Recordações da Casa dos Mortos

“Fiquei pensando que todos eram nomes de pessoas mortas, e que a única coisa que os mortos guardam, basicamente, é o seu nome”

(Jonathan Safran Foer em “Extremamente Alto e Incrivelmente Perto”, página 352)

Eu já fui em mais museus do holocausto do que gostaria. Algo em mim detesta esses museus, mas minha mãe gosta deles. Aos 6 anos eu não pude entrar no de Jerusalém e fiquei horas brincando do lado de fora. Aos 11 anos eu vomitei lá dentro.

Em todos esses museus existe, de alguma forma, uma lista de nomes. Infinitos nomes com sobrenomes iguais, parecidos, de gente que se conhecia ou não, que morreu na mesma aldeia, no mesmo campo, ou não. Como metáfora, todo mundo morreu em Auschwitz. Eu não conheço essas pessoas e eu sempre detesto a sala com os nomes.

Da mesma forma, em todos eles existe uma pilha de sapatos e um pequeno mostruário das coisas que se encontravam nos bolsos. Grampos de cabelo, cartas, bilhetes, canivetes, alianças, anéis, colares, chaves, documentos, pequenos brinquedos, moedas, dinheiro. Por uns dias eu posso lembrar de algumas histórias, de alguém cuja aliança não cabia no dedo inchado e por isso a usava em uma corrente, das fotos nas identidades, do grampo com uma libélula art noveau que alguma moça usava no cabelo, de uma boneca sem perna, que esse veio da Hungria, aquele da Romênia, esse morreu em Dachau, aquele em Birkenau, esse eu não sei pronunciar o nome. Eu conheço essas pessoas e eu gosto delas, a única parte que eu gosto é sempre o mostruário esquisito das pequenas coisas aleatórias que cada um carregava quando soube que ia morrer. Depois de alguns dias todas essas pessoas se borram, eu esqueço seus nomes, suas imagens, todos tem um certo ar parecido, um pouco os mesmos traços. E todos morreram em Auschwitz.

Eu não gosto desses museus, eu não gosto de perceber que o que foi construído pra lembrar eu não consigo guardar por mais do que dois ou três dias. E que a maioria dos nomes eu sequer leio.

“Quatre fois au musée a Hiroshima. J’ai vu les gens se promener. Les gens se promènent, pensifs, à travers les photographies, les photographies, les reconstitutions, faute d’autre chose, à travers les photographies, les photographies, les reconstitutions, faute d’autre chose, les explications, faute d’autre chose. ”

(Hiroshima, Meu Amor)

 

(eu disse que era o livro mais triste do mundo)

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