Talvez, só talvez, a arte ainda salve alguém

Logo que eu publiquei o último texto aqui a maioria das pessoas que vieram falar comigo me chamaram de corajosa. Admiraram ou agradeceram a coragem que era necessária para se expor assim, para contar sem muitos disfarces as merdas por que passei. Eu agradeci a todos, mas eu não me sentia corajosa.

Quando eu apertei em publicar, as minhas mãos tremiam. As minhas mãos tremem quando eu fico nervosa, quando eu fico com medo, quando eu tenho muita dor, física ou psicológica. Quando eu falo em público eu torço as mãos, quando eu defendi o mestrado, eu as escondi embaixo da mesa. Quando eu percebi o leve tremor naquela festa eu fiz questão de beber o suficiente para que ele parasse.

Eu não sei quando começou. Eu lembro de uma vez em que minhas mãos começaram a tremer e aquilo foi subindo, quando eu percebi, eu estava sentada no chão, abraçando meus joelhos e meu corpo todo tremia. Foi assim que eu descobri que podia perder o controle.

É um ciclo vicioso. Meu corpo responde ao meu medo, meu medo aumenta porque vejo meu corpo respondendo e ele responde ainda mais e quanto mais eu perco o controle físico, mais medo eu tenho. Você só precisa de uma crise de pânico para passar a vida com pânico de crises de pânico.

Você só precisa de um relacionamento deturpado para ter medo de todos os relacionamentos.

Em Short Term 12, quando Grace fica nervosa, ou se sente ameaçada, ela inconscientemente corta a lateral do seu polegar com a unha de seu indicador. Ela não percebe, sua unha só se movimenta repetidamente enquanto ela fala, a câmera sabe, seu namorado sabe, mas ela se fere sem perceber até que aquilo se abre e sangra.

Ao menor nível de stresse, a reação automática do organismo de Grace é se ferir. Foi nesse pequeno plano detalhe, muito rápido, quase imperceptível, em que a câmera mostra ao espectador esse gesto, em que conta pra ele que há algo de significativo nas mãos de sua protagonista, que eu entendi a que profundezas aquele filme desceria.

Quando eu olhei para minhas mãos sobre o computador e elas tremiam, eu sabia que minha única chance era apertar publicar naquele momento.

A maioria dos posts desse blog é agendado. Eu escrevo, agendo, depois de alguns dias entro aqui e reviso. Às vezes percebo que se eu revisar demais vou desistir, então deixo. Aceito alguns erros de português e frases mal escritas em favor da honestidade, o bom de ter um blog é que leva só algumas horas para um texto virar papel de peixe.

Eu não sei bem do que eu tive medo.  Eu tive um medo definido, claro e honesto de que ele viesse tirar satisfações. De que quisesse discutir que o difamei, que não era assim, ele fez isso por um comentário qualquer no twitter tempos atrás. Tive medo do meio de comunicação que eu ainda não tivesse pensado em bloquear. Não pela presença, mas porque ter que defender o que eu senti seria sofrido, eu não queria argumentar um abuso, não existem argumentos.

Mas meu maior medo foi a percepção dos outros, acho. Cada vez que alguém expressou preocupação ou tristeza por mim, eu corri em assegurar que estava tudo bem agora. Que eu estou bem, que passou. Meu maior medo era ser vista como alguém a quem se deve cuidado e preocupação, alguém cuja história pode ser olhada com pena.

Grace, voltando a Short Term 12, esteve na frente de um tribunal e contou as diversas formas pelas quais o pai abusava dela. Mandou-o para cadeia por dez anos. Mas nunca contou ao namorado. Nunca deixou que ele compartilhasse com ela da profundidade da sua dor e seus traumas, nunca dividiu com ele o espaço infernal dentro da sua cabeça. O filme estabelece um paralelo entre ela e Jayden, uma das garotas de que toma conta. É muito mais fácil expor de forma sistemática, oficial e organizada o que fizeram com você, difícil é pedir ajuda.

Eu não me senti corajosa ao postar o texto anterior porque tudo que eu fiz foi expor, acusar. É como se eu também me levantasse na frente de um tribunal e recitasse, como um rosário, o que foi feito comigo. A diferença é que eu não queria punição, eu queria deixar isso ali para que quem sabe, alguém, no meio de tanta gente que leu aquele texto, se identificasse, percebesse padrões e reconhecesse o que estava sofrendo. Eu queria declarar minha liberdade de falar disso, a impossibilidade dele de me mandar mensagens questionando o que eu dizia.

Short Term 12 é um filme sobre um tipo de abuso muito pior do que o meu. Um tipo de abandono muito pior do que o meu. Sobre crianças realmente violentadas, espancadas, colocadas para vender drogas com dez anos. Crianças cujas vidas familiares eram tão ruins que precisavam ser retiradas de suas casas.

Ninguém nunca teria me retirado da minha casa. Nenhuma assistente social teria achado que um pai ausente e uma mãe neurótica eram motivos para se retirar uma criança. Eu tive babá, fiz aulas de ballet e piano, estudei em escola construtivista, tive um gato, joguei tênis, fui umas 4 vezes para a Disney, no meu primeiro passaporte eu nem era alfabetizada e minha bicicleta era roxa brilhante com pneus brancos.

Mas o sentimento de profundo abandono daquelas crianças me tocou. Eu percebi o quanto eu desejava que alguém agisse comigo como Grace agia com elas, que alguém tivesse tido a paciência de sutilmente arrancar de mim mesma o que eu queria dizer. É fácil recitar a lista de seus abandonos e injustiças, é fácil contar acuradamente a narrativa de cada uma das vezes que minha mãe me chamou de monstro. Muito mais difícil é assumir que preciso de ajuda por causa disso.

Eu fiz naquele texto o que era mais fácil e fiz porque para algumas pessoas talvez ainda não seja, porque eu só tomei consciência de mim mesma através da arte.

Esse ano tem sido um processo de descobrir o direito que eu tenho a minha dor. As faltas enormes e a raiva. E que tudo bem, elas tem um motivo para estar ali, eu passei por coisas terríveis, talvez não terríveis a ponto de uma assistente social me tirar de casa, mas terríveis a ponto de eu viver com um constante ruído branco de dor e medo. Medo de mim mesma.

Foi na arte que eu aprendi sobre mim mesma. Muito mais do que em divãs de terapeuta, mais do que em qualquer lugar. Foi Bergman que me ensinou o quanto é devastadora a indiferença, Henry James que me mostrou o tamanho do desejo de ser amada de uma garotinha. Em Short Term 12 eu vi nas crianças a criança que eu fui e o desejo imenso, enorme, devorador, de ter simplesmente alguém que sentasse ao seu lado e te esperasse você levar seu tempo.

Eu também vi no tique de Grace o tremor das minhas mãos.

Short Term 12 é um filme terrível, daqueles que mostram o quão fodido é esse mundo. Ao mesmo tempo é um filme de um otimismo profundo, um filme que reconhece que o difícil não é falar, é assumir as consequências do que é falado. Eu posso contar sobre quatro anos de sofrimento, mas não posso dizer que esses quatro anos deixaram marcas e que sim, estou bem, mas não tão bem quanto gostaria, não totalmente bem, melhor, mas não curada e sim, eu gostaria de ajuda.

Não é preciso coragem para contar sobre abuso na frente do tribunal. É preciso coragem para assumir para um namorado que aquilo deixou marcas e por isso é difícil confiar nele e ainda se tem pesadelos e ainda se corta a lateral do polegar sem perceber.

Eu não me senti corajosa quando aquele texto entrou e tanta gente disso isso pra mim. A cada preocupação que eu afastava eu me sentia mais fraca, tanto por não aceitar mãos amigas quanto por precisar delas. E eu precisei de um filme para entender o que eu estava fazendo.

Em um texto sobre o Bergman, Woody Allen diz “in the end your art doesn’t save you” ele fala da mortalidade, de como ser lembrado não é em nada parecido com realmente viver para sempre. Uma vez que estou morto, foda-se que lembram de mim. Faz sentido. Fazer arte também não cura ninguém das próprias dores, dos próprios transtornos, das próprias mãos que tremem. Fazer arte é só fazer arte, é só por pra fora, pode ajudar, mas não salva.

Talvez a sua arte não te salve, mas a dos outros sim. Sua arte não salva a você mesmo, mas a alguém. Vir aqui e falar de um namoro horrível não conserta o tempo que passei nele, não conserta minha distância, minha hesitação, meu medo. Mas talvez ajude outra pessoa e entender os seus. Talvez eu possa salvar alguém pela arte, talvez ela seja a única forma de me salvar.

Um minuto para o didatismo: eu tive um relacionamento abusivo

Interrompemos a programação normal para um texto provavelmente mais mal escrito do que a média, mas que eu achei que era hora de existir. Eu sempre soube que ia escrever sobre isso, alguma hora, em algum lugar, mas não achei que fosse aqui. Achei que daria mais tempo, mais espaço, achei que vestiria a coisa de ficção ou algo assim. Mas conversando com algumas amigas eu descobri que a minha história não é só minha e achei que talvez fosse importante tentar contar, já que é a mim que cabe esse blog tão overshare. É enorme e eu peço perdão, não me importo muito se vai ser o texto menos lido da história desse blog, eu só achei que, já que eu tenho a possibilidade de expor minha intimidade ao público, isso era importante e necessário e poderia ser útil pra alguém.

Eu passei 4 anos em um relacionamento de merda. 4 anos em um namoro que, na época eu era incapaz de perceber, não me fazia feliz. Não só não me fazia feliz como minava sistematicamente minha auto-estima e me fazia abandonar coisas que eu gostava, que eram parte de mim, que me faziam quem eu era. Hoje, 3 anos depois do término, talvez eu chamasse o relacionamento de abusivo. Foquem no talvez. Faz 3 anos que eu terminei, 3 anos que eu saí pro mundo, tive outros relacionamentos, conheci outras pessoas e eu ainda hesito em colocar rótulo em uma coisa que eu sei muito bem o que foi. Por que? Porque eu tenho vergonha, porque eu me culpo.

Do término, da minha primeira percepção de que algo estava errado naquele relacionamento, até o início desse ano, eu me culpava sem parar pelo que aconteceu. Que ele fosse um babaca, isso era problema dele, que eu tivesse deixado alguém me tratar daquela maneira, que eu tivesse me submetido aquilo, era culpa minha. Que ele era um babaca era inegável, mas eu deveria ter saído fora nos primeiros meses, no primeiro ano. Eu passei meses, e infinitas sessões de análise, remoendo porque eu deixei tanto acontecer, porque eu fiquei com alguém que hoje eu não aceitaria um encontro. Levou tempo perceber que no fundo eu não poderia sair, porque as acusações que eu tinha a ele não eram só as que eu achava que tinha, a maior acusação era que ele minava sistematicamente qualquer auto-estima que eu pudesse ter e me enredava nas minhas próprias dificuldades, ansiedades e distúrbios.

Vamos começar do começo. Eu imagino que gente mais bem resolvida, gente mais segura de si mesmo e de suas qualidades e da sua possibilidade de ser amada, entre menos nesse tipo de relacionamento. Quando eu terminei, minha mãe me disse que eu deveria ter ficado com ele mesmo porque ninguém mais ia me aguentar. Daí vocês podem começar a fazer uma ideia do quão fodida é a minha cabecinha.  Hoje, aos 25 anos, depois de ter passado por muita coisa nessa vida inclusive dois terapeutas, eu ainda preciso fazer um esforço enorme de não me odiar o tempo todo, de não me odiar, e as coisas que eu faço, de uma forma que seja paralisante e auto-destrutiva. Eu aprendi a lidar muito com isso, com a sensação de que eu não mereço coisa nenhuma nesse mundo, especialmente a atenção de alguém. Não é fácil, muitas vezes é insuportável, mas isso é hoje. Aos 18 anos, minha cabeça era a própria filial do inferno.

Aos 18 anos eu sabia muito menos e vinha de dois relacionamentos que não tinham ajudado em nada a melhorar esse quadro. Eu não tenho vontade de falar deles ou de expor os dois envolvidos nesses casos, eles não foram crueis ou abusivos da mesma forma, embora um deles tenha sido sim um filho da puta. Mas era diferente. Acontece que aos 18 anos eu tinha uma auto-estima fraca e meu coração partido de uma maneira que eu estava disposta a qualquer coisa para fazer parar de doer. Qualquer coisa. Incluindo entrar no primeiro relacionamento que me foi oferecido com alguém por quem eu não estava apaixonada.

Acho que uma das maiores justificativas de pessoas que se mantem em relacionamentos abusivos era o tanto que amavam o namorado/marido/parceiro/etc. Nunca foi a minha. Eu o amei sim, de alguma forma, durante algum tempo, mas nunca foi uma paixão louca que me levasse a fazer qualquer coisa, foi muito mais o desejo desesperado de curar uma ferida minha, mais especificamente a ideia de que ninguém poderia me amar. Eu queria provar para minha mãe, para os outros caras, para mim mesma, que eu era capaz sim de ganhar e manter o amor de alguém. Eu estava disposta a qualquer coisa para não falhar nisso.

E qualquer coisa foi muita coisa. Eu não sei como começou, ou o que começou. Eu não tenho vontade de acusa-lo de ter deliberadamente falado coisas e feito escolhas que me feriam, eu não acho que foi isso. O que eu acho é que acabei com uma pessoa cuja personalidade era um misto de ego desenfreado e insegurança e essa mistura é perigosa: ele se achava melhor, mais inteligente, mais merecedor de todas as coisas, ao mesmo tempo se envergonhava da origem e da história e de outras coisas. E daí era uma guerra de tentar não fazer o outro perceber as falhas nessa pessoa tão maravilhosa que ele vendia. Eu me lembro de uma vez em que fomos ao teatro e eu não gostei da peça, o que seguiu foi uma briga porque eu era histérica, capitalista, e tinha falado isso alto quando alguém da equipe poderia estar ali. Eu não entendia que o elenco enorme era o triunfo do coletivo, bla, bla, bla… Eu não tinha direito a minha opinião sobre aquilo. Em um outro momento foi um documentário e a mesma história. A discussão nunca era sobre minha opinião em si, mas uma enxurrada de acusações sobre quem eu era e como eu fazia as coisas. E quem eu era e como eu fazia as coisas sempre estavam errados. E já vimos o quão disposta a aceitar essas acusações eu estava.

E é uma bola de neve. Eu lembro da briga porque todos os fins de semana eu tinha algum plano. Eu estava na faculdade e ainda falava com meus amigos de colégio, então sim, quase todo fim de semana eu tinha um aniversário, um evento, o lançamento de um curta, o que quer que fosse. E a briga não era porque eu não tinha tempo para ele, ou nós não nos veríamos. Era porque eu já tinha um plano e ele seria encaixado. Porque ele não era a prioridade. Porque minha vida não orbitava em volta dele. E aos poucos, de tantas brigas e de tanto ser acusada de egoísta e incapaz de me relacionar propriamente com o outro, ele passou a ser.

Eu passei um tempo muito longo me acusando disso, me culpando por esse momento em que eu vi uma briga desmedida acontecendo, em que eu vi uma pessoa incapaz de admitir a autonomia do outro na minha frente, mas eu fiquei. Eu fiquei porque, para mim, a acusação de que eu era egoísta, incapaz, de que a forma como eu fazia as coisas era errada, era poderosíssima, era destruidora. E a forma como eu fazia as coisas estava sempre errada. Da minha forma de ver o mundo a cortar a pizza (EU NÃO ESTOU EXAGERANDO! houve um comentário sobre minha falta de otimização no cortar da pizza e o que isso significava sobre mim). Meu gosto musical, a música, uma das coisas que eu mais amo na vida e que mais me salvou de mim mesma em anos de uma existência problemática, era alienante, entretenimento barato, shows eram o culto da personalidade e representavam o que havia de pior na sociedade atual. Eu não deixei de ir em shows, mas era um custo, era uma briga, era ouvir essas acusações toda vez. Eu parei de descobrir bandas novas e eu diminuí drasticamente o quanto o ouvia música, porque ele não tolerava.

O problema não é o que ele achava da música. O problema é que a opinião e a visão dele não admitiam ser a opinião e a visão de alguém. Elas eram A VERDADE e se eu descordava eu estava, por consequência, errada. Sendo esse portador da verdade, a vontade dele não assumia que a vontade da outra pessoa era tão autônoma, válida e digna de consideração quanto a dele. Quando íamos no meu (repetindo, meu) carro para a casa da minha mãe, ele não aceitava que eu ligasse o rádio. Não havia a negociação de talvez podemos ouvir algo baixo, ouvir por metade do caminho, ouvir na ida e não na volta, qualquer negociação entre duas pessoas que querem coisas diferentes. Não, ele não queria e isso era final. E as minhas tentativas de negociação acabavam na acusação de como minha vontade era fruto da minha ignorância e egoísmo e etc, etc.

Parece bobo, parece trivial que eu venha contar de música no carro. Mas não é. É o reconhecimento do desejo do outro como válido. Anos depois quando eu me acertei com outro homem sobre o ar condicionado do quarto dele, eu vi a diferença absurda que era ser tratada como um ser humano, que era ter minha vontade e minha queixa reconhecidas.

E já que falei em desejo do outro, vamos ao sexo. Eu estava descobrindo o sexo ali, minha experiência anterior era basicamente nula. Era suficiente para saber que nós não tínhamos uma química extrema, que eu não o desejava como já havia desejado outros, mas eu não sabia da importância disso para mim (honestamente, a importância e o poder do desejo físico sobre mim é algo que só fui descobrir há muito pouco tempo). O sexo não era ruim no início porque tinha o fator novidade, eu estava descobrindo uma coisa que eu não sabia quão boa poderia ser. Mas ele rapidamente se tornou e pedidos meus de trocas de posição ou de experiências novas (assistir um pornô juntos, por exemplo) encontravam a resposta: “isso é desespero, coisa de gente que não se ama de verdade, como nosso relacionamento é autêntico e verdadeiro, o sexo vai ser natural”. Não é muito curioso que a primeira coisa que eu parei de fazer quando percebi que não queria estar ali foi sexo e que essa também foi o primeiro (e único!) sinal de que havia algo errado que ele captou.

Hoje, o que mais me perguntam é por que eu fiquei ali. Ouço com frequência “nossa, mas eu não teria aguentado dois dias”. Hoje, eu também não. A pessoa que eu sou hoje dificilmente teria ficado com ele uma segunda vez. Mas quem eu era 8 anos atrás, estava desesperada para tampar traumas e inseguranças e acabou com alguém que predava nelas. Minha grande dificuldade, o provável problema formador de todos os meus outros problemas psíquicos é o ódio a mim mesma, a percepção, não de que não sou boa, mas de que sou, no fundo, algo de monstruoso. E cada vez eu tentava exercer minha vontade eu encontrava essa acusação. E ele estava certo, ser eu mesma era ser um monstro e a única maneira de não sê-lo era anular tudo e continuar ali, provar que alguém poderia conviver comigo e me amar. Foi só quando entendi isso, a dinâmica entre como ele me tratava e como eu me tratava e como uma cosa alimentava a outra e me prendia, que eu parei de me culpar e assumi o ódio que eu queria ter desse período.

Eu não sei quando saí disso e decidi terminar. Não sei como, quando ou por que, decidi que não queria mais estar ali. Dessa decisão até o término real, levei seis meses, porque eu não conseguia me convencer a causar essa dor em alguém, eu não tinha esse direito. Eventualmente não consegui aguentar mais e o fiz. E foi um término feio, lógico. Terminar exigiu que eu desafiasse essa vontade que não aceitava desafios. O resultado foi que ele invadiu meu email, leu meus diários, revirou minha gaveta e eventualmente (consciente ou inconscientemente) bateu meu carro.

Depois de eu ter deixado muito claro que não tinha interesse em qualquer contato, ele me mandou emails até que eu o filtrasse; curtiu coisas no meu facebook até que eu o deletasse; me mandou mensagens tentando tirar satisfações sobre coisas que eu tinha escrito no twitter até que eu fiz um jailbreak no celular apenas para bloqueá-lo (na época o ios não fazia isso sem jailbreak). Semana passada, três anos após o término, ele apareceu em uma aula que eu dei e veio perguntar se poderia falar comigo me chamando pelo apelido de quando namorávamos. Eu disse que não e me senti suja, violada. Menos pela tentativa de aproximação, que agora estou bem suficiente para julgar apenas inadequada, mas pela tentativa de me arrastar de novo para dentro de uma relação com ele. Eu não quero uma relação com ele, nenhuma, não quero qualquer vínculo com uma época que foi tão dolorida. Depois disso, eu o bloqueei o facebook para que possíveis divulgações de eventos não pudessem ser vistas.

E daí eu escrevi esse texto, menos por mim, embora tenha sido de alguma forma catártico, e mais por todas as amigas incríveis que disseram ter vivido o mesmo tipo de coisas. Porque é comum, porque relacionamentos abusivos e disfuncionais acontecem e eu achei que descobrir que a experiência não era só minha ajudava a aceitar e seguir em frente.

“Just ’cause you feel it doesn’t mean it’s there”

Eu tenho certeza que um dia desses morrerei no meio da Paulista, vou cair dura, sem mais nem menos, com fones de ouvido na cabeça. Causa mortis: coração destroçado por excesso de Radiohead.

Eu não preciso ouvir a voz do Thom Yorke, eu só preciso reconhecer o primeiro acorde para sentir meu sangue correr mais devagar, meus músculos contrairem e uma eletricidade passar pela minha pele, a espera da dor que vai vir. E ela sempre vem.

Eu poderia parar de ouvir música no shuffle, me proteger dessa onda de sofrimento que pode vir a qualquer momento, quando eu menos espero, me desconcertando quando preciso atravessar a rua. Poderia deletar todos os álbuns do meu computador e do meu ipod, ninguém precisa voluntariamente se expor a um espancamento desses. Ninguém precisa correr o risco de ter essa bigorna caindo na cabeça a qualquer momento do dia, justamente quando tenta não enganchar o salto no vão do metrô, ou não colocar fogo no cabelo ao acender um cigarro.

Mas quando meu cadáver for encontrado no meio da Paulista, muitas horas depois e já pisoteado pelos pedestres, eu terei um sorriso no rosto. É puro masoquismo. Como quem precisa de mais dor para sentir mais prazer, como quem só vai gozar com as costas em carne viva de chicotadas. A felicidade que eu sinto cada vez que Thom Yorke me inunda de dor me impede de parar, a imensa felicidade cada vez que acho que meu coração não vai aguentar.

Nem todas as músicas são iguais. True Love Waits é como destruir meu coração com um martelo de carne, é golpea-lo até que tudo que sobre é uma massa nojenta de carne vermelha, sangue e veias, completamente disforme e repulsiva. High and Dry é senti-lo se encolhendo, ficando menor e menor até deixar de existir, consumido pelo espaço que ocupam os meninos que essa música me lembra. E There There é como se uma agulha muito fininha fosse introduzida devagar bem no centro do meu coração. É uma dor aguda, pontual e agonizante quando ouço “just ’cause you feel it doesn’t mean it’s there”

O quanto do que a gente vive existe fora da nossa cabeça? É uma questão epistemológica antiquíssima: o quanto posso saber do mundo? como posso ter certeza que tudo não é só uma peça, uma ilusão, que nada de concreto existe? E se no fundo tudo isso, toda essa vida é só uma viagem muito louca de ácido que alguém tem em 2050? E se somos só o sonho na mente da velhinha?

Ok, fui longe demais no ceticismo, mas a questão continua válida: quanto do que a gente vive não existe apenas na nossa cabeça? A vida é um eterno interpretar as coisas. Interpreto desde o homem andando na minha direção na rua a noite, ao aceno de cabeça do meu aluno ao whatsapp do cara em que estou interessada. Interpreto o tom da minha melhor amiga no email que ela me mandou e da secretária do médico quando ligo pedindo uma consulta. Preciso interpretar, é o processo de fazer o mundo exterior passar para dentro da meu cérebro e se tornar inteligível, mas quanta objetividade existe nesse processo? Quanta objetividade pode existir nesse processo quando se trata da comunicação entre duas pessoas cujos sentimentos são, em algum nível, desconhecidos?

Eu já me vi diante de uma situação que me fez pensar que dessa vez eu realmente tinha ficado louca, esqueça depressão ou ansiedade, algo dessa vez deu muito errado na química do meu cérebro e eu passei um ano vendo algo que não existia. Quer dizer, tudo existia, concretamente os fatos existiam, só não existia a narrativa que eu imaginava ligá-los. Eu alucinei? Eu quis tanto que algo acontecesse que vi mesmo que não tivesse acontecendo? Revisei a história histericamente, pedi confirmação de cada trecho, repeti para meu analista até ele concordar que não, eu não estava tão louca assim e por mais que eu tivesse interpretado errado, havia alguma base na minha interpretação. Mas qual a possibilidade de se interpretar certo?

Cada vez que eu tenho a impressão de estar flertando com um cara eu me pergunto “será que estou alucinando e ele não tem nenhum interesse em mim?”. Por mais que eu sinta o interesse, isso não quer dizer que ele está lá. O que dizer quando esse interesse é mais do que puro “eu queria te beijar”? Do sentimento de alguém gostar ou se importar com você e não, não é porque você sente que ele é real.

A comunicação humana é em si um abismo. Nos centímetros de ar entre quem fala e quem ouve há tantos infinitos processos microscópicos, tantas variáveis de neurotransmissores, vibrações do som, repertório, que eu me surpreendo que nós possamos nos comunicar com qualquer grau, mesmo que mínimo, de eficiência. Eu me lembro bem dessa parte das aulas de teoria da comunicação, a comunicação é a dinâmica entre quem enuncia e quem recebe e o espaço que os separa. E os espaço que os separa pode ser infinito.

Eu e um habitante do Quirguistão somos ambos humanos, mas eu não duvidaria que seja mais fácil me comunicar com meu gato ou com um eventual venusiano que baixe aqui na Terra. Começa na língua, mas é mais que isso, é a radicalidade absurda da diferença de vivências. Comunicar requer compartilhar alguma experiência comum, algum lugar comum onde possamos nos entender. E se cada um viveu a mesma coisa de forma completamente diferente? E se minha experiência e a dele nada tem a ver uma com a outra? E se o que eu sinto não está lá? E se o que está lá ele não sente?

Cada vez que Thom Yorke me lembra disso, uma agulha pontuda e fina é enfiada no meu coração. Ela vai abrindo caminho devagar, afastando sentimentos e me lembrando que não, não é porque eu sinto que está lá.

There’s always a siren
Singing you to shipwreck
Steer away from these rocks
We’d be a walking disaster

Eu tenho 26 anos e uma pressa desgovernada

Existe uma música meio brega e que estava na moda uns anos atrás que diz “you can’t be everything you wanna be before your time”. Se tem um conselho que eu preciso que uma música meio brega me dê, é este.

Eu tenho muita pressa. Eu tenho uma pressa terrível. Não o tipo de pressa que me faz chegar cedo em eventos ou nunca perder aviões, claro que não, jamais vivo sem correr o risco de perder um avião. Mas a pressa que me faz sentir o tempo passando rápido demais, a pressa de ser quem eu quero, de chegar em algum lugar, o mais rápido possível. Uma pressa que me faz ficar muito angustiada com velas em um bolo e com os desvios da vida.

Na tarde do meu aniversário eu conversava por facetime com meu amigo mais antigo, ele me perguntou como eu me sentia com 26 anos. Velha, eu respondi. Ele riu e eu continuei: “como se o tempo de fazer as coisas estivesse passando e eu não estivesse fazendo”. Então ele muito pacientemente, me lembrando porque a saudade é sempre terrível, listou todas as coisas que eu fiz desde que ele me conhece. Todos os lugares, não físicos, em que eu cheguei.

“Você é mais forte agora”, ele me diz, “eu tenho muito menos medo por você agora. Você sobreviveu.” Eu não contei que ele só diz isso porque não estava aqui para me ver perdendo o controle por algo tão terrivelmente estúpido porque não fui forte o suficiente para lidar com algo menos estúpido. Que ele não estava aqui para descobrir comigo que eu também pensava assim, que agora eu podia ter menos medo, e eu nunca estive tão errada.

Uma outra pessoa me disse que às vezes ele achava que eu tinha a pressa das pessoas que sentem que não vão durar muito tempo. Eu estava deitada de bruços na cama dele e me virei de lado, fiquei quieta por alguns segundo e neguei com a cabeça. Não, eu não tenho medo de não durar, eu tenho medo da apatia me vencer se eu não tiver pressa.

Como andar de bicicleta, é mais fácil se equilibrar quanto mais rápido você anda. Se eu paro, eu caio.

Eu tenho essa sensação muito forte de que o tempo vai passar por mim e eu vou ficar. Presa. Com meus pés enfiados na areia movediça. O tempo vai escorrer e eu nunca vou ter feito tudo que queria ter feito. Não vou escrever um livro, não vou ter um doutorado, não vou a Índia.

Não vou porque tentei e falhei, é um medo. Mais do que isso meu medo é de nem tentar, meu medo é de sucumbir ao peso dos meus membros, a névoa que toma meu cérebro e torna tudo tão, mas tão difícil de vez em quando.

Com voz doce, esquecendo as palavras do português, ele vai me lembrando de tudo que eu já fiz. Eu confesso, consciente do meu próprio ridículo, que gosto das garotas prodígios, das wunderkinds e enfants terribles desse mundo, que gostaria de ser uma. Que sei que Virginia Woolf diz que ninguém deveria escrever nada antes dos 40, mas eu quero ser Rimbaud.

Me pergunto se é o mundo que me faz ter tanta pressa. Se essa pressa não é só minha, mas de todo mundo, se a modernidade sendo como é faz com que todos nós tenhamos esse sentimento de ficar para trás em relação ao próprio tempo, de que se tudo não for feito antes de uma certa idade o tempo vai se esgotar, a ampulheta apita, meu deus como eu gostaria que esses vira-tempos da Etsy funcionassem de verdade.

Mas a verdade é que, como quer me dizer a música brega e levemente irritante, você não pode ser tudo antes do seu próprio tempo. Esse blog tem quatro anos, se você voltar até outubro de 2010 e o primeiro post, a pessoa escrevendo era outra. Eu escrevia de outra forma e escrevia muito pior. Entre outubro de 2010 e setembro de 2014 eu terminei um namoro, entrei no mestrado, escrevi uma dissertação toda e defendi, tive um outro relacionamento inteiro, fiz 6 tatuagens, mudei a cor do cabelo três vezes, voltei a fumar, conheci mais ou menos uns vinte países. E eu precisei de tudo isso para chegar nesse texto aqui.

É um conceito que me irrita um tanto. Esse de que eu preciso respeitar o que o tempo e a vida fazem comigo e o que eu sou hoje não era antes. Que os textos, as pesquisas, as ideias, elas vão sendo construídas aos poucos. As críticas de filme que eu fazia dois anos atrás não podiam ser como as de hoje pelo simples motivo de que eu tinha visto algo entre 60 e 100 filmes a menos. Eu não quero esperar estar pronta para algumas coisas, eu não quero sentir o tempo passando por mim. Até porque eu tenho medo.

O tempo e a vida nem sempre foram gentis comigo e eu às vezes penso que deveria correr na frente deles, fazer tudo e fazer agora porque se eu abaixar a guarda tudo desmonta de novo. Eu quero tudo e quero agora não com o medo de quem talvez fique pouco tempo nesse mundo, mas com o medo de quem está sempre jogando contra a aposta.

Mas talvez eu não esteja mais. Eu recolho pequenas polaroids desbotadas da noite passada e tento repetir para mim mesma a lista das coisas que já foram feitas. Talvez o tempo não esteja passando por mim, talvez eu não esteja para trás, talvez eu não precisasse ter feito muito mais do que já fiz. Eu queria acreditar nisso, eu queria acreditar que não preciso dessa pressa desvairada e dessa sensação de ser insuficiente sempre, devagar demais sempre.

Eu gosto da ânsia, eu gosto do impulso de movimento e eu sei que preciso dele, é meu jeito de curar a mim mesma, ou pelo menos de conviver comigo mesma. Mas eu dispenso a punição. Ou queria dispensar. Eu queria aprender que talvez as coisas aconteçam no tempo delas, talvez tudo que sai de mim precise de seu tempo dentro, sendo elaborado, se alimentando das coisas que eu vivo.

Ele levou o tempo dele para voltar pra mim. Nesse tempo, eu me cerquei de outras pessoas. Na lista dele não contava a quantidade de pessoas por quem eu me sentiria amada. Eu conto isso, que se tem algo que eu fico orgulhosa de mim mesma esse ano é da quantidade de pessoas em volta de mim e de como eu não tenho mais aquela pontada de incredulidade a cada declaração gratuita de amor de quem quer que seja. Ele diz que me ama, eu sei, eu digo. Você vai ser sempre minha pessoa preferida e a melhor parte de mim porque eu só aprendi que se pode gostar de alguém incondicionalmente quando você entrou na minha vida. Aquele tipo de segurança que alguém vai estar ali pra você, que alguém vai tentar consertar algo que te machuca mesmo antes que você peça, eu só aprendi com você.

Eu precisei do meu tempo para aprender a confiar nas pessoas. Quando eu tentei fazer isso antes do tempo deu tão terrivelmente errado que eu deveria ter aprendido. Não sei o quão importante é isso, não aplaca em nada a minha pressa terrível de todas as outras coisas que se eu fosse mais clichê diria que são menos importantes. Não acho que são, mas acho que eu nunca poderia chegar nelas sem essa primeira.

Como eu nunca poderia chegar nesse texto totalmente desnecessário e sem sentido dois dias atrás, antes dos 26.

 

Eu matei um relacionamento e joguei em vala comum

Hoje eu comecei no Coursera um curso chamado “The Fiction of Relationships”. Nunca acho a internet tão genial e maravilhosa como quando ela me permite ver um curso de Brown no conforto do meu lar, sem realmente ter que fazer trabalhos e provas. Peguei o curso porque me faria ler Jane Eyre, To The Lighthouse e alguma coisa do Faulkner, coisas que venho pensando que deveria fazer, e adiando, há muito tempo, mas também porque o tema me pareceu maravilhoso: a ficção dos relacionamentos! Se tem algo sobre o que eu falo aqui é a respeito de relacionamentos e se tem algo que eu vivo tentando entender são relacionamentos. Duas pessoas conviverem, compartilharem uma vida, me parece algo tão improvável e estranho que eu me sinto incontrolavelmente atraída.

Na primeira aula, o professor (um velhinho maravilhoso, usando uma gravata incrível e esdrúxula) diz que the fiction of relationships não se refere apenas a ficção que nasce a partir dos relacionamentos, mas também da ideias de relacionamento como uma ficção. Não no sentido de que não sejam reais, mas de que são constructos, narrativas. Acho que essa me pareceu a ideia mais genial que já entrei em contato nos últimos tempos.

Para terminar um ensaio com que venho brigando há mais de um ano, aluguei Fragmentos de um Discurso Amoroso na biblioteca. O livro é de alguma forma sobre essa ideia de que relacionamentos são ficção, já que não é sobre o amor em si, mas sobre o discurso do amor, sobre aquilo que enamorados enunciam. A faceta pública, narrativa, do amor. No fundo é tudo uma grande encenação teatral, uma grande ficção. O que não quer dizer que não seja real, jamais esqueço do Bergman dizendo que o papel da ficção é justamente revelar as verdades mais profundas.

Eu gosto da ideia de que relacionamentos são narrativas particularmente para poder pensar que existe um início, um meio e um fim. Você pode trocar a ordem. Pode fragmentar. Pode mudar as regras a respeito de arco narrativo e estabelecimento do conflito. Pode escrever o Jogo da Amarelinha. Mas, bem ou mal, há sempre um início, um meio e um fim.

Já falei que acho que ritualizamos demais o início de relacionamentos e muito pouco o seu fim. Não lembramos a data de término, não fazemos tanta questão assim de marcar “aqui termina algo” como fazemos com inícios. Da mesma forma, acho que já li muito mais listas a respeito dos “melhores inícios” na literatura do que dos melhores finais, ou das melhores cenas de abertura de filmes. Entendo a importância da apresentação de uma narrativa, mas a última cena, aquilo que ela deixa em você quando se vai, deveria ser igualmente importante.

Relacionamentos são como narrativas e eventualmente eles acabam. Ah, as vezes acaba e volta. Não, daí é o Jogo da Amarelinha ou o qualquer outra narrativa pós-moderna, não acabou. Eu tenho um relacionamento que “acabou” em 2004 e voltou em 2012, são 8 anos entre uma coisa e outra, mas esses oito anos existiram no relacionamento, mesmo sem sequer saber da vida dele, algo existia ali, não é como se começássemos um relacionamento novo oito anos depois, como se pudessemos esquecer o que havia. Era uma continuidade, era diferente, mas era de alguma forma, o mesmo relacionamento. Ele não acabou em 2004, ele acabou, talvez, em 2014.

Em alguns momento, relacionamentos acabam. Eu acho importante repetir isso e eu acho o fim, a consciência de que algo chegou ao fim de que aquela relação entre aquelas duas pessoas morreu, muito importante. Acredito em casais que são amigos depois? sim. Mas acho muito importante o entendimento que, embora as mesmas pessoas estejam envolvidas, o relacionamento é novo. É outra coisa, outra relação, outro comportamento, outra variáveis envolvidas, outro comportamento.

E às vezes qualquer relacionamento entre aquelas pessoas acaba mesmo, de vez, para sempre. Você não precisa manter contato com todas as pessoas que já conheceu na vida, mesmo que uma dessas pessoas tenha transado com você, viajado, morado, etc. Você pode ter memórias disso e elas podem ser boas ou ruins ou o que quer que seja, não importa, o que importa é que memórias não significam que algo continuou a existir, que uma narrativa continuou a desenrolar.

Eu entendo, e é uma das coisas que mais lamento na vida, que os fins não são simétricos para os dois. Que o que para mim morreu ali, como sentimento, pode continuar se arrastando por anos para ele, por isso acho tão importante a marcação do fim objetivo, da morte do relacionamento, mesmo que amor, e outros sentimentos também, permaneçam. Acabou aqui, a narrativa que éramos nós dois, termina. A sua, e meu lugar nela, pode continuar, mas ela é sua, não é mais minha. Eu não quero mais, eu saí fora. Ok, eu continuo com uma narrativa minha onde você tem um lugar, mas esse lugar é outro e essa narrativa também é minha, só minha, não sua.

Eu gostaria que dizer para alguém “eu nunca mais quero olhar na tua cara” fosse assim, simples, claro e entendível como parece ser. Que quando algo morre, ele morre e nenhum dos dois fica acendendo velas no cemitério tentando conjurar os mortos (aliás, dica: não dá certo, conjurar os mortos sempre dá em merda, se você não sabe disso é porque ainda não viu filmes de zumbi o suficiente). Você pode não gostar do fim ou querê-lo, mas é sempre preciso respeitar a morte quando ela acontece.

Esses dias, alguém que eu gostaria de nunca mais olhar na cara, me chamou pelo apelido que costumava chamar quando a narrativa não era minha, mas nossa. A minha vontade foi perguntar o quão estúpido ele podia ser, mas não o fiz, só fui embora com um gosto amargo. Depois, além da minha raiva, eu queria perguntar o que ele achava que estava fazendo ali? Se ele não sabia que aquela história não era mais dele, aquela, aquilo, era minha narrativa, minha narrativa com as pessoas com as quais eu hoje tenho uma narrativa, afinal relacionamentos são de todos os tipos.

Ser chamada pelo nome que eu tinha em outra história, outro livro, outra vida, me tocou quase como uma violação. Uma violação de cadáver, um desrespeito ao tipo de lugar que é um cemitério. Eu  me senti suja e quis pegar nos ombros dele, sacudir e perguntar “você não sabe que acabou? que essa história acabou e se você quer insistir em aparecer aqui, ok, mas você não tem o direito de me chamar de nada que não seja o meu nome” . Eu não fiz nada disso, eu saí dali, para minha vida, minha história, com o gosto amargo e o desejo que ele pudesse entender que narrativas um dia terminam e ele já não fazia parte, em absoluto, da minha.

Em Praga chovia sem parar

Eu acordo nos domingos de manhã, faço um chá e abro o Post Secret. É sempre a primeira coisa que eu faço, é em parte porque acho o projeto bonito e poético e em parte porque ele me lembra que não sou só eu que lá no fundo sou um monstro de ser humano.

Hoje havia um segredo escrito em uma foto da ponte de Praga. É um cartão postal que pode, muito possivelmente, ser igual algum dos que eu mandei de lá. A ponte empoeirada, sob uma luz amarela claramente artificial, aquele photoshop gritante que gostam de usar em cartões postais para fazerem cidades parecerem mais bonitas e mágicas quando no fundo, já são muito bonitas e mágicas sem esses efeitos horrorosos.

A ponte de Praga, por exemplo, é mais bonita durante a noite. “Talvez seja a cidade mais bonita que eu já estive”, você me disse. Eu não conseguia decidir entre Praga, Budapeste ou Paris (você ainda não tinha chegado em nenhuma dessas, me pergunto qual sua opinião agora), mas acabei concordando porque um relógio astronômico não é algo que se ignore.

Então me irrito porque fazem quase dois meses e não é possível que eu ainda saiba seu nome ou o tom de azul dos seus olhos. Sobre a imagem da ponte, o cartão dizia “uma das coisas mais difíceis da vida é ter palavras no coração que você não pode dizer”, é uma obviedade e uma constante. Se eu fosse mais romântica talvez me permitisse pensar que esse cartão podia ser seu. Mas se eu fosse dessas eu teria me permitido te pedir um email, eu teria te escrito que talvez você seja a pessoa mais interessante que conheci e é claro que isso é fácil quando se está em Praga e chove sem parar e não temos tempo de realmente estabelecer um relacionamento.

Você me diz que, quando te perguntarem de Praga, o que você vai lembrar é que chovia sem parar e você conheceu uma mulher linda. Eu ri, disse que contaria para minhas amigas que conheci um cara e ele me levou para ver a ponte iluminada a noite e muito romântico até a hora que começou a chover e eu acabei pegando uma gripe. “So much for romantism” eu disse e você riu e deu de ombros e pegou minha mão, estava tão pouco dado a romantismos e ilusões quanto eu, talvez menos.

Eu espero que você tenha esquecido na verdade, apesar desse diálogo bonitinho. Eu espero que você não lembre mais meu nome, nem mesmo que era um nome de bailarina, nem do tom de verde dos meus olhos e muito menos que eu usava batom vermelho e vestido florido.

Que não esteja, quase dois meses depois, escrevendo qualquer tipo de carta para alguém que não vai ler. Faço muito isso aqui. Uma vez um amigo meu me disse que nunca tentaria ficar comigo porque não queria acabar post de blog, mas você não sabia disso, que ia acabar post de blog, embora eu tivesse te dito que escrevia. Que escrevia e publicava as coisas, ou mandava para o editor, sem ler de novo mais do que uma única vez para pegar erros muito óbvios, se eu reler muito, se pensar demais, nunca escrevo nada. Você me disse que nunca seria capaz. Eu disse que então cabia a mim um dia escrever um livro, ou fazer um filme, sobre você e te encontrar em uma leitura em Nova York e você gosta dessa ideia, gosta desse filme, diz que vai ficar atento para coisas feitas por jovens brasileiras. Não lembro mais por que você me fez dizer o nome de alguns escritores brasileiros para anotar e eu contei de quando conheci um deles em um bar. “Você é fascinante”, você me diz e eu digo que vou pegar outra cerveja antes que lembre demais do tom dos seus olhos, antes que saiba identificar em que ponto exato de uma escala cromática entre azul e verde eles estão.

Mas eu lembro. E lembro das rugas em volta deles e me intrigo porque nunca te perguntei sua idade e percebo que não conseguiria dizer. A mesma que a minha, talvez? Ou mais, você só parece novo exceto pelas pequenas rugas em volta dos olhos? Às vezes me sinto culpada porque não demos atenção para as pessoas no bar, era minha amiga afinal de contas, mas eu estava tão absorvida por você, não me lembro a última vez que alguém fixou minha atenção desse jeito. Nunca, talvez.

“Você sequer anotou o nome dele?” Não, nem um nome inteiro, nada, absolutamente nada. Eu não sei quantas vezes desejei ser menos prática, menos cínica, menos desesperançada e realista em matéria de relacionamentos. Ou mais. Mais o suficiente para dois meses depois não lembrar de você por causa de um postal. Como se eu não lembrasse dia sim dia não. Como se eu não lembrasse sempre. Mas eu espero de verdade que você tenha esquecido.

Para olhar minhas cicatrizes

Quando você chega em um estúdio para uma tatuagem é, invariavelmente, apresentado a uma ficha de cadastro. Seu nome, rg, endereço. Você tem mais de 18 anos? sim; É diabética? Não; Tabagista? sim; Alcoolatra? hum… não; Tem problemas de coagulação? não; Toma algum medicamento? Anticoncepcional, glifage, frontal eventualmente, quando não consigo dormir, o que é meio que sempre. Segue-se um pequeno parágrafo explicando que as agulhas são esterilizadas, o estabelecimento obedece a normas de segurança e higiene e o tatuador te orientará quanto aos cuidados necessários. Caso você faça algo diferente do que foi orientado, a consequência é por sua própria e risco e então você assina.

O que eles realmente deveriam perguntar é: “você está pronto para que a partir desse momento sua pele passe a ser vista como propriedade pública?”

Eu sou mulher e, portanto, estou bastante acostumada com meu corpo ser item público. Já fui chamada infinitas vezes de gorda, gostosa, baranga, linda, convidada a chupar todinho o cara da esquina. Vou para o ballet de bicicleta duas vezes na semana e já perdi a conta dos comentários envolvendo selim ouvidos enquanto subo a Augusta. Esses anos todos tratada como uma pessoa que não tem direito a recusar o toque ou observação do próprio corpo deveriam ter me preparado para a violência de absolutos desconhecidos pegando em mim em uma fila do aeroporto e perguntando “o que sua tatuagem significa?”, mas não prepararam.

E absoluto desconhecido na fila do aeroporto não foi um exagero. Uma vez eu estava na fila do check-in da Gol, quando um homem de terno tocou no meu ombro, leu a frase estampada nas minhas costas e me perguntou o que ela significava. Em um misto de atordoamento e ultraje eu respondi como quem acorda de um sonho “eu não te conheço” e voltei a me focar no celular. Parece estúpido, parece bobo, por que raios eu não quero explicar para ele o que está escrito nas minhas costas? Mas a verdade é que eu me senti invadida com violência.

Eu tenho seis tatuagens. Duas delas são grandes e coloridas, outra cruza toda a parte de cima das minhas costas. Todas elas tem uma explicação razoavelmente simples: é uma boneca russa, é o mundo, é um verso da Sylvia Plath. Eu não sou daquelas que acha que toda tatuagem tem que ter um significado complexo e uma história sentimental a la Miami Ink, ela pode simplesmente ser algo bonito. O gato no meu pulso é só um gato. Acontece da matryoska no meu braço ser só uma matryoska e ser também uma lembrança de Dostoievski e Tarkovsky e uma parte da minha identidade de certa forma perdida na diáspora judaica. Mas eu não acho que ninguém tem nada a ver com o fato de que eu tenha problemas com minha identificação nacional. Muito menos o ser humano que nunca vi mais gordo em uma fila de ponte aérea no aeroporto de Congonhas.

O mais curioso é que o homem que encontrei quando desci do avião, e que tinha autorização para tirar minha roupa e tocar minhas tatuagens e perguntar sobre elas, nunca o fez. Nenhum homem com quem eu transei nunca perguntou a respeito das minhas tatuagens. E eu teria respondido. Provavelmente, se eu te dei a intimidade para entrar no meu quarto e me ver nua, eu responderei sobre qualquer tatuagem e qualquer cicatriz. Elas são parte daquele contexto, elas são parte de mim e da minha pele e eu gosto particularmente quando alguém beija minhas costas e eu sei que foi por cima do verso inscrito, mesmo que sensorialmente isso não faça diferença nenhuma. Mas todos eles assumiram que minhas marcas eram minhas marcas. Recentemente eu contei espontaneamente, quando já estava quase pegando no sono e após uma longa conversa sobre Sylvia Plath, que aquilo nas minhas costas era um verso de Lady Lazarus. Ele nunca tinha perguntado, embora tivesse olhado para essas palavras por um tempo relativamente longo.

Parece, porque eu escrevo um blog desses, que estou sempre muito disposta a contar a história da minha vida e toda e qualquer mazela para qualquer um que pergunte. É uma tremenda mentira. Pode soar irônico, mas eu sou uma pessoa extremamente reservada e que guarda coisas por muito tempo mesmo da minha melhor amiga. Esse blog é uma exibição nos meus termos, do que eu desejo por para fora, da maneira como eu desejo e, já falei sobre isso aqui, nem tudo é verdade. Há camadas infinitas de ilusionismo e proteção no que é exposto aqui, mesmo que pareça tão cru. Eu não escrevo porque quero que o mundo saiba o que eu passei, eu escrevo por um milhão de motivos e por um milhão motivos minha escrita é essa. Eu tatuo da mesma forma.

Eu não faço tatuagens para quem olha. Eu as faço para mim mesma. Eu já falei aqui mais de uma vez sobre isso. Para tentar ficar mais confortável na minha própria pele, para ressignificar minha própria história, para ser quem eu sou, porque eu quero, pura e simplesmente. Mas parece que quando você estampa algo na pele, algo do lado de fora, aquilo é instantaneamente para o outro, para o espectador. A pele desenhada não pode de jeito nenhum ser sua, ela é pública, senão por que você desenharia nela?

Nas minhas costas diz, em inglês claro e simples, que para olhar minhas cicatrizes há um preço. Eu desconfio que o senhor de terno na fila da ponte aérea falasse inglês, ele era capaz de ler o que estava ali. Por que então ele me pergunta o que ela significa? O que ele espera que eu responda? É um verso de um poema que uma autora que enfiou a cabeça no forno aos 30 anos escreveu sobre as tentativas de suicídio anteriores dela. Significa que se você chegar perto de alguém, perto o suficiente para realmente ver as cicatrizes, isso te muda para sempre, isso vem com um peso, um preço, que relacionamentos e conexões nunca são gratuitos e livres de consequência. Significa que eu venho de um histórico familiar, vamos dizer assim, complicado, que eu não falo com meu pai e minha mãe é completamente louca e a pessoa que eu mais amei no mundo foi embora de mim anos atrás e eu não posso nunca me livrar de tudo isso. Que eu sou extremamente ferida e quebrada e essas feridas estão prontas para abrir e quebrar de novo a qualquer momento. Que eu já me odiei tanto e sofri tanto que quis morrer, quis muito literalmente morrer, quis morrer a ponto de fazer planos na minha cabeça para isso, que eu já apaguei cigarros em mim mesma e fiz pequenos cortes no meu tornozelo de propósito porque quando dói tanto você tem essa esperança burra de que a dor do lado de fora vai fazer passar. E deixaram cicatrizes. E para vê-las há um preço.

Me pergunto qual seria a expressão do homem de terno na fila do check-in se eu tivesse dito tudo isso.