Hell, Paris 75016

Eu li Hell há dois ou três  anos atrás, no auge dos meus professores me dizendo que nada fazia sentido, que nós somos mercadorias perambulando pelo mundo tentando nos completar com bolsas de marca e ao mesmo tempo tentando fazer sentido de tudo a partir de nossa “arte”.

É óbvio que o livro caiu como uma luva e eu li ele inteiro em 3 dias (o último deles foi uma sexta a noite em que eu troquei a balada pela Hell) e por meses queria ser exatamente como ela: pessimista ao ponto de consumir sem culpa. E aos poucos eu cheguei um pouco nesse ponto, mas foi ao mesmo tempo que eu comecei a relativizar tudo aquilo que eu tinha aprendido e comecei a, lentamente, ir para outro lugar acadêmico.

Mas nada disso importa aqui, o que importa é que a Hell se fixou em mim como a síntese de todo o mundo da moda e do consumo como eu enxergava: um consumo louco de pessoas tentando construir uma identidade que no fundo é sempre inventada. Mas o que eu achava mais genial era a consciência dela disso tudo, a Hell inventa uma identidade, de menina linda e louca que é diferente do profundo amargor do interior dela. Pra mim, isso foi life changing, que eu podia criar uma menina linda e cool dos fundos da amarga que eu era.

Isso tudo para dizer que semana passada eu fui ver Hell, a peça e ela até que me decepcionou menos do que o filme, mas de um jeito diferente. Porque o filme não deixa de ser fiel ao espírito do livro, mas tem baixo orçamento e uma Hell que repete roupas simplesmente não é a Hell (mas a cena dela andando de bicicleta dentro de um apartamento é tão, mas tão triste). Uma peça é menos realista e por isso esse problema diminui, mas de novo, não é a Hell. A Hell não é uma adulta, nem uma neurótica, ela só tem 18 anos e, apesar de todo niilismo e de toda desistência dela, ela é só uma menina. Uma menina distante e fria, defendendo a si mesma por uma cortina de cigarros, cocaína e atitude blasé. Ela não é alguém que acende um cigarro pelo nervosismo, ela é alguém que acende porque isso preenche o vazio (assim, meio Anna Karina).

A Bárbara Paz é ótima atriz e a peça é inteligente e a montagem é muito boa, mas tanto ela quanto o Andrea ali já estão perto dos 30, tempo em que no livro ela já teria desistido de tudo, inclusive do pessimismo. Além disso ali ela é neurótica e frenética como o mundo em que vive, mas como alguém que pulsa na mesma velocidade do seu entorno pode percebe-lo tão acuradamente?  Eu não gosto de comparar filmes com livros, são meios diferentes, linguagens diferentes e isso também deveria valer para peças. Sendo assim, a peça é boa pelo que é, muito boa aliás, mas para mim não é a Hell.

Hell é um livro querido pra mim, porque apesar de não ser uma obra prima me ajudou a ter clareza sobre algumas coisas nesse mundo de roupas, perfumes e marcas. Esse mundo que é um pouco do que esse blog trata.

PS: eu acho esse cartaz do filme muito genial!

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