ia ser meu fim, você disse que não, que por qualquer motivo eu sabia fazer isso. Que eu era mais Hemingway que Kerouack, que eu ia durar. Eu te amei naquele minuto como em nenhum outro, mas você estava errado. Porque eu tentei ser sensata. Sim, eu sobrevivi, mas só metade, não inteira e minhas cicatrizes fecharam do jeito errado. Sabe tudo que você viu? Eu também vi, só que do lado de dentro. Eu sei que você sabe. Sim, é por isso que eu fujo, mas não é a dor que parece ser, é que eu já não tenho partes de mim mesma para perder. Não, é claro que você arrancou algumas e é lógico que ele arrancou outras, mas não é disso que eu estou falando. Estou falando das que eu mesma matei, com você, com ele, com os outros. Eu não tenho medo do que vocês me arrancam, eu tenho medo do que eu mesma tento matar para conseguir ficar. Eu nunca quero ficar. Não, nem com você. E no fim eu fiquei né? Você foi embora, mas você também nunca quis ficar, então talvez faça sentido. Agora? Não, é claro que eu não vou embora, o que ia adiantar? Você sabe que não adianta, que não passa, que nunca passa. Que eu comecei tudo de novo, que todos esses anos em que eu consegui parar no olho do furacão, estável, sensata, anestesiada, acabaram. Como? Viva.

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