Sobre promessas e narrativas. Ou sobre crianças prodígio

Tem essa cena na minha cabeça desde que eu vi Gone Girl, quase um mês atrás. Não tem a ver com viradas supostamente geniais ou o discurso da cool girl, que sim, eu gosto muito, mas não, não é a cena que ficou na minha cabeça quando eu saí do cinema. Não é sobre ela que eu sabia que viria falar aqui assim que decidisse voltar pra cá.

É sobre a parte que a Amy e o Nick vão a festa para comemorar o casamento da Amazing Amy, a personagem que os pais da Amy criaram inspirados nela. “Amazing Amy era um prodígio do cello, eu larguei aos 10 anos. Amazing Amy jogou voley com bolsa na faculdade, eu saí no primeiro ano do ensino médio”, Amy vai contando enquanto passa pelas figuras. Amazing Amy está sempre um passo a frente, um lugar acima, ela é sempre melhor que a Amy real. Porque ela é uma promessa que se cumpriu.

Promessas muito raramente se cumprem. A realidade se recusa muito teimosamente e nos dar o que esperamos, a condizer com o cenário criado nas nossas cabeças. A frieza do real é algo que nossos cérebros meio que se recusam a conceber.

Ser uma criança talentosa, por exemplo, é um negócio horroroso. Eu fui uma criança particularmente talentosa. Eu tocava piano bastante bem, eu jogava tenis lindamente, eu dirigia e escrevia peças, eu pintava quadros, eu antes dos 15 já falava francês. Não importa se eu queria fazer alguma dessas coisas minha vida, importava a considerável facilidade com que eu ia tomando cada coisa que decidia fazer. Aos olhos da mini-Isadora não havia muito que ela não pudesse fazer, o mundo era só esse lugar que eu escolheria tomar do jeito que quisesse.

E ninguém se deu ao trabalho de me dizer que não era assim. Todas as pessoas em volta incentivaram, elogiaram, promoveram todas as capacidades artísticas da criança talentosa. Todas as promessas.

Acontece que a potencial pianista que eu fui aos 8 anos será sempre melhor que a pianista que não fui. Os livros que nunca escrevo são melhores que aqueles que de fato escreverei. O relacionamento que eu acho que poderia ter dado tão certo é muito mais bonito do que o que arriscamos realmente ter.

Não é que crianças prodígio sempre falhem. Eu me sentiria muito ingrata se dissesse que falhei, me sentiria terrivelmente egoísta se não concordasse que consegui levar com certa proeza quase todas as coisas que me propus a fazer. Mas eu vivo no eterno medo da potencialidade das coisas. Na eterna consciência de que a realidade nunca pode atender o que se espera dela.

Eu escrevo muito pouco, comparado com o que eu gostaria. Eu nunca, jamais, em hipótese alguma, penso duas vezes antes de publicar algo aqui. Eu encaro dois parágrafos seguidos de páginas em branco e não me convenço a continuá-los. Porque eu não consigo lidar de uma forma serena suficiente com a escritora que eu queria ser, com a expectativa, o desejo a, quem sabe, promessa na minha mente.

Eu tive esse relacionamento que durou um ano e às vezes as pessoas me perguntam porque ele nunca virou algo de concreto, estabelecido, por que nunca se chamou nada. Por vários motivos, um deles o medo que eu tinha da realidade e do cotidiano se aquilo virasse algo de verdade. Como era, era como caminhar no ar. Exatamente como caminhar no ar. Incômodo, perigoso, mas de uma poesia intensa. De possibilidade pura. Sabem desenhos do Pernalonga que só cai no penhasco se perceber que já está sobre o penhasco? Quando eu percebi que caminhava no ar eu caí, feio. Mas o melhor relacionamento da minha vida continua existindo só na minha cabeça.

Eu não preciso de lições de mora sobre arriscar as coisas, sobre aceitar a possibilidade da dor para ter felicidade, bla, bla, bla, etc, etc, etc. Não falo disso. Acredito nisso até, de certa forma, em algum grau, supondo que eu acreditasse me felicidade. Não, o que quero dizer é que sempre postulamos mais felicidade do que há no mundo. E mais talento. Mais sorte. Nada nunca é do jeito que prometido.

Em Gone Girl a criança prodígio não é a única promessa não cumprida. Há diversas promessas. De amor, de cumplicidade, de relacionamento, de identidade. Ninguém é quem gostaria de ser, no filme ou fora dele.

Parece simples de aceitar. Parece melhor do que tantas coisas que eu já consegui enfiar na minha cabeça. Mas não consigo. De todos os meus mesmos, talvez o da coisa que poderia ser seja o maior. Das promessas que murcham como aqueles balões de hélio depois de alguns dias.

Mas não consigo. Porque narrativas são sedutoras. Porque as histórias que contamos dentro das nossas cabeças são boas demais para deixar passar. Eu tenho um medo gigantesco dessa ilusão, do tombo que eu tomo quando salto em uma promessa irreal.

Mas nunca é demais repetir que todas as promessas são irreais.

 

(voltamos aos pouquinhos com um texto que, simbolicamente, não é tão bom quanto poderia ser)

Um pequeno post melado sobre mulheres, amor e achar seu lugar nessa vida

A maior parte da minha infância eu passei com garotos. As pessoas que eu posso dizer que cresceram comigo, junto de quem aprendi a andar de bicicleta, caí de árvores e quebrei o braço três vezes, eram todos meninos. Eu não tive irmãos, mas minha mãe tinha um grupo de amigas, todos com filhos, e eu passei uma quantidade enorme do tempo da minha infância com eles. Convivendo, inventando jogos, ganhando no videogame e brincando de comandos em ação.

Eu não era o que se chamaria de “moleca”. Eu gostava de barbies (embora detestasse bonecas bebês), de cor de rosa, de fadas, princesas e sereias. Eu gostava de livros, jogos de tabuleiro e videogames mais do que de correr por aí. Mais do que tudo, eu sempre gostei de lápis aquareláveis e dirigir peças de teatro cujas protagonistas eram sempre meninas.

Eu aprendi muito, ao longo da vida, na minha relação com homens. A primeira pessoa que foi meu porto seguro, minha âncora, foi um homem. Foi ele que me ensinou que, na ausência de amor, carinho, colo e segurança em casa, eu podia fazer isso por mim mesma, eu poderia arranjá-los fora, e ele é, ainda, a pessoa mais importante da minha vida. Eu tive garotos que me ensinaram a andar de skate, a tocar alguns acordes de violão, que levaram a lojas de cd e me deixaram entrar no mundo deles. Eu sempre fui a confidente de algum homem na minha vida, eu sempre ouvi ao menos um me contar de amores, de inseguranças, eu já consolei no meu colo mais de um choro por coração partido.

Mas foi só esse ano que eu percebi, apesar de todo amor que eu sempre tive pelos homens da minha vida, o quanto era importante e necessário e o tamanho do bem que me faz a amizade de mulheres.

Provavelmente a coisa mais importante da minha vida é conseguir uma rede de apoio. Pessoas que vão te amar não importa se às vezes você erra, que aceitam pedidos de desculpas e te dão lugar para não ser perfeita. Que te acolhem quando o que você precisa é só saber que não está sozinha. Eu não achei isso em casa e eu não achei isso em relacionamentos amorosos, eu achei isso em grupos de amigas.

Talvez porque o mundo é construído desse jeito fodido, eu vi muitas vezes, em mim e em outras, essa resistência a “se fechar” em grupos de mulheres. A declarar girl’s night, a dizer que nessa conversa nenhum homem entrava. Acontece que é importante, que há um tipo de cumplicidade e conexão que acontece diferente quando se está entre mulheres.

Vejam, eu não estou dizendo (NÃO ESTOU) que há mais conexão entre mulheres do que entre mulheres e homens. Que é impossível ter as mesmas conversas ou mesmas intimidades. Não é. Eu já tive conversas tão explicitamente gráficas e confortáveis sobre sexo com homens, inclusive com um homem com quem já transei. Eu já chorei e pedi conselhos e falei do que eu sentia. Mas a sensação é diferente, não é mais ou menos possível ou melhor ou pior, mas é diferente.

Há um acolhimento na identidade. As coisas não deveriam ser assim, mas homens e mulheres são educados de formas diferentes e tem expectativas diferentes em relação ao mundo. Não acontece tanto de eu contar algo a um amigo e a resposta dele ser “já passei por isso”, enquanto acontece de horas serem passadas entre três mulheres contando de experiências parecidas.

Esse ano não tem sido um ano fácil para mim. Eu defendi um mestrado e passei dois meses aprontando pela Europa então não posso de forma alguma dizer que tem sido ruim. Mas tem sido difícil. Os altos foram muito altos e os baixos foram muito baixos, mas eu tenho quase certeza que quando 2014 chegar ao fim o que eu vou ter como memorável são o que os dois meses sozinha pelo mundo me ensinaram e o que as mulheres que me receberam aqui me deram. Voltar é tão difícil quanto ir é maravilhoso e elas, nos mojitos de terça-feira, nas conversas retardadas do twitter, nas idas ao ballet e nas baladas, me mostraram que havia motivo para voltar, motivo para querer ficar, para querer permanecer em algum lugar.

Eu tenho uma amiga que já me acolheu em um domingo a noite só porque eu tinha voltado de Cuba e na minha casa não tinha um único pedaço de pão mofado. Que me disse não senhora, você não vai jantar miojo e me levou para casa dela, me deu álcool, lasanha e gatos o que me parece a própria definição de amor. Em troca eu dei minha casa e minha cama a qualquer hora da madrugada que ela precise, sem explicações, sem justificativas.

Quando eu me percebo dentro de um grupo de mulheres, eu me sinto profundamente agradecida. Quando há adesão quase automática a bebidas e fofocas no meio da semana, quando as histórias só precisam ser atualizadas, quando há uma certeza forte de presença, de amor, de apoio. E no fundo, todas nós precisamos disso. Todas nós viemos de famílias pouco compreensivas, ou que estão longe, a maioria de nós é solteira e você descobre um dia que é importante ter alguém que vai se preocupar se você não respondeu mensagens por um tempo longo demais.

O mundo é cruel demais com mulheres, com nossas expectativas e auto-estima, o que eu descobri me cercando delas é o quanto isso é uma arma forte para mudar essas coisas. A descoberta da riqueza, do talento e da maravilhosidade das suas amigas é uma arma forte. A possibilidade de compartilhar vulnerabilidade ou de ver outras estando profundamente em paz com a própria sexualidade ou corpo, é uma arma poderosa. Conviver, conversar, compartilhar a experiência de ser mulher nesse mundo salva muita gente, melhora profundamente a vida de muita gente. Ouvir muito claramente que se é amada e que alguém te acha maravilhosa também.

Esse post parece um ode gratuito de grupos de meninas e girl’s night out e é exatamente isso. Porque por mais que pareça óbvio que a convivência, honesta, aberta, amorosa, com outra mulheres, faz bem, por muito tempo me apegar a esses grupos me pareceu infantil, sectário quase. Mas não é. É um tipo de segurança que só a experiência compartilhada pode dar.

Eu tenho uma melhor amiga. A vida toda eu tive “melhores amigas”, pessoas em quem eu me apegava e fazíamos tudo juntas, ou nem olhavamos pro lado na hora de escolher grupo de trabalho ou a pessoa na frente de quem você começa a chorar, não importa se é o meio do bar ou do restaurante, por coisas que nem você saberia explicar. Eu percebi, quando errei com ela, que eu nunca tinha descoberto que o amor de outra pessoa não depende do quão perfeito e sem falhas você é. Eu fui criada sem desculpas e sem tolerância para comigo. Sem espaço para que minhas falhas fossem só falhas comuns e não monstruosidades de uma pessoa com defeito. A mudança de eixo enorme que ela representou quando me mostrou isso não é pouca coisa.

No fundo esse post é só sobre a possibilidade de achar amor, de achar apoio e segurança e coisas que te fazem continuar em qualquer lugar e não necessariamente naqueles que te disseram que encontraria. Eu sei o quanto muita gente encontra repouso e segurança em relacionamentos amorosos, não foi para mim. E nem só porque eles foram ruins, ou acabaram mal, eu tive um relacionamento maravilhoso e absurdamente importante pra mim com alguém que ainda está na minha vida. Mas eu percebi que era a dimensão da amizade dele que mais me segurou. Eu não sou contra namoros e relacionamentos, mas eu descobri que o centro do meu equilíbrio e da minha segurança esteja fora deles. E eu gostaria que ele permanecesse nesses grupos de mulheres.

Seria melhor ser sereia do que humana

There’s always a siren singing you to shipwreck

Então você perde a cabeça. Você sabia que ia acontecer, você sentiu aquilo vir como a maré que sobe. Engole primeiro seus pés, depois seus joelhos e então você não pode mais voltar para o hotel e precisa pedir ajuda para um local e acha que vai ser estuprada no meio do nada (história real).

Você percebe que está vindo na terceira noite seguida em que bebe meia garrafa de vinho sozinha. Percebe quando seus cigarros acabam mais rápido. Quando não consegue controlar a velocidade do seu cérebro.

Uma doença é uma doença como outra qualquer, não há nada de especialmente charmoso em um cérebro desarranjado. Então lido com ela como com a sinusite, a bronquite, minhas 400 mil alergias. Para lidar com instabilidade emocional você precisa de um plano. Espere sua cabeça voltar ao lugar (ou vá buscá-la na Bósnia, tanto faz), respire fundo, faça uma caneca de chá verde (é preciso calma e presença de espírito) e analise sua vida.

Você é frágil demais para tudo que vinha absorvendo. Como uma árvore muito magrinha exposta ao excesso de vento. Você se deixou se apaixonar de novo, quando deu errado você saiu por aí levando para cama um e outro cara interessantes. Cabe muito pouca coisa dentro de você e então essa paixão residual saiu grudando neles que não tinham nada a ver com isso. Você precisa de tempo para por para fora o que não cabe, de livros, cadernos, precisa chorar abraçada nos gatos. Mas havia bares demais, festas demais, gente demais porque você não queria colocar nada pra fora, queria guardar tudo aquilo dentro de você.

Quis guardar tanto que saiu de si mesma.

O dia que você viu seu corpo fazendo coisas onde sua mente não estava foi assustador. Então analise por onde foi que saiu de você mesma.

Você desacelera então. Corta o café e a gastrite diminui, não acorda mais de madrugada para vomitar. Toma os remédios para dormir, dorme 7 horas por noite. Diminui os cigarros. Não bebe mais sozinha em casa. Tenta não aceitar convites todos os dias da semana. Mantém um diário mesmo nos dias que acha que não precisa. Faz ballet. Se desloca de bicicleta. Disseram que endorfinas fariam bem. Come melhor. Se afasta daquele homem interessante mas que você sente que te custará algo que não pode dar. Volta a cozinhar. Você se sente mais centrada, mais equilibrada, consegue sentir a estabilidade nos seus pés.

O problema é o tédio.

O problema da existência é que ela é insustentável. Para ter graça você precisa chegar perto demais do que te desequilibra, para manter o centro a sensação é de que não é você e isso não é o que você quer do seu tempo no mundo.

Se brincar com fogo é quem você é, é possível parar antes de se queimar? Eu acendo isqueiros e fico aproximando meu dedo do fogo, levando-o mais perto possível, sentindo o calor aumentar e o início da lambida da chama. É um jogo de intuição. Me lembro de estar deitada de bruços na cama de outra pessoa, brincando com o isqueiro de outra pessoa, que deslizava a mão pelo fim das minhas costas enquanto perguntava se aquilo era só uma maneira de me machucar sem me sentir culpada por isso. Eu não sei, respondi, talvez, mas eu não me importaria tanto se me queimasse, eu gosto de um pouco de dor.

Mas quanta dor é muita dor? Quão perto do fogo é perto demais? O quanto eu posso aguentar sem me perder por completo? Qual o risco?

Eu nunca escolhi ficar do lado seguro. Nunca acreditei na teoria de que é melhor não arriscar, de que vale mais a pena ficar em um meio termo morno do que acabar se descabelando de dor. Eu me irrito, me incomodo, fico impaciente e intratável quando a vida  se torna só uma sucessão de dias sem nada de novo. Eu sempre quis tentar de tudo, eu quis aceitar todas as chances que apareciam na minha frente.

Eu cruzei Cuba de carro. Eu pulei de paraglider. Eu me joguei de um barranco na Turquia. Eu me lembro até hoje do primeiro copo de vodca que eu decidi provar, da primeira vez que fiquei bêbada. Eu transei com mais de uma pessoa só para saber como era, só para fazer, só porque sim. Porque, por mais paradoxal que pareça, eu tenho essa vontade incansável de ir pro mundo e provar tudo que eu puder. Eu tenho um desapego enorme a vida, ao tempo da vida, ao fato de que ela vai acabar e ao mesmo tempo um desejo de experimentá-la em todas as suas possibilidades antes de decidir ir embora.

Mas como fazer isso sem me perder? Como fazer isso sabendo que eu não sou forte o suficiente para me deixar sentir tudo?

O problema é que qualquer escolha tem em si o caminho que te leva pro desastre. Se eu escolho ir para o mundo com a fome e a intensidade quase selvagem com que quero ir, eu quebro. Se decido me recolher, se fecho as portas, se tento achar um centro o tédio entra pelas minhas veias, corrói meus ossos e me mata, aos poucos. Me enlouquece tanto quanto o desastre. E o meio termo parece uma ideia linda que eu nunca saberei qual é.

Existir é absolutamente insustentável porque é sempre impossível saber qual música é uma sereia te conduzindo para o naufrágio. Porque é como levar um enorme navio em águas revoltas e cheias de pedra. É isso ou nunca deixar o porto e eu não sei como fazer essa escolha.

Mas é preciso fazer escolhas, é preciso viver e é preciso arriscar seguir sereias.

Talvez, só talvez, a arte ainda salve alguém

Logo que eu publiquei o último texto aqui a maioria das pessoas que vieram falar comigo me chamaram de corajosa. Admiraram ou agradeceram a coragem que era necessária para se expor assim, para contar sem muitos disfarces as merdas por que passei. Eu agradeci a todos, mas eu não me sentia corajosa.

Quando eu apertei em publicar, as minhas mãos tremiam. As minhas mãos tremem quando eu fico nervosa, quando eu fico com medo, quando eu tenho muita dor, física ou psicológica. Quando eu falo em público eu torço as mãos, quando eu defendi o mestrado, eu as escondi embaixo da mesa. Quando eu percebi o leve tremor naquela festa eu fiz questão de beber o suficiente para que ele parasse.

Eu não sei quando começou. Eu lembro de uma vez em que minhas mãos começaram a tremer e aquilo foi subindo, quando eu percebi, eu estava sentada no chão, abraçando meus joelhos e meu corpo todo tremia. Foi assim que eu descobri que podia perder o controle.

É um ciclo vicioso. Meu corpo responde ao meu medo, meu medo aumenta porque vejo meu corpo respondendo e ele responde ainda mais e quanto mais eu perco o controle físico, mais medo eu tenho. Você só precisa de uma crise de pânico para passar a vida com pânico de crises de pânico.

Você só precisa de um relacionamento deturpado para ter medo de todos os relacionamentos.

Em Short Term 12, quando Grace fica nervosa, ou se sente ameaçada, ela inconscientemente corta a lateral do seu polegar com a unha de seu indicador. Ela não percebe, sua unha só se movimenta repetidamente enquanto ela fala, a câmera sabe, seu namorado sabe, mas ela se fere sem perceber até que aquilo se abre e sangra.

Ao menor nível de stresse, a reação automática do organismo de Grace é se ferir. Foi nesse pequeno plano detalhe, muito rápido, quase imperceptível, em que a câmera mostra ao espectador esse gesto, em que conta pra ele que há algo de significativo nas mãos de sua protagonista, que eu entendi a que profundezas aquele filme desceria.

Quando eu olhei para minhas mãos sobre o computador e elas tremiam, eu sabia que minha única chance era apertar publicar naquele momento.

A maioria dos posts desse blog é agendado. Eu escrevo, agendo, depois de alguns dias entro aqui e reviso. Às vezes percebo que se eu revisar demais vou desistir, então deixo. Aceito alguns erros de português e frases mal escritas em favor da honestidade, o bom de ter um blog é que leva só algumas horas para um texto virar papel de peixe.

Eu não sei bem do que eu tive medo.  Eu tive um medo definido, claro e honesto de que ele viesse tirar satisfações. De que quisesse discutir que o difamei, que não era assim, ele fez isso por um comentário qualquer no twitter tempos atrás. Tive medo do meio de comunicação que eu ainda não tivesse pensado em bloquear. Não pela presença, mas porque ter que defender o que eu senti seria sofrido, eu não queria argumentar um abuso, não existem argumentos.

Mas meu maior medo foi a percepção dos outros, acho. Cada vez que alguém expressou preocupação ou tristeza por mim, eu corri em assegurar que estava tudo bem agora. Que eu estou bem, que passou. Meu maior medo era ser vista como alguém a quem se deve cuidado e preocupação, alguém cuja história pode ser olhada com pena.

Grace, voltando a Short Term 12, esteve na frente de um tribunal e contou as diversas formas pelas quais o pai abusava dela. Mandou-o para cadeia por dez anos. Mas nunca contou ao namorado. Nunca deixou que ele compartilhasse com ela da profundidade da sua dor e seus traumas, nunca dividiu com ele o espaço infernal dentro da sua cabeça. O filme estabelece um paralelo entre ela e Jayden, uma das garotas de que toma conta. É muito mais fácil expor de forma sistemática, oficial e organizada o que fizeram com você, difícil é pedir ajuda.

Eu não me senti corajosa ao postar o texto anterior porque tudo que eu fiz foi expor, acusar. É como se eu também me levantasse na frente de um tribunal e recitasse, como um rosário, o que foi feito comigo. A diferença é que eu não queria punição, eu queria deixar isso ali para que quem sabe, alguém, no meio de tanta gente que leu aquele texto, se identificasse, percebesse padrões e reconhecesse o que estava sofrendo. Eu queria declarar minha liberdade de falar disso, a impossibilidade dele de me mandar mensagens questionando o que eu dizia.

Short Term 12 é um filme sobre um tipo de abuso muito pior do que o meu. Um tipo de abandono muito pior do que o meu. Sobre crianças realmente violentadas, espancadas, colocadas para vender drogas com dez anos. Crianças cujas vidas familiares eram tão ruins que precisavam ser retiradas de suas casas.

Ninguém nunca teria me retirado da minha casa. Nenhuma assistente social teria achado que um pai ausente e uma mãe neurótica eram motivos para se retirar uma criança. Eu tive babá, fiz aulas de ballet e piano, estudei em escola construtivista, tive um gato, joguei tênis, fui umas 4 vezes para a Disney, no meu primeiro passaporte eu nem era alfabetizada e minha bicicleta era roxa brilhante com pneus brancos.

Mas o sentimento de profundo abandono daquelas crianças me tocou. Eu percebi o quanto eu desejava que alguém agisse comigo como Grace agia com elas, que alguém tivesse tido a paciência de sutilmente arrancar de mim mesma o que eu queria dizer. É fácil recitar a lista de seus abandonos e injustiças, é fácil contar acuradamente a narrativa de cada uma das vezes que minha mãe me chamou de monstro. Muito mais difícil é assumir que preciso de ajuda por causa disso.

Eu fiz naquele texto o que era mais fácil e fiz porque para algumas pessoas talvez ainda não seja, porque eu só tomei consciência de mim mesma através da arte.

Esse ano tem sido um processo de descobrir o direito que eu tenho a minha dor. As faltas enormes e a raiva. E que tudo bem, elas tem um motivo para estar ali, eu passei por coisas terríveis, talvez não terríveis a ponto de uma assistente social me tirar de casa, mas terríveis a ponto de eu viver com um constante ruído branco de dor e medo. Medo de mim mesma.

Foi na arte que eu aprendi sobre mim mesma. Muito mais do que em divãs de terapeuta, mais do que em qualquer lugar. Foi Bergman que me ensinou o quanto é devastadora a indiferença, Henry James que me mostrou o tamanho do desejo de ser amada de uma garotinha. Em Short Term 12 eu vi nas crianças a criança que eu fui e o desejo imenso, enorme, devorador, de ter simplesmente alguém que sentasse ao seu lado e te esperasse você levar seu tempo.

Eu também vi no tique de Grace o tremor das minhas mãos.

Short Term 12 é um filme terrível, daqueles que mostram o quão fodido é esse mundo. Ao mesmo tempo é um filme de um otimismo profundo, um filme que reconhece que o difícil não é falar, é assumir as consequências do que é falado. Eu posso contar sobre quatro anos de sofrimento, mas não posso dizer que esses quatro anos deixaram marcas e que sim, estou bem, mas não tão bem quanto gostaria, não totalmente bem, melhor, mas não curada e sim, eu gostaria de ajuda.

Não é preciso coragem para contar sobre abuso na frente do tribunal. É preciso coragem para assumir para um namorado que aquilo deixou marcas e por isso é difícil confiar nele e ainda se tem pesadelos e ainda se corta a lateral do polegar sem perceber.

Eu não me senti corajosa quando aquele texto entrou e tanta gente disso isso pra mim. A cada preocupação que eu afastava eu me sentia mais fraca, tanto por não aceitar mãos amigas quanto por precisar delas. E eu precisei de um filme para entender o que eu estava fazendo.

Em um texto sobre o Bergman, Woody Allen diz “in the end your art doesn’t save you” ele fala da mortalidade, de como ser lembrado não é em nada parecido com realmente viver para sempre. Uma vez que estou morto, foda-se que lembram de mim. Faz sentido. Fazer arte também não cura ninguém das próprias dores, dos próprios transtornos, das próprias mãos que tremem. Fazer arte é só fazer arte, é só por pra fora, pode ajudar, mas não salva.

Talvez a sua arte não te salve, mas a dos outros sim. Sua arte não salva a você mesmo, mas a alguém. Vir aqui e falar de um namoro horrível não conserta o tempo que passei nele, não conserta minha distância, minha hesitação, meu medo. Mas talvez ajude outra pessoa e entender os seus. Talvez eu possa salvar alguém pela arte, talvez ela seja a única forma de me salvar.

Um minuto para o didatismo: eu tive um relacionamento abusivo

Interrompemos a programação normal para um texto provavelmente mais mal escrito do que a média, mas que eu achei que era hora de existir. Eu sempre soube que ia escrever sobre isso, alguma hora, em algum lugar, mas não achei que fosse aqui. Achei que daria mais tempo, mais espaço, achei que vestiria a coisa de ficção ou algo assim. Mas conversando com algumas amigas eu descobri que a minha história não é só minha e achei que talvez fosse importante tentar contar, já que é a mim que cabe esse blog tão overshare. É enorme e eu peço perdão, não me importo muito se vai ser o texto menos lido da história desse blog, eu só achei que, já que eu tenho a possibilidade de expor minha intimidade ao público, isso era importante e necessário e poderia ser útil pra alguém.

Eu passei 4 anos em um relacionamento de merda. 4 anos em um namoro que, na época eu era incapaz de perceber, não me fazia feliz. Não só não me fazia feliz como minava sistematicamente minha auto-estima e me fazia abandonar coisas que eu gostava, que eram parte de mim, que me faziam quem eu era. Hoje, 3 anos depois do término, talvez eu chamasse o relacionamento de abusivo. Foquem no talvez. Faz 3 anos que eu terminei, 3 anos que eu saí pro mundo, tive outros relacionamentos, conheci outras pessoas e eu ainda hesito em colocar rótulo em uma coisa que eu sei muito bem o que foi. Por que? Porque eu tenho vergonha, porque eu me culpo.

Do término, da minha primeira percepção de que algo estava errado naquele relacionamento, até o início desse ano, eu me culpava sem parar pelo que aconteceu. Que ele fosse um babaca, isso era problema dele, que eu tivesse deixado alguém me tratar daquela maneira, que eu tivesse me submetido aquilo, era culpa minha. Que ele era um babaca era inegável, mas eu deveria ter saído fora nos primeiros meses, no primeiro ano. Eu passei meses, e infinitas sessões de análise, remoendo porque eu deixei tanto acontecer, porque eu fiquei com alguém que hoje eu não aceitaria um encontro. Levou tempo perceber que no fundo eu não poderia sair, porque as acusações que eu tinha a ele não eram só as que eu achava que tinha, a maior acusação era que ele minava sistematicamente qualquer auto-estima que eu pudesse ter e me enredava nas minhas próprias dificuldades, ansiedades e distúrbios.

Vamos começar do começo. Eu imagino que gente mais bem resolvida, gente mais segura de si mesmo e de suas qualidades e da sua possibilidade de ser amada, entre menos nesse tipo de relacionamento. Quando eu terminei, minha mãe me disse que eu deveria ter ficado com ele mesmo porque ninguém mais ia me aguentar. Daí vocês podem começar a fazer uma ideia do quão fodida é a minha cabecinha.  Hoje, aos 25 anos, depois de ter passado por muita coisa nessa vida inclusive dois terapeutas, eu ainda preciso fazer um esforço enorme de não me odiar o tempo todo, de não me odiar, e as coisas que eu faço, de uma forma que seja paralisante e auto-destrutiva. Eu aprendi a lidar muito com isso, com a sensação de que eu não mereço coisa nenhuma nesse mundo, especialmente a atenção de alguém. Não é fácil, muitas vezes é insuportável, mas isso é hoje. Aos 18 anos, minha cabeça era a própria filial do inferno.

Aos 18 anos eu sabia muito menos e vinha de dois relacionamentos que não tinham ajudado em nada a melhorar esse quadro. Eu não tenho vontade de falar deles ou de expor os dois envolvidos nesses casos, eles não foram crueis ou abusivos da mesma forma, embora um deles tenha sido sim um filho da puta. Mas era diferente. Acontece que aos 18 anos eu tinha uma auto-estima fraca e meu coração partido de uma maneira que eu estava disposta a qualquer coisa para fazer parar de doer. Qualquer coisa. Incluindo entrar no primeiro relacionamento que me foi oferecido com alguém por quem eu não estava apaixonada.

Acho que uma das maiores justificativas de pessoas que se mantem em relacionamentos abusivos era o tanto que amavam o namorado/marido/parceiro/etc. Nunca foi a minha. Eu o amei sim, de alguma forma, durante algum tempo, mas nunca foi uma paixão louca que me levasse a fazer qualquer coisa, foi muito mais o desejo desesperado de curar uma ferida minha, mais especificamente a ideia de que ninguém poderia me amar. Eu queria provar para minha mãe, para os outros caras, para mim mesma, que eu era capaz sim de ganhar e manter o amor de alguém. Eu estava disposta a qualquer coisa para não falhar nisso.

E qualquer coisa foi muita coisa. Eu não sei como começou, ou o que começou. Eu não tenho vontade de acusa-lo de ter deliberadamente falado coisas e feito escolhas que me feriam, eu não acho que foi isso. O que eu acho é que acabei com uma pessoa cuja personalidade era um misto de ego desenfreado e insegurança e essa mistura é perigosa: ele se achava melhor, mais inteligente, mais merecedor de todas as coisas, ao mesmo tempo se envergonhava da origem e da história e de outras coisas. E daí era uma guerra de tentar não fazer o outro perceber as falhas nessa pessoa tão maravilhosa que ele vendia. Eu me lembro de uma vez em que fomos ao teatro e eu não gostei da peça, o que seguiu foi uma briga porque eu era histérica, capitalista, e tinha falado isso alto quando alguém da equipe poderia estar ali. Eu não entendia que o elenco enorme era o triunfo do coletivo, bla, bla, bla… Eu não tinha direito a minha opinião sobre aquilo. Em um outro momento foi um documentário e a mesma história. A discussão nunca era sobre minha opinião em si, mas uma enxurrada de acusações sobre quem eu era e como eu fazia as coisas. E quem eu era e como eu fazia as coisas sempre estavam errados. E já vimos o quão disposta a aceitar essas acusações eu estava.

E é uma bola de neve. Eu lembro da briga porque todos os fins de semana eu tinha algum plano. Eu estava na faculdade e ainda falava com meus amigos de colégio, então sim, quase todo fim de semana eu tinha um aniversário, um evento, o lançamento de um curta, o que quer que fosse. E a briga não era porque eu não tinha tempo para ele, ou nós não nos veríamos. Era porque eu já tinha um plano e ele seria encaixado. Porque ele não era a prioridade. Porque minha vida não orbitava em volta dele. E aos poucos, de tantas brigas e de tanto ser acusada de egoísta e incapaz de me relacionar propriamente com o outro, ele passou a ser.

Eu passei um tempo muito longo me acusando disso, me culpando por esse momento em que eu vi uma briga desmedida acontecendo, em que eu vi uma pessoa incapaz de admitir a autonomia do outro na minha frente, mas eu fiquei. Eu fiquei porque, para mim, a acusação de que eu era egoísta, incapaz, de que a forma como eu fazia as coisas era errada, era poderosíssima, era destruidora. E a forma como eu fazia as coisas estava sempre errada. Da minha forma de ver o mundo a cortar a pizza (EU NÃO ESTOU EXAGERANDO! houve um comentário sobre minha falta de otimização no cortar da pizza e o que isso significava sobre mim). Meu gosto musical, a música, uma das coisas que eu mais amo na vida e que mais me salvou de mim mesma em anos de uma existência problemática, era alienante, entretenimento barato, shows eram o culto da personalidade e representavam o que havia de pior na sociedade atual. Eu não deixei de ir em shows, mas era um custo, era uma briga, era ouvir essas acusações toda vez. Eu parei de descobrir bandas novas e eu diminuí drasticamente o quanto o ouvia música, porque ele não tolerava.

O problema não é o que ele achava da música. O problema é que a opinião e a visão dele não admitiam ser a opinião e a visão de alguém. Elas eram A VERDADE e se eu descordava eu estava, por consequência, errada. Sendo esse portador da verdade, a vontade dele não assumia que a vontade da outra pessoa era tão autônoma, válida e digna de consideração quanto a dele. Quando íamos no meu (repetindo, meu) carro para a casa da minha mãe, ele não aceitava que eu ligasse o rádio. Não havia a negociação de talvez podemos ouvir algo baixo, ouvir por metade do caminho, ouvir na ida e não na volta, qualquer negociação entre duas pessoas que querem coisas diferentes. Não, ele não queria e isso era final. E as minhas tentativas de negociação acabavam na acusação de como minha vontade era fruto da minha ignorância e egoísmo e etc, etc.

Parece bobo, parece trivial que eu venha contar de música no carro. Mas não é. É o reconhecimento do desejo do outro como válido. Anos depois quando eu me acertei com outro homem sobre o ar condicionado do quarto dele, eu vi a diferença absurda que era ser tratada como um ser humano, que era ter minha vontade e minha queixa reconhecidas.

E já que falei em desejo do outro, vamos ao sexo. Eu estava descobrindo o sexo ali, minha experiência anterior era basicamente nula. Era suficiente para saber que nós não tínhamos uma química extrema, que eu não o desejava como já havia desejado outros, mas eu não sabia da importância disso para mim (honestamente, a importância e o poder do desejo físico sobre mim é algo que só fui descobrir há muito pouco tempo). O sexo não era ruim no início porque tinha o fator novidade, eu estava descobrindo uma coisa que eu não sabia quão boa poderia ser. Mas ele rapidamente se tornou e pedidos meus de trocas de posição ou de experiências novas (assistir um pornô juntos, por exemplo) encontravam a resposta: “isso é desespero, coisa de gente que não se ama de verdade, como nosso relacionamento é autêntico e verdadeiro, o sexo vai ser natural”. Não é muito curioso que a primeira coisa que eu parei de fazer quando percebi que não queria estar ali foi sexo e que essa também foi o primeiro (e único!) sinal de que havia algo errado que ele captou.

Hoje, o que mais me perguntam é por que eu fiquei ali. Ouço com frequência “nossa, mas eu não teria aguentado dois dias”. Hoje, eu também não. A pessoa que eu sou hoje dificilmente teria ficado com ele uma segunda vez. Mas quem eu era 8 anos atrás, estava desesperada para tampar traumas e inseguranças e acabou com alguém que predava nelas. Minha grande dificuldade, o provável problema formador de todos os meus outros problemas psíquicos é o ódio a mim mesma, a percepção, não de que não sou boa, mas de que sou, no fundo, algo de monstruoso. E cada vez eu tentava exercer minha vontade eu encontrava essa acusação. E ele estava certo, ser eu mesma era ser um monstro e a única maneira de não sê-lo era anular tudo e continuar ali, provar que alguém poderia conviver comigo e me amar. Foi só quando entendi isso, a dinâmica entre como ele me tratava e como eu me tratava e como uma cosa alimentava a outra e me prendia, que eu parei de me culpar e assumi o ódio que eu queria ter desse período.

Eu não sei quando saí disso e decidi terminar. Não sei como, quando ou por que, decidi que não queria mais estar ali. Dessa decisão até o término real, levei seis meses, porque eu não conseguia me convencer a causar essa dor em alguém, eu não tinha esse direito. Eventualmente não consegui aguentar mais e o fiz. E foi um término feio, lógico. Terminar exigiu que eu desafiasse essa vontade que não aceitava desafios. O resultado foi que ele invadiu meu email, leu meus diários, revirou minha gaveta e eventualmente (consciente ou inconscientemente) bateu meu carro.

Depois de eu ter deixado muito claro que não tinha interesse em qualquer contato, ele me mandou emails até que eu o filtrasse; curtiu coisas no meu facebook até que eu o deletasse; me mandou mensagens tentando tirar satisfações sobre coisas que eu tinha escrito no twitter até que eu fiz um jailbreak no celular apenas para bloqueá-lo (na época o ios não fazia isso sem jailbreak). Semana passada, três anos após o término, ele apareceu em uma aula que eu dei e veio perguntar se poderia falar comigo me chamando pelo apelido de quando namorávamos. Eu disse que não e me senti suja, violada. Menos pela tentativa de aproximação, que agora estou bem suficiente para julgar apenas inadequada, mas pela tentativa de me arrastar de novo para dentro de uma relação com ele. Eu não quero uma relação com ele, nenhuma, não quero qualquer vínculo com uma época que foi tão dolorida. Depois disso, eu o bloqueei o facebook para que possíveis divulgações de eventos não pudessem ser vistas.

E daí eu escrevi esse texto, menos por mim, embora tenha sido de alguma forma catártico, e mais por todas as amigas incríveis que disseram ter vivido o mesmo tipo de coisas. Porque é comum, porque relacionamentos abusivos e disfuncionais acontecem e eu achei que descobrir que a experiência não era só minha ajudava a aceitar e seguir em frente.

“Just ’cause you feel it doesn’t mean it’s there”

Eu tenho certeza que um dia desses morrerei no meio da Paulista, vou cair dura, sem mais nem menos, com fones de ouvido na cabeça. Causa mortis: coração destroçado por excesso de Radiohead.

Eu não preciso ouvir a voz do Thom Yorke, eu só preciso reconhecer o primeiro acorde para sentir meu sangue correr mais devagar, meus músculos contrairem e uma eletricidade passar pela minha pele, a espera da dor que vai vir. E ela sempre vem.

Eu poderia parar de ouvir música no shuffle, me proteger dessa onda de sofrimento que pode vir a qualquer momento, quando eu menos espero, me desconcertando quando preciso atravessar a rua. Poderia deletar todos os álbuns do meu computador e do meu ipod, ninguém precisa voluntariamente se expor a um espancamento desses. Ninguém precisa correr o risco de ter essa bigorna caindo na cabeça a qualquer momento do dia, justamente quando tenta não enganchar o salto no vão do metrô, ou não colocar fogo no cabelo ao acender um cigarro.

Mas quando meu cadáver for encontrado no meio da Paulista, muitas horas depois e já pisoteado pelos pedestres, eu terei um sorriso no rosto. É puro masoquismo. Como quem precisa de mais dor para sentir mais prazer, como quem só vai gozar com as costas em carne viva de chicotadas. A felicidade que eu sinto cada vez que Thom Yorke me inunda de dor me impede de parar, a imensa felicidade cada vez que acho que meu coração não vai aguentar.

Nem todas as músicas são iguais. True Love Waits é como destruir meu coração com um martelo de carne, é golpea-lo até que tudo que sobre é uma massa nojenta de carne vermelha, sangue e veias, completamente disforme e repulsiva. High and Dry é senti-lo se encolhendo, ficando menor e menor até deixar de existir, consumido pelo espaço que ocupam os meninos que essa música me lembra. E There There é como se uma agulha muito fininha fosse introduzida devagar bem no centro do meu coração. É uma dor aguda, pontual e agonizante quando ouço “just ’cause you feel it doesn’t mean it’s there”

O quanto do que a gente vive existe fora da nossa cabeça? É uma questão epistemológica antiquíssima: o quanto posso saber do mundo? como posso ter certeza que tudo não é só uma peça, uma ilusão, que nada de concreto existe? E se no fundo tudo isso, toda essa vida é só uma viagem muito louca de ácido que alguém tem em 2050? E se somos só o sonho na mente da velhinha?

Ok, fui longe demais no ceticismo, mas a questão continua válida: quanto do que a gente vive não existe apenas na nossa cabeça? A vida é um eterno interpretar as coisas. Interpreto desde o homem andando na minha direção na rua a noite, ao aceno de cabeça do meu aluno ao whatsapp do cara em que estou interessada. Interpreto o tom da minha melhor amiga no email que ela me mandou e da secretária do médico quando ligo pedindo uma consulta. Preciso interpretar, é o processo de fazer o mundo exterior passar para dentro da meu cérebro e se tornar inteligível, mas quanta objetividade existe nesse processo? Quanta objetividade pode existir nesse processo quando se trata da comunicação entre duas pessoas cujos sentimentos são, em algum nível, desconhecidos?

Eu já me vi diante de uma situação que me fez pensar que dessa vez eu realmente tinha ficado louca, esqueça depressão ou ansiedade, algo dessa vez deu muito errado na química do meu cérebro e eu passei um ano vendo algo que não existia. Quer dizer, tudo existia, concretamente os fatos existiam, só não existia a narrativa que eu imaginava ligá-los. Eu alucinei? Eu quis tanto que algo acontecesse que vi mesmo que não tivesse acontecendo? Revisei a história histericamente, pedi confirmação de cada trecho, repeti para meu analista até ele concordar que não, eu não estava tão louca assim e por mais que eu tivesse interpretado errado, havia alguma base na minha interpretação. Mas qual a possibilidade de se interpretar certo?

Cada vez que eu tenho a impressão de estar flertando com um cara eu me pergunto “será que estou alucinando e ele não tem nenhum interesse em mim?”. Por mais que eu sinta o interesse, isso não quer dizer que ele está lá. O que dizer quando esse interesse é mais do que puro “eu queria te beijar”? Do sentimento de alguém gostar ou se importar com você e não, não é porque você sente que ele é real.

A comunicação humana é em si um abismo. Nos centímetros de ar entre quem fala e quem ouve há tantos infinitos processos microscópicos, tantas variáveis de neurotransmissores, vibrações do som, repertório, que eu me surpreendo que nós possamos nos comunicar com qualquer grau, mesmo que mínimo, de eficiência. Eu me lembro bem dessa parte das aulas de teoria da comunicação, a comunicação é a dinâmica entre quem enuncia e quem recebe e o espaço que os separa. E os espaço que os separa pode ser infinito.

Eu e um habitante do Quirguistão somos ambos humanos, mas eu não duvidaria que seja mais fácil me comunicar com meu gato ou com um eventual venusiano que baixe aqui na Terra. Começa na língua, mas é mais que isso, é a radicalidade absurda da diferença de vivências. Comunicar requer compartilhar alguma experiência comum, algum lugar comum onde possamos nos entender. E se cada um viveu a mesma coisa de forma completamente diferente? E se minha experiência e a dele nada tem a ver uma com a outra? E se o que eu sinto não está lá? E se o que está lá ele não sente?

Cada vez que Thom Yorke me lembra disso, uma agulha pontuda e fina é enfiada no meu coração. Ela vai abrindo caminho devagar, afastando sentimentos e me lembrando que não, não é porque eu sinto que está lá.

There’s always a siren
Singing you to shipwreck
Steer away from these rocks
We’d be a walking disaster

Eu tenho 26 anos e uma pressa desgovernada

Existe uma música meio brega e que estava na moda uns anos atrás que diz “you can’t be everything you wanna be before your time”. Se tem um conselho que eu preciso que uma música meio brega me dê, é este.

Eu tenho muita pressa. Eu tenho uma pressa terrível. Não o tipo de pressa que me faz chegar cedo em eventos ou nunca perder aviões, claro que não, jamais vivo sem correr o risco de perder um avião. Mas a pressa que me faz sentir o tempo passando rápido demais, a pressa de ser quem eu quero, de chegar em algum lugar, o mais rápido possível. Uma pressa que me faz ficar muito angustiada com velas em um bolo e com os desvios da vida.

Na tarde do meu aniversário eu conversava por facetime com meu amigo mais antigo, ele me perguntou como eu me sentia com 26 anos. Velha, eu respondi. Ele riu e eu continuei: “como se o tempo de fazer as coisas estivesse passando e eu não estivesse fazendo”. Então ele muito pacientemente, me lembrando porque a saudade é sempre terrível, listou todas as coisas que eu fiz desde que ele me conhece. Todos os lugares, não físicos, em que eu cheguei.

“Você é mais forte agora”, ele me diz, “eu tenho muito menos medo por você agora. Você sobreviveu.” Eu não contei que ele só diz isso porque não estava aqui para me ver perdendo o controle por algo tão terrivelmente estúpido porque não fui forte o suficiente para lidar com algo menos estúpido. Que ele não estava aqui para descobrir comigo que eu também pensava assim, que agora eu podia ter menos medo, e eu nunca estive tão errada.

Uma outra pessoa me disse que às vezes ele achava que eu tinha a pressa das pessoas que sentem que não vão durar muito tempo. Eu estava deitada de bruços na cama dele e me virei de lado, fiquei quieta por alguns segundo e neguei com a cabeça. Não, eu não tenho medo de não durar, eu tenho medo da apatia me vencer se eu não tiver pressa.

Como andar de bicicleta, é mais fácil se equilibrar quanto mais rápido você anda. Se eu paro, eu caio.

Eu tenho essa sensação muito forte de que o tempo vai passar por mim e eu vou ficar. Presa. Com meus pés enfiados na areia movediça. O tempo vai escorrer e eu nunca vou ter feito tudo que queria ter feito. Não vou escrever um livro, não vou ter um doutorado, não vou a Índia.

Não vou porque tentei e falhei, é um medo. Mais do que isso meu medo é de nem tentar, meu medo é de sucumbir ao peso dos meus membros, a névoa que toma meu cérebro e torna tudo tão, mas tão difícil de vez em quando.

Com voz doce, esquecendo as palavras do português, ele vai me lembrando de tudo que eu já fiz. Eu confesso, consciente do meu próprio ridículo, que gosto das garotas prodígios, das wunderkinds e enfants terribles desse mundo, que gostaria de ser uma. Que sei que Virginia Woolf diz que ninguém deveria escrever nada antes dos 40, mas eu quero ser Rimbaud.

Me pergunto se é o mundo que me faz ter tanta pressa. Se essa pressa não é só minha, mas de todo mundo, se a modernidade sendo como é faz com que todos nós tenhamos esse sentimento de ficar para trás em relação ao próprio tempo, de que se tudo não for feito antes de uma certa idade o tempo vai se esgotar, a ampulheta apita, meu deus como eu gostaria que esses vira-tempos da Etsy funcionassem de verdade.

Mas a verdade é que, como quer me dizer a música brega e levemente irritante, você não pode ser tudo antes do seu próprio tempo. Esse blog tem quatro anos, se você voltar até outubro de 2010 e o primeiro post, a pessoa escrevendo era outra. Eu escrevia de outra forma e escrevia muito pior. Entre outubro de 2010 e setembro de 2014 eu terminei um namoro, entrei no mestrado, escrevi uma dissertação toda e defendi, tive um outro relacionamento inteiro, fiz 6 tatuagens, mudei a cor do cabelo três vezes, voltei a fumar, conheci mais ou menos uns vinte países. E eu precisei de tudo isso para chegar nesse texto aqui.

É um conceito que me irrita um tanto. Esse de que eu preciso respeitar o que o tempo e a vida fazem comigo e o que eu sou hoje não era antes. Que os textos, as pesquisas, as ideias, elas vão sendo construídas aos poucos. As críticas de filme que eu fazia dois anos atrás não podiam ser como as de hoje pelo simples motivo de que eu tinha visto algo entre 60 e 100 filmes a menos. Eu não quero esperar estar pronta para algumas coisas, eu não quero sentir o tempo passando por mim. Até porque eu tenho medo.

O tempo e a vida nem sempre foram gentis comigo e eu às vezes penso que deveria correr na frente deles, fazer tudo e fazer agora porque se eu abaixar a guarda tudo desmonta de novo. Eu quero tudo e quero agora não com o medo de quem talvez fique pouco tempo nesse mundo, mas com o medo de quem está sempre jogando contra a aposta.

Mas talvez eu não esteja mais. Eu recolho pequenas polaroids desbotadas da noite passada e tento repetir para mim mesma a lista das coisas que já foram feitas. Talvez o tempo não esteja passando por mim, talvez eu não esteja para trás, talvez eu não precisasse ter feito muito mais do que já fiz. Eu queria acreditar nisso, eu queria acreditar que não preciso dessa pressa desvairada e dessa sensação de ser insuficiente sempre, devagar demais sempre.

Eu gosto da ânsia, eu gosto do impulso de movimento e eu sei que preciso dele, é meu jeito de curar a mim mesma, ou pelo menos de conviver comigo mesma. Mas eu dispenso a punição. Ou queria dispensar. Eu queria aprender que talvez as coisas aconteçam no tempo delas, talvez tudo que sai de mim precise de seu tempo dentro, sendo elaborado, se alimentando das coisas que eu vivo.

Ele levou o tempo dele para voltar pra mim. Nesse tempo, eu me cerquei de outras pessoas. Na lista dele não contava a quantidade de pessoas por quem eu me sentiria amada. Eu conto isso, que se tem algo que eu fico orgulhosa de mim mesma esse ano é da quantidade de pessoas em volta de mim e de como eu não tenho mais aquela pontada de incredulidade a cada declaração gratuita de amor de quem quer que seja. Ele diz que me ama, eu sei, eu digo. Você vai ser sempre minha pessoa preferida e a melhor parte de mim porque eu só aprendi que se pode gostar de alguém incondicionalmente quando você entrou na minha vida. Aquele tipo de segurança que alguém vai estar ali pra você, que alguém vai tentar consertar algo que te machuca mesmo antes que você peça, eu só aprendi com você.

Eu precisei do meu tempo para aprender a confiar nas pessoas. Quando eu tentei fazer isso antes do tempo deu tão terrivelmente errado que eu deveria ter aprendido. Não sei o quão importante é isso, não aplaca em nada a minha pressa terrível de todas as outras coisas que se eu fosse mais clichê diria que são menos importantes. Não acho que são, mas acho que eu nunca poderia chegar nelas sem essa primeira.

Como eu nunca poderia chegar nesse texto totalmente desnecessário e sem sentido dois dias atrás, antes dos 26.