Para olhar minhas cicatrizes

Quando você chega em um estúdio para uma tatuagem é, invariavelmente, apresentado a uma ficha de cadastro. Seu nome, rg, endereço. Você tem mais de 18 anos? sim; É diabética? Não; Tabagista? sim; Alcoolatra? hum… não; Tem problemas de coagulação? não; Toma algum medicamento? Anticoncepcional, glifage, frontal eventualmente, quando não consigo dormir, o que é meio que sempre. Segue-se um pequeno parágrafo explicando que as agulhas são esterilizadas, o estabelecimento obedece a normas de segurança e higiene e o tatuador te orientará quanto aos cuidados necessários. Caso você faça algo diferente do que foi orientado, a consequência é por sua própria e risco e então você assina.

O que eles realmente deveriam perguntar é: “você está pronto para que a partir desse momento sua pele passe a ser vista como propriedade pública?”

Eu sou mulher e, portanto, estou bastante acostumada com meu corpo ser item público. Já fui chamada infinitas vezes de gorda, gostosa, baranga, linda, convidada a chupar todinho o cara da esquina. Vou para o ballet de bicicleta duas vezes na semana e já perdi a conta dos comentários envolvendo selim ouvidos enquanto subo a Augusta. Esses anos todos tratada como uma pessoa que não tem direito a recusar o toque ou observação do próprio corpo deveriam ter me preparado para a violência de absolutos desconhecidos pegando em mim em uma fila do aeroporto e perguntando “o que sua tatuagem significa?”, mas não prepararam.

E absoluto desconhecido na fila do aeroporto não foi um exagero. Uma vez eu estava na fila do check-in da Gol, quando um homem de terno tocou no meu ombro, leu a frase estampada nas minhas costas e me perguntou o que ela significava. Em um misto de atordoamento e ultraje eu respondi como quem acorda de um sonho “eu não te conheço” e voltei a me focar no celular. Parece estúpido, parece bobo, por que raios eu não quero explicar para ele o que está escrito nas minhas costas? Mas a verdade é que eu me senti invadida com violência.

Eu tenho seis tatuagens. Duas delas são grandes e coloridas, outra cruza toda a parte de cima das minhas costas. Todas elas tem uma explicação razoavelmente simples: é uma boneca russa, é o mundo, é um verso da Sylvia Plath. Eu não sou daquelas que acha que toda tatuagem tem que ter um significado complexo e uma história sentimental a la Miami Ink, ela pode simplesmente ser algo bonito. O gato no meu pulso é só um gato. Acontece da matryoska no meu braço ser só uma matryoska e ser também uma lembrança de Dostoievski e Tarkovsky e uma parte da minha identidade de certa forma perdida na diáspora judaica. Mas eu não acho que ninguém tem nada a ver com o fato de que eu tenha problemas com minha identificação nacional. Muito menos o ser humano que nunca vi mais gordo em uma fila de ponte aérea no aeroporto de Congonhas.

O mais curioso é que o homem que encontrei quando desci do avião, e que tinha autorização para tirar minha roupa e tocar minhas tatuagens e perguntar sobre elas, nunca o fez. Nenhum homem com quem eu transei nunca perguntou a respeito das minhas tatuagens. E eu teria respondido. Provavelmente, se eu te dei a intimidade para entrar no meu quarto e me ver nua, eu responderei sobre qualquer tatuagem e qualquer cicatriz. Elas são parte daquele contexto, elas são parte de mim e da minha pele e eu gosto particularmente quando alguém beija minhas costas e eu sei que foi por cima do verso inscrito, mesmo que sensorialmente isso não faça diferença nenhuma. Mas todos eles assumiram que minhas marcas eram minhas marcas. Recentemente eu contei espontaneamente, quando já estava quase pegando no sono e após uma longa conversa sobre Sylvia Plath, que aquilo nas minhas costas era um verso de Lady Lazarus. Ele nunca tinha perguntado, embora tivesse olhado para essas palavras por um tempo relativamente longo.

Parece, porque eu escrevo um blog desses, que estou sempre muito disposta a contar a história da minha vida e toda e qualquer mazela para qualquer um que pergunte. É uma tremenda mentira. Pode soar irônico, mas eu sou uma pessoa extremamente reservada e que guarda coisas por muito tempo mesmo da minha melhor amiga. Esse blog é uma exibição nos meus termos, do que eu desejo por para fora, da maneira como eu desejo e, já falei sobre isso aqui, nem tudo é verdade. Há camadas infinitas de ilusionismo e proteção no que é exposto aqui, mesmo que pareça tão cru. Eu não escrevo porque quero que o mundo saiba o que eu passei, eu escrevo por um milhão de motivos e por um milhão motivos minha escrita é essa. Eu tatuo da mesma forma.

Eu não faço tatuagens para quem olha. Eu as faço para mim mesma. Eu já falei aqui mais de uma vez sobre isso. Para tentar ficar mais confortável na minha própria pele, para ressignificar minha própria história, para ser quem eu sou, porque eu quero, pura e simplesmente. Mas parece que quando você estampa algo na pele, algo do lado de fora, aquilo é instantaneamente para o outro, para o espectador. A pele desenhada não pode de jeito nenhum ser sua, ela é pública, senão por que você desenharia nela?

Nas minhas costas diz, em inglês claro e simples, que para olhar minhas cicatrizes há um preço. Eu desconfio que o senhor de terno na fila da ponte aérea falasse inglês, ele era capaz de ler o que estava ali. Por que então ele me pergunta o que ela significa? O que ele espera que eu responda? É um verso de um poema que uma autora que enfiou a cabeça no forno aos 30 anos escreveu sobre as tentativas de suicídio anteriores dela. Significa que se você chegar perto de alguém, perto o suficiente para realmente ver as cicatrizes, isso te muda para sempre, isso vem com um peso, um preço, que relacionamentos e conexões nunca são gratuitos e livres de consequência. Significa que eu venho de um histórico familiar, vamos dizer assim, complicado, que eu não falo com meu pai e minha mãe é completamente louca e a pessoa que eu mais amei no mundo foi embora de mim anos atrás e eu não posso nunca me livrar de tudo isso. Que eu sou extremamente ferida e quebrada e essas feridas estão prontas para abrir e quebrar de novo a qualquer momento. Que eu já me odiei tanto e sofri tanto que quis morrer, quis muito literalmente morrer, quis morrer a ponto de fazer planos na minha cabeça para isso, que eu já apaguei cigarros em mim mesma e fiz pequenos cortes no meu tornozelo de propósito porque quando dói tanto você tem essa esperança burra de que a dor do lado de fora vai fazer passar. E deixaram cicatrizes. E para vê-las há um preço.

Me pergunto qual seria a expressão do homem de terno na fila do check-in se eu tivesse dito tudo isso.

3650 dias depois

Às vezes eu me pergunto o que eu diria para o meu de 16 anos. Se ela aparecesse na minha frente, cabelo loiro quase na cintura, pontas cor de rosa, maquiagem preta mal feita, segurando o primeiro cigarro de uma vida toda, o que eu diria? Vai tudo melhorar ou piorar?

Eu diria para que ela gastasse dinheiro na manicure, esse esmalte descascado não está ajudando ninguém. Mas a maquiagem fica boa assim, faz seus olhos parecerem maiores. Também diria que conforme os anos passarem ela vai mudar de ideia sobre o que gosta na própria aparência, vai preferir a boca desenhadinha aos olhos claros, vai passar a usar batom vermelho, vai continuar mudando a cor de cabelo. Vai continuar detestando ter esse rosto de boneca. Nos melhores dias ele vai te olhar no espelho e você não vai reconhece-lo, vai acha-lo realmente muito bonito e vai achar um tanto injusto que sejam tão poucos os bons dias e que ele não tenha sido dado a alguém que pode conviver com ele.

Sua melhor foto vai continuar sendo aquela amarelada, rindo enquanto o cabelo enorme caía na cara. Você nunca vai ser tão bonita quanto era para os olhos dele.

Você nunca vai amar da mesma forma, ou experimentar o mesmo tipo de felicidade. E por isso eu não sei o que diria.

Você vai fazer muitas tatuagens, diferentes das que hoje você quer fazer. Algumas você vai fazer em dias que gostaria de ferir a própria pele, mas você vai abandonar esse hábito daqui um ano ou dois. E vai fazer tatuagens para não voltar. Um único dia você vai apagar o cigarro no próprio pulso e sim, é um enorme alívio, mas você parou com isso. Vai se perguntar se algum dia vai ter que parar de beber da mesma forma, mas aos 25 você ainda não parou, ou pensa em parar. Você toma remédios para dormir. Parou de tomar, voltou a tomar, você tem medo deles, acho que sempre vai ter.

Eu só consigo ver olhos verdes arregalados para mim mesma me perguntando “tudo bem, mas melhora ou piora?”

Melhora, eu acho. O tédio passa em parte. Ao menos o tédio cotidiano passa. Seus dias se ocupam, os anos de faculdade você vai ocupar no limite da resistência física porque você vai descobrir logo que o movimento abafa as vozes. Abafa a saudades. Essa não melhora. Você não pode parar. O tédio, o silêncio, as tardes infinitas sozinha e silenciosas te faziam chafurdar na dor e talvez por isso hoje em dia pareça melhor. Há mais sons, mais pessoas, mais movimento. Há algo além de você mesma e seus próprios demônios.

O problema é que eles se acumulam.

O problema é que você nunca mais vai ser feliz como em alguns dias. Você vai perder o suporte, o porto, o colo. Você vai entender o tamanho do seu desamparo e do seu abandono e isso é ao mesmo tempo reconfortante e dolorido. É libertador entender o quanto te machucaram, mas saber a dimensão da ferida não ajuda em nada a começar a fechar.

Eu não sei calcular o balanço. Eu sei que você dói mais do que eu, também sei que em alguns dias é mais feliz. Existirão mais pessoas. Uma quantidade imensa de amor, de gente disposta a pegar chuva e passar frio por você. De certa forma, você vai se tornar aquelas moças que observa hoje sozinha no saguão do cinema. Vai chegar com amigas, conversando sobre um cara, ou outro cara, haverão muitos, consigo visualizar seu sorriso orgulhoso se eu te contar quantos homens já levou pra cama as vésperas dos 26 anos.

Em duas semanas eu faço 26 anos. Às vesperas dos 26 anos eu vou ver o ballet com amigas, janto em restaurantes legais, fofoco sobre pessoas semi-famosas que de vez em quando encontro no bar. Quando voltei para casa eu ri, eu imaginei se a menina de 16 anos achou que chegaria até aqui. Até o ponto de conseguir se cercar de pessoas que gosta, até o ponto de, nos bons dias, conseguir gostar da própria vida.

Talvez eu devesse te dizer que ainda existem dias bons e ruins. Nos dias bons, nos dias em que você não está trancafiada dentro do próprio cérebro, sua vida é o que você, sentada aí roendo as unhas em frente ao computador, sonharia ter. Mas os dias ruins continuam iguaizinhos. Nos dias ruins você se odeia da mesma forma, você se pune da mesma forma. Eu falei que você abandonou o hábito de se machucar, mas acho que isso só quer dizer que ficou mais sofisticada, mais perigosa. Falando nisso, você continua brincando com o fogo. Ou pelo menos continuava uns meses atrás, diz que não faz mais isso , mas ainda tem o telefone dele. Te vejo dando de ombros, mordendo o esmalte escuro, aquela mesma reação irritante que você tem a tudo.

Quando eu cheguei em casa na segunda a noite, eu queria poder dizer a menina de 16 anos que eu fui que tudo melhora. Mas durante todo o fim de semana ela quis me perguntar onde foi parar aquela felicidade toda, vão ser só aqueles dias mesmo?

Sim querida, pelos próximos dez anos aqueles terão sido os dias mais felizes da sua vida. E daqui alguns meses você passará pelos piores. Você nunca mais vai ser tão feliz, também nunca mais vai desejar morrer da mesma forma. Vai doer sim, vai doer muito. Você vai quebrar, vai ficar louca. Vai se jogar no chão chorando e amaldiçoar tudo, sua química cerebral, seus pais, sua cidade, seus avós que não ficaram para morrer na Polônia, o judaísmo, ele. Você vai bater com os punhos na madeira e se perguntar por que, que tipo de universo maldito conjura alguém que possa sofrer assim. Então você se acalma, para de chorar, abraça os joelhos e pensa em fazer uma ligação internacional, lembra que não pode mais. É sozinha agora. Brinca com os aneis na sua mão, lembra que trouxe um deles de uma feira de antiguidades em Havana. Você vai chegar em Havana. E em Sarajevo, Estocolmo, Praga, mil lugares. Você não quer perder Havana. Não quer perder a Islândia, o Vietnã, a Índia, todos os lugares que ainda não foi.

Você vai passar um tempo considerável com um homem com uma vontade de viver incorrigível e vai descobrir que precisava dele. Não sabe se ele percebeu que também precisava da sua falta de medo de morrer.

Dez anos depois tem dias que você apaga o cigarro no próprio pulso, tem dias em que compra flores para si mesma. Mrs Dalloway said she would buy the flowers herself. Eu queria te dizer que tudo melhora, que a vida melhora, que os demônios aquietam. Seria uma mentira tremenda. Mas você descobre que vale a pena, então talvez sim, melhore sim.

Não é repetição, é obsessão artística

Acho que se algum dia, no universo pós apocalipse zumbi, invasão alienígena e epidemia generalizada de ebola (que eu tenho cá para mim que é o vírus zumbi e as autoridades estão escondendo para não causar pânico) alguém for falar sobre o que eu escrevi, acho que eu seria caracterizada com um daqueles autores obcecados que falam sempre das mesmas coisas e voltam sempre nos mesmos temas e de alguma fora contam sempre a mesma história. Não é de estranhar que meus preferidos sejam assim também.

Bergman e Woody Allen são dois grandes obcecados voltando sempre nos mesmo temas e contando sempre a mesma história. É sempre sobre a mortalidade, o universo sem sentido, a crueldade de ser jogado em um mundo de sofrimento e ainda ter que ser retirado dele quando parece cedo demais. Os dois também parecem dizer que a questão que realmente importa, aquela capaz de preencher os dias, de fornecer algum sentido ou retira-lo por completo, é a respeito de nós e dos outros. É possível viver com alguém ou não é. É possível que exista amor ou não.

Já ouço todos os milhões gritando “a questão que importa é a fome, a guerra, o aquecimento global”. Não me importa isso aqui, eu escrevi uma dissertação de 120 páginas, em algum ponto de capítulo 1 eu falo sobre isso. Aqui eu vou assumir que o que importa sim é a questão entre eu e o outro. A possibilidade de alguma comunicação, a possibilidade de amor.

O Woody Allen jovem acreditava no amor como paixão revestida de medo e egocentrismo. Desejo sexual, mais medo de morrer e, pior, de morrer sozinho, levava as pessoas a tentarem conviver umas com as outras em relacionamentos essencialmente desencontrados, impossíveis, truncados. Alvin e Annie nos anos 70 não acabaram juntos, não poderiam acabar juntos, porque ele era essencialmente um pessimista enquanto ela parecia surda ao grito angustiado do universo. E ela nunca poderia entender a angústia dele, nem ele poderia responder a sede de vida dela. Para mim, Annie Hall é um ensaio maravilhoso sobre a impossibilidade de boa parte das relações humanas.

Mas o Woody Allen velho acredita diferente. Ele acredita um pouco mais na possibilidade de mudança. Na possibilidade de abandonar as questões um pouco e ir viver, de tornar a vida menos miserável enquanto ela dura. No filme novo (eu não vou falar nada dele além desse comentário muito geral) isso fica muito claro. É claro que o universo é só um amontoado aleatório e possivelmente cruel de átomos e matéria e não existe consolo ou sentido. Mas qual a necessidade de reafirmar isso o tempo todo? Ou melhor, qual o sentido de fazer questão de viver de acordo com isso? Ele não quer dizer que seja fácil esquecer ou abandonar esse terror e essa sentença, mas não há necessidade de fazer esforço para não abandonar.

Quando eu ainda estudava o Bergman, me lembro de ter percebido que no universo do Bergman, Deus (ou o sentido) é silencioso, afastado, ou mesmo cruel. No universo do Woody Allen não há Deus. Ou sentido. Ou misericórdia. Ou bússola moral. É só acaso. Existe amor, mas ele responde as mesmas leis irônicas e impossíveis. É acaso, é milagre. No filme novo usam a palavra milagre algumas vezes.

Eu acho sinceramente que a maioria das pessoas lidam com o amor como algo que simplesmente acontece, simplesmente está ali, algo natural da vida, algo a que todo mundo tem direito. Take for granted é expressão que me vem a mente. E eu, que acho que é algo extremamente raro, frágil e em nada gratuito, tenho a fama de pessimista.

Eu entendo, acho. Para a maior parte das pessoas amor é essa coisa que elas tinham pela família e que fluia tão facilmente em casa e em casas vizinhas e estar razoavelmente feliz e não desejando que no fundo seus pais de verdade fossem piratas que um dia vem te levar embora era a situação comum. Eu não vou fazer terapia e tragédia da infância infeliz aqui, mas a verdade é que amor sempre me pareceu algo que custava muito caro. Que custava muito esforço, muita devoção, muita perfeição. No fundo, tudo isso obviamente não é amor, eu entendi depois. Mas o que eu também entendi é que ele não flui assim de fontes infinitas como querem me fazer acreditar.

Me lembro muito claramente de estar na quarta ou quinta série fazendo um exercício de interpretação de texto com uma amiga. Era uma crônica sobre filhos que queriam que seus pais se divorciassem de um jeito horroroso, queriam sofrer e ser crianças problema porque isso era “cool”. Era, claro, um texto extremamente irônico sobre o que era de fato ser uma criança problema. Eu ri, eu entendi, eu me identifiquei. Então, no exercício havia uma pergunta se você gostaria que seus pais se separassem. Achei engraçado, achei que em pleno 1998 ou o que fosse, a pergunta deveria ser “seus pais estão casados? se sim…” mas não liguei, me pus a responder com a coleguinha que me apresentou a seguinte resposta “não, gostaria que minha família continuasse feliz como é hoje”. Eu apenas aceitei.

Eu sei que já disse isso aqui (eu falei que era obcecada), mas eu sempre tenho a sensação de que não sou tão pessimista quando gostam de me pintar. Ou melhor, meu pessimismo não vem de um desprezo do amor, ou da ideia de que ele não serve para nada, ou só traz infelicidade. Vem da consciência da raridade da coisa de verdade. Daquele que realmente faz as coisas terem algum sentido, que torna a existência um pouco melhor. Eu reverencio algo que me parece extremamente poderoso e, como todas as coisas poderosas, instável e difícil.

E nem é só amor romântico. O que eu aprendi nessa vida é que todo tipo de amor é difícil. É de uma dificuldade absurda aceitar o outro, acolher, compreender de verdade. Eu enlouqueço de tempos em tempos. Eu perco o controle, eu deixo meu cérebro correr em uma torrente sem fim de palavras crueis, ódio e auto-destruição. Eu viro um bicho selvagem detestável, incapaz de não ser agressiva com qualquer tentativa de aproximação, insensível a qualquer palavra de apoio. E nessa hora eu vejo o quão limitada é a compreensão e a capacidade de suporte do mundo em volta. Não é culpa de ninguém, não estou (DE JEITO NENHUM) cobrando ou acusando ou ressentida de qualquer pessoa que não conseguiu me amar em um momento desses. É o que acontece porque somos humanos e somos limitados e somos terríveis.

É o momento em que meu ex-analista infinitamente paciente e tão determinado quanto eu em me manter fora de qualquer remédio fica sem recursos e me pergunta “você não quer uma receita? você não quer pelo menos dormir?” Se ele, aquele homem médico e psicólogo, mestre na USP e doutor na França, já não sabia o que me dizer, já não aguentava mais me ver entrando lá semana após semana pra dizer a mesma coisa, imagina as pessoas que não são pagas e não são treinadas profissionalmente para isso?

Amor é condicional, sempre é. Sempre podemos quebra-lo ou perde-lo, a mágica é quando ele é elástico suficiente para aguentar uma série de golpes. Eu gosto desse Woody Allen otimista, eu gosto que ele vem permitindo que seus filmes terminem bem porque ele nunca ignora a parcela de milagre envolvida.

“Cinema como sonho, cinema como mágica…”

Eu não sei se isso acontece com todo mundo, em todas as áreas, mas eu respondo muito a “por que cinema?” As pessoas me conhecem na mesa de bar, na casa de alguém, no trem, na fila do museu e perguntam “nossa, cinema, por que?” Porque quando eu tinha 16 anos eu assisti Réquiem Para Um Sonho e eu entendi que podia se contar uma história com sons, imagens, ritmo, atores. Que cinema não era só aquilo que eu tinha conhecido até então. Que aquela história não estava sendo contada para mim apenas na narrativa que eu via, mas nos closes frenéticos, na trilha angustiante, na beleza imaculada da Jennifer Connely.

Eu lia, eu escrevia, mas ambas as coisas pareciam faltar, pareciam etéreas, fantasmas. O cinema tinha uma concretude angustiante.

Carrego Aronofsky, carrego seu formalismo, comigo até hoje. E respondo que cinema porque um dia eu fiquei obcecada.

Mas ontem, enquanto eu lia sobre o Robbin Williams, eu percebi que, voltando mais, talvez Sociedade dos Poetas Mortos seja a resposta. Não é um bom filme. Não é de jeito nenhum um bom filme. E eu desconfio que devo ter torcido um pouco o nariz, revirado um pouco os olhos, mesmo na primeira vez que o vi, aos 13 anos. Eu nunca fui chegada a otimismos e se tem algo que pode ser dito a meu favor é que minha versão atual é um unicórnio cor de rosa cintilante de felicidade comparado com o que já foi.

(quero dizer isso de uma forma boa, mas é um tanto triste. Também é um pouco triste que eu já não tenha nenhuma testemunha da diferença.)

Eu devo ter revirado os olhos, devo ter achado clichê e de um otimismo barato. Mas eu sei que, de alguma forma, o filme me levou. Além do meu julgamento, do meu racional, da minha vontade. Algo no filme me pegou pela mão e me fez chorar nas horas certas, rir nas horas certas e querer sair de lá aproveitando o dia e lembrando que a vida é intensa e curta e toda aquela leitura meio errada de poetas românticos que não estavam falando nada disso.

Isso é o que faz o cinema ser uma indústria gigantesca, gerar milhões de dólares e entregar 1029012910 filmes todos iguais para o público rir na hora certa e chorar na hora certa. Mas isso é também um pouco mágico. Aliás, isso é pura mágica. Como toda, ela pode ser usada para qualquer objetivo, inclusive ganhar rios de dinheiro sendo não original.

Bergman chama sua autobiografia de “A Lanterna Mágica” e conta de quando era criança e de seu fascínio ao ver imagens que se moviam, como se fossem vivas, como se fossem assombradas. Reza a lenda (falsa, mas adorável) de que quando os Lumière apresentaram o cinematográfo, a plateia teve medo de realmente ser atropelada por um trem. Nos primórdios, as apresentações de imagem em movimento eram muitas vezes chamadas de fantasmagoria.

Bergman, ele de novo, desculpem, diz que o cinema é “como mágica, como sonho”. Diz ainda que em alguns de seus filmes tocou verdades profundas que apenas a linguagem cinematográfica, não as palavras, poderiam tocar.

A literatura é de um poder imenso. Palavras mudam o mundo e constroem mundos e livros já me salvaram, destruíram, mostraram verdades brutais sobre o universo. Mas eu acho que o cinema fala a algo mais primitivo, primário, algo antes das palavras. Talvez Bergman esteja certo, há uma camada anterior, mais obscura, mais indesejada, que só as imagens tem o poder de tocar. É como se o cinema pudesse ser a manifestação do nosso inconsciente.

Eraserhead, do Lynch, não é a representação de um pesadelo. Eraserhead É um pesadelo. O material do cinema é imagem, tempo e som. O material do cinema é o mesmo do qual se faz a vida cotidiana. Tarkovsky chama filmes de “moisaicos feitos de tempo” e mais tarde ele usa a imagem de “esculpir o tempo”. Esculpir o tempo, molda-lo, manipula-lo para que ele responda a realidade ou construa a sua própria de forma concreta, material. Isso é o mais perto da mágica que podemos chegar.

Eu costumo ficar triste quando gênios morrem por puro egoísmo. Quando Philip Seymour Hoffman morreu, eu doí porque nunca mais o veria na tela, fazendo aquilo que me embasbacava. Robbin Williams nem fazia filmes bons, quando ele morreu eu fiquei tão terrivelmente triste não porque não veria filmes com ele (não devo ter visto um em anos), mas porque eu gosto muito das pessoas que lembram e reverenciam que o cinema é um pouco de mágica. Eu gosto muito de mágica. Eu gosto demais de tudo aquilo que desafia as leis de como as coisas deveriam ser e também de tudo aquilo que eu não entendo. Eu gosto de livros de fantasia, eu gosto de ver fotos de telescópios espaciais e não me preocupar em ler sobre a física e a química deles. Eu guardo carinho pelos cientistas que me contaram que não se entende tudo, que eles ainda se fascinam porque o universo é inexplicável. Mágico.

Eu gostava dele porque foram tantos filmes dedicados a contar que o mundo é um bom lugar o que é, claro, uma gigantesca mentira. Mas quando um filme te faz acreditar nisso por algum tempo, ele está fazendo mágica. Eu acho o mundo um lugar terrível e posso viver com isso, mas eu detestaria que ele fosse completamente desencantado.

“Minha doce Norazinha putazinha…”

Eu acho interessante, engraçado, como às vezes parece que coincidentemente as coisas se acumulam dizendo a mesma coisa. Um livro, um filme, uma série. Como se todas as escolhas que você faz secretamente se arranjassem para reforçar o mesmo tema, a mesma ideia infiltrada. Ou talvez, seja apenas eu que vejo o que quero ver em repetidos lugares.

Sempre me lembro daquela aula de filosofia, de Freud, de aprender que a paranoia é o oposto do sentimento da ausência de sentido. Na paranoia tudo tem sentido. A paranoia é a resposta do ego (talvez fosse uma aula de psicologia?) que não consegue encarar de frente a falta de sentido e a aleatoriedade do mundo. Na paranoia tudo tem sentido mas ele é sempre contra você.

Divago. Paranoia não tem a ver com esse post, embora essa frase tenha grudado em mim de uma forma que cada vez que ensaio ver uma correlação em eventos que sei que não tem qualquer conexão me paro e digo não, paranoia não. Meu rol de distúrbios diagnosticados já é suficiente sem ela e eu acho neurose uma palavra mais sonora. Saia daqui otimismo, não posso pensar que algo a noite vai dar certo só porque deu de manhã, fique longe de mim.

Mas enfim, não, paranoia não é o tópico. O tópico começa pelo acúmulo coincidente do mesmo tema.

Eu li hoje as Cartas a Nora, do James Joyce. Acho Joyce algo de maravilhoso porque quando você acha que está no domínio da extrema intelectualidade, do experimento formal hiper racionalizado, da linguagem pura que é dissociada da experiência vivida cotidiana, ele vai e te joga um “de sentir teus lábios chupando-me de te foder entre as maminhas”. Você começa Ulysses achando que jamais vai conseguir ler aquela coisa, que aquilo é pura especulação filosófica avançadíssima e de repente percebe que é só uma gente batendo punheta na praia. As cartas começam parecendo declarações repetidas de um amor ideal, do amor denso, intoxicante, mas etéreo e de repente, na virada de uma página, é tudo sobre o cu da Nora e de como ela tem a fantasia de cagar na frente dele.

Eu gosto desse vai e volta entre o extremo intelectual e fisicalidade bruta. Mas eu gosto mais de como Joyce ancora no corpo feminino esse desejo cru. A Nora que nunca vemos falar, como a Molly, como a personagem em Os Mortos, são seres cujo desejo é forte, pulsante, personagens tomadas pela dimensão física do sexo. E é tão raro a literatura, ou mesmo a história, nos contar de mulheres dominadas pelo próprio desejo.

Homens há vários. Desde Marco Antônio há histórias de homens que colocaram tudo a perder pelo desejo carnal, pela impossibilidade de controlar as ondas de sangue que descem pro pinto. De Tolstoi a Philip Roth temos homens que se arruinam por serem incapazes de resistir a pernas que se abrem na frente deles. Parece razoável, não parece uma construção de personagem clichê, mas muito mais a exploração de um arquétipo, a possibilidade de resistir ao desejo é uma questão tão fundamental quanto a aceitação da mortalidade.

Quantas mulheres a literatura conta que se arruinaram por desejo? Lady Chatterley. E não consigo lembrar de mais nenhuma. Emma Bovary se arruina pelo ideal romântico, pela paixão como um todo, não só pelo sexo. As Brontë jamais colocariam em palavras assim, mas desconfio que Catherine se arraste para Heathcliff por desejo carnal, assim como o apelo de Mr. Rochester é tão sexual que a única escolha possível para vivê-lo em um filme é Michael Fassbender. Ainda assim, Jane Eyre embora magnetizada mantém o domínio sobre si mesma, o desejo não a engole como aos personagens de Henry Miller ou Humbert Humbert. Chip, em The Corrections, é engolido pelo desejo, o Caçula, em Dois Irmãos, o personagem de Marcello Mastroiani em 8 1/2, Portnoy, o protagonista de O Museu da Inocência… todos eles.

As mulheres padecem de amor. Margarida, Aida, Sonia, Marianne, etc, etc. É preciso salvar Tolstoi, Anna Karenina é tomada de algo tão sentimental quanto físico. Ainda assim, não é por sexo que ela se joga embaixo de um trem. E acontece que ela poderia.

As cartas de Joyce se acumularam com um episódio de Game of Thrones em que Varys diz “quando eu vi o que o desejo faz com as pessoas, eu fiquei feliz por não tomar parte dele”. Desejo, mais do que sexo, o momento anterior ao sexo, é possivelmente uma das forças mais poderosas do mundo. É algo que toma, engole, enlouquece, controla o sangue o corpo e é capaz sim de fazer com que alguém se destrua. Mas nas histórias isso só acontece com os homens.

Me incomoda que as mulheres sejam colocadas nesse local em que não é que são capazes de dominar o próprio desejo, mas que não chegam a senti-lo com essa intensidade enlouquecedora. E talvez seja o desejo de mais coisas, o desejo como essa força incontrolável de querer algo que te faz ignorar o custo. Fausto, é o grande exemplo. Lady Macbeth talvez seja a única mulher que deseja com a força de Fausto, ainda assim, ela é mais prudente. Não consigo lembrar de uma história verdadeira de alguma mulher famosa que era publicamente enlouquecida por algum homem. Mas acontece.

E é interessante o tamanho do gênio e da complexidade da estrutura mental do Joyce. As mulheres dele estão fora da curva, elas são depositório de uma sensualidade poderosa, enlouquecida sim. Gosto de como ao escrever para Nora sobre o que quer fazer, ele chame aquilo de sujo, de feio sem que isso acarrete necessariamente em errado. É sujo porque envolve merda, semens, sangue, fluídos, cheiros ruins, gosmas. Amo quando o Pedro-Juan Gutierrez fala que sexo não é pra quem é higiênico. Chamar de higiênico, de limpo, de belo exige que ele caiba em um conjunto de valores do funcional, do bem-organizado, do dirigível. Ele não deveria caber ali, não sempre.

Quando Joyce coloca mulheres absolutamente sexuais e chama suas fantasias de feias e sujas, ele mantém o desejo como esse algo mágico, obscuro, poderoso por escapar a lógica racional cotidiana. Ele se recusa a ignorar a sujeira, ele reconhece a importância do tabu até um certo limite (como o medo, há o medo que impulsiona e o paralisador, dá pra importar a mesma lógica), reconhece a força de dar algo de porco, de animal a Molly Bloom. As mulheres de Joyce perderiam o controle por desejo, em uma narrativa que me incomoda que não aconteça mais vezes.

 

Aquela última vodca que eu não devia tomar

Às vezes, muitas vezes, muito mais vezes do que eu gostaria, eu me deparo com a pergunta: por que a auto-sabotagem? Minha, sem dúvidas, o tempo todo. Mas de mais gente. Eu observo ao meu redor repetidas vezes, pessoas que de alguma forma, conscientes ou não, puxam o próprio tapete.

Eu faço isso o tempo todo. Eu sistematicamente explodo cada chance de algo dar certo que me aparece, com toda a consciência do mundo. Toda a consciência do mundo e é isso que mais me perturba. Não é inconsciente, eu não acho que estou fazendo a coisa certa quando estou obviamente indo na direção errada, eu não me engano nem por um segundo, eu sei perfeitamente que estou fazendo aquilo que não deveria, aquilo que vai estragar algo crucial e me jogar de volta para o redemoinho de frustração. Eu só não consigo parar.

Eu não consigo falar o que deveria, ou segurar a frase desgraçada que começa a sair da minha boca. Eu não consigo não me afastar quando deveria chegar perto e não ir atrás quando sei que deveria manter a distância. Eu sei, com toda a clareza possível, que estou deliberadamente estragando algo, mas faço mesmo assim.

Mas eu não sou a única. Eu me lembro do dia em que meu analista (foi abandonado o pobre do analista, foram abandonados os remedinhos para dormir, desconheço auto-sabotagem) me perguntou se eu não queria os caras que não gostavam de mim. Se algo em mim não precisava do desafio, da autoafirmação, do que quer que seja que quando um homem decide não me querer eu preciso dele desesperadamente. Na época, eu não consegui encontrar uma alternativa razoável, embora não conseguisse sentir que fosse realmente assim. É impossível que fosse coincidência, mas essa explicação não me convencia.

Meses depois faz mais sentido pensar que eu saboto cada relacionamento que queria. Mesmo no que nem é um relacionamento, é possível apostar (e ganhar sempre) que vou fazer o oposto daquilo que senti que era necessário. Que vou sumir e me afastar e ignorar ou fazer a psicopata mais interessada do que o necessário ao menor sinal de uma mão que aperta minha cintura significativamente.

Acontece que esse diagnostico de querer o que não se pode ter, quem não se pode ter, não é só meu. É possivelmente uma das reclamações mais comuns em divãs de analista, mesas de bar e cadeiras de manicure. Todo mundo já ouviu a história daquela pessoa que decidia só gostar de quem não queria de volta.

Eu consigo entender porque faço isso. Eu estou acostumada ao ódio e a auto-punição e a parte do meu cérebro que decidiu há muito tempo que I can’t have nice things. Mas é mais que isso. É o medo também. Aquele medo ruim, paralisador. Se você não se deixa ganhar nada, não tem nada a perder.

Se você sabota a coisa no primeiro toque, não corre o risco da dor quando perder. Ou do relacionamento real. Eu aprendi da forma mais dolorosa possível todo o custo pessoal envolvido em se envolver com alguém. Nós fazemos isso o tempo todo achando que é uma aposta baixa, um salto pequeno, e não é. Talvez nossos inconscientes saibam disso.

Talvez ele saibam o tamanho do salto, o preço da aposta e decidam, antes que isso passe pelo nosso ser racional e articulado, que não vale a pena. Ou que não é possível pagar. Talvez eles digam qualquer bobagem, ou digam “volto em dez minutos” para se perder bêbada por aí por três horas, talvez eles não consertem a cagada perfeitamente consertável porque sabem que aquilo não é possível.

Qual o limite da autopreservação? Qual o momento em que vale  a pena tentar superar o medo, freiar a auto-sabotagem? Eu tenho me feito essa pergunta sem parar: como saber o quanto eu posso pagar? Como saber o que eu aguento? O medo que posso tentar superar em segurança?

Não faz muitos meses eu quebrei pelo contato mais ínfimo. Em algo que não foi culpa dele, nem minha, nem dela, nem da situação em si. Era só algo que eu não podia aguentar. E que, como sempre, eu auto-sabotei. Não consigo decidir se foi melhor ou pior assim. Eu quebraria de qualquer forma, ali ou um pouco depois. Foi melhor ter explodido a coisa toda muito no início? É de alguma maneira melhor bagunçar e confundir e jogar fora tudo que tive de encantador e desejável no primeiro momento porque assim termino tudo antes que o contato seja algo mais que um toque furtivo no meio de uma festa?

Valeria a pena ter tentado falar algo apropriado, engatar a conversa fluída que eu sabia que podia, ter agradecido genuinamente, com meu melhor sorriso, a informação de que meu texto era incrível? Ou é melhor assim?

Seres humanos vão contra eles mesmos com uma frequência extraordinária. Roubam de si mesmos aquilo que desejam e eu fico obcecada com o por quê. O tanto em que eu afasto coisas e pessoas de mim é a loucura toda, o ódio e a insegurança toda ou um mecanismo estranhíssimo de autodefesa que me afasta daquilo que não posso bancar? Pessoas que aparentemente se odeiam menos do que seu se auto-sabotam com tanta frequência? Menos? Nunca? A queixa é tão comum quanto me parece?

Roubei de mim mesma momentos que eu queria muito nesse fim de semana. Me recusei a receber elogios e ter conversas que eu gostaria. É curioso isso de quebrar tão profundamente, de sentir tanta dor, o medo extremo de não querer que isso aconteça de novo. E a certeza de que mais cedo ou mais tarde vou ter que pagar pra ver, não sei confiar se há sabedoria na minha auto-sabotagem.

Noite passada foi a madrugada mais curta do ano

Em algum momento você me pediu desculpas porque tinha fumado demais, estava com gosto de cigarros. “Não tem problema”, eu disse. Queria ter dito “eu gosto de gosto de cigarros. Gosto ainda mais do gosto de cigarros diferentes dos meus, mais fortes que os meus. Eu gosto de como o cheiro de fumaça mistura com o perfume, nunca mistura da mesma forma, mesmo em homens que usam o mesmo perfume e fumam os mesmos cigarros.”
“Eu gostaria de acreditar em algo, como aquele homem saindo agora da igreja”, você me diz. Eu concordo, eu também. Invejo as pessoas que vejo beijarem as portas das catedrais ortodoxas, invejo os homens que batem a cabeça até sangrar no kotel, invejo esse homem saindo da igreja as 5 da manhã, em uma madrugada gelada do verão em Sarajevo.
Invejo as pessoas menos conformadas com a ordem do mundo. Menos conscientes de que uma madrugada de verão é só uma madrugada de verão. Menos lúcidas e racionais quanto a insignificância das coisas. Pessoas que teriam por 5 segundos achado que valia a pena anotar seu nome inteiro.
Eu não anotei. Mesmo bêbada, vendo o sol nascer nas ruas de uma capital europeia, há um tipo de ilusão que não me permito. “E se nós ficássemos mais uma noite aqui?” Você me pergunta, sem qualquer pingo de seriedade. Eu sorrio, solto da sua mão, examino os furos de bala nas paredes de um prédio, me viro e respondo “e se nós fossemos para o meu quarto agora?”
Drina, você me contou, é o nome de um rio. Também é a marca de cigarros que você fuma quando está na Bósnia. Ivo Andric escreveu um livro chamado a ponte sobre o Drina. Interrompo, comprei um livro dele uma vez, ainda não li, mas não é esse. Esse é realmente muito bom, você me diz, e você costuma ser exigente com as coisas, os livros que lê ou as meninas que beija no meio da rua, então eu deveria confiar.
Rio. Mas não, o que eu comprei se chama “The Damned Yard”, provavelmente porque me lembrou graveyard e tenho uma certa obsessão com cemitérios. Não faz sentido, você diz. Não, não faz, eu sorrio de novo, balanço a cabeça em negação por trás do copo de cerveja e então trago meu próprio cigarro, que é só o último marlboro light de um maço escrito em húngaro.
Você gosta do meu sorriso. Reparou em mim porque eu ria alto no meio da rua e batia palmas como uma criancinha. “You smile like you mean it”. Rio mais ainda, digo que isso é uma música do The Killers. Que banda ruim, você diz, rindo. Concordo, rio de novo. Você não ri tão fácil quanto eu, mas gargalha quando o americano que anda com a gente imita um inglês aristocrata. Eu não consigo dizer porque é tão engraçado, mas nós dois concordamos que é terrivelmente engraçado e não conseguimos parar de rir.
Concordamos também que The Killers é uma banda ruim. Você pergunta se gosto de jazz, não, não gosto, mas ouvi você e o americano falando sobre um bar de jazz e podemos ir. Vamos e no telão tem Tina Turner, voz e cabelão, no auge dos anos 80. Desconfio que o lugar tenha sido um bunker nos anos 90, também desconfio que saímos sem pagar. Você pede uma cerveja preta, diz que preciso experimentar e pede uma pra mim, também pede um copo de rakia. Pergunta se já provei rakia, sim, conto do meu aniversário na Capadócia, de como fiquei amiga do garçom e virei uma dose de raki, que me disseram, é a mesma coisa,
Sim e não. Sim, mas eu preciso provar o desse lugar. Dou um gole do seu copo, é melhor sim. Você se vira e me beija de repente, muito rápido, antes que o gosto da bebida tenha a chance de sair da minha boca. Gosto disso. Quando você faz isso, decido que quero te levar para cama.
Também decido que quero te levar para cama porque é isso que isso é. Sexo. Porque quero mandar mensagens contando como transei com um bósnio, não como passei uma madrugada inteira trocando de bares e me perdendo pelas ruas de Sarajevo até o sol nascer.
Quando fui comprar cigarros hoje vi um maço de drinas. Quase comprei apenas para lembrar do gosto. Percebi que nem te pedi para experimentar um. Seria um gesto inofensivamente poético, comprar cigarros da marca que o moço da noite passada fumava. O que não vou ver de novo e não me permiti, nem por um ínfimo tempo, imaginar que seria diferente.
Quando o sol começou a nascer, você se espantou. O jogo começou meia noite, que horas você achou que seriam? Tempus fugit, você me diz. Time flies, eu traduzo, mais para mim mesma, enquanto estou muito compenetrada lendo sobre o bombardeio a essa rua. E se nós ficássemos mais uma noite em Sarajevo? E se fossemos para o meu quarto agora?

Um maço de marlboro lights, por favor.