Where the wild things are

Faz tempo que eu não escrevo sobre filme nenhum, na verdade, faz tempo que eu não vejo algum filme que me dê vontade de escrever sobre. O que não quer dizer que eu não tenha visto bons filmes, mas em geral eu só escrevo sobre filmes que eu me pego identificando cada elemento, percebendo as intenções e sendo capaz de fechar uma rede mais ou menos racional do que eu acho que tudo aquilo significa. E o Fincher é o cara que sempre, sempre, faz isso comigo.

The girl with the dragon tattoo (porque eu não gosto do título traduzido, o blog é meu e eu chamo o filme como eu quiser) não é A Rede Social. Não é o filme moderno, um pouco truncado, que respira nouvelle vague e sem querer fez uma bilheteria enorme. É um blockbuster, sempre foi um blockbuster e o fato de que além disso é um puta filme talvez dê ainda mais mérito a ele. Não é que o Fincher não faça concessões, ele fez Benjamin Button afinal, mas esse filme é dele, em cada plano e principalmente naquilo tudo que não entra em plano.

A começar pela Lisbeth. Eu li muito sobre o como ela era uma personagem forte, uma sobrevivente, sobre o quanto ela era badass. Ela é badass sem dúvida, mas eu não vi nada dessa força, o que eu vi foi alguém terrivelmente frágil, tão frágil que é incapaz de controlar a si própria. Pro Fincher e para a Rooney Mara a Lisbeth é uma coisa selvagem, deslocada, inapta a vida em sociedade (e eu gosto muito de coisas selvagens).

E aí, no meio do filme eu comecei a perceber que talvez o Fincher tenha um tema comum: algo nele, algo em todos os filmes dele se incomoda profundamente com a asepsia, com a ordem, com tudo aquilo que está em seu devido lugar. Me parece tão óbvio falar que o desconforto com a ordem instituída e correta do mundo é o tema de Clube da Luta que vou pular essa parte, mas e todos os serial killers? Ele dirigiu Seven, Zodíaco e agora esse e o que é um serial killer se não a demonstração da violência  absoluta que permanece por baixo da ordem e do método? Em The girl with the dragon tattoo ainda existe, bem de leve no Fincher, imagino que mais forte no livro e na versão sueca, a sensação de que por baixo daquela Suécia organizada, limpa, toda feita de design minimalista em casas brancas e iluminadas existe algo de bárbaro, algo de nazista (e o que é o nazismo se não a brutalidade do exagero da ordem e da racionalidade? )

E é talvez por isso que a Lisbeth é no fundo o centro do filme: ela não sabe viver nesse mundo de linhas retas e limpas a violência dela é crua, instintiva, animal, o exato oposto da violência metódica do serial killer ela é o que pode haver de autêntico no mundo e, como em Clube da Luta, a imagem não é bonita. Eu gosto da fragilidade e do desespero dela, muito mais do que eu gostaria de uma personagem principal forte, da tal sobrevivente que todo mundo diz.

Dentro de todo esse desconforto a trilha me faz ter certeza que o Trent Reznor é pro David Fincher o que o Nino Rota foi pro Fellini. Em um momento eu cheguei a sentir falta de silêncios, de respiros, pensei que por mais que eu amasse o Trent Reznor aquilo tava meio demais, mas aos pouco fo fazendo sentido de que é isso mesmo, é excesso, é desconforto, é aquele zumbido na sua cabeça que nunca, nunca passa. Como a loucura. Como estar na mente da Lisbeth.

 

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