Pj Harvey, eu queria ser você

I was born in the desert
I been down for years
Jesus, come closer
I think my time is near

And I’ve traveled over
Dry earth and floods
Hell and high water
To bring you my love

Houve um tempo em que eu fui muito obcecada com a PJ Harvey. Acho que ela foi um pouco minha transição do punk rock/hardcore para coisas um pouquinho mais elaboradas e um pouco mais leves, o meio do caminho entre Sex Pistols e Fiona Apple. Ela era barulhenta, desesperada, sexy de um jeito cru, violento, e tudo isso, por um bom tempo, me atraiu incontrolavelmente.

Eventualmente a obsessão passou, embora ainda seja das minhas cantoras preferidas, mas algo nela me fascina muito até hoje: a capacidade de expressar tanto desejo, de se colocar inteira ali como ser que quer, desesperadamente.

C’Mon Billy, por exemplo, implora tanto, mas tanto, de uma forma tão absoluta, tão entregue, para que o homem volte. Ou Oh My Lover em que ela vai dizer “you can love me and you can love her at the same time” e Send His Love To Me. São muitas músicas em que tudo que ela quer é alguém de volta.

Me fascina porque eu sou incapaz de chamar um cara para o cinema. Não é timidez, nem falta de traquejo social (embora eu seja sim bem socially awkward), é só absoluta incapacidade de me colocar em um lugar vulnerável, uma fobia irracional de ser aquela que quer e não pode ter, de dar a carta de que me importo.

Se eu me importo, eu sofro.

Vejam bem, eu não demonstrar não quer dizer que eu não queira. Eu não demonstrar não quer dizer que eu não acabe chorando durante todo um jantar no PJ Clarks em que um conhecido estava na mesa ao lado só porque tinha perdido alguém (pelo menos eu reconheço todo o ridículo dessa história, não é mesmo?). Mas no meu cérebro doentio algo diz que se eu não abrir a brecha, se eu não assumir que me importo, então talvez isso não seja de verdade.

O meu maior desejo era conseguir, afinal e realmente, ser fria, gelada, distante. Eu não quero, não me importo, não sinto mais nada.

Tenho falhado terrivelmente nesse objetivo.

E daí eu me encanto com a Pj Harvey que é o oposto disso. As metáforas dela todas tem a ver com fogo, inferno, deserto. Ela rasteja no chão, se contorce de desejo, se expõe inteira e deseja. Eu fico maravilhada com alguém que escreve letras, constrói músicas e canta de um jeito que é todo exposição, todo entrega, como quem arranca a própria pele para se dar para o outro.

E não é que eu não me exponha. Vamos parar um minuto e clicar naquela categoria ali do lado chamada “overshare”. Eu me exponho, muito, mas é diferente. Cada texto aqui que é um overshare enorme ganha ares de metáfora, uma reflexão sobre um assunto qualquer e mais que tudo, eu não peço, eu nunca peço. Nem no simples pedir concreto nem nos textos. Tem muita dor exposta aqui, muita quebra, jamais desejo.

Eu gostaria de conseguir assumir um pouco disso, formalmente eu gostaria dessa visceralidade, dessa coisa carnal, impulsiva, menos limpa, menos poética. Desse exposição que parece mais suja de sangue e ossos, que é atirada na cara daquele que ouço. Eu gostaria que a minha escrita tivesse esse tipo de força. Eu gostaria que ela fosse uma escrita menos do que eu já perdi e mais do que eu ainda quero.

Eu gostaria de ser capaz de assumir tudo que eu ainda quero.

Eu não gosto nenhum pouco na verdade dessa imagem de rainha do gelo. No meu desespero e no meu cansaço eu desejo muitas vezes não sentir mais nada, não querer, não me afetar, mas no fundo eu detesto a ideia.

Parte de mim anda muito cansada de se dizer o tempo todo que sentir é errado, que querer é errado, que eu estou sendo ridícula cada vez que permito me apegar um pouquinho.

(Não que as estatísticas dos tempos recentes não confirmem a ideia de que é ridículo sim)

Uma parte de mim gostaria de parar de pedir desculpas por se envolver. Parte de mim queria ser capaz de ser Pj Harvey dizendo “I can’t belive that live is so complex, when I just wanna sit here and watch you undress”. Simples, simples expressão de que quero sim, sofro sim, não sou essa pedra de gelo que quero tanto parecer ser.

Acho que o que mais me encanta na Pj Harvey não é apenas esse desejo louco e desesperado e a coragem em expressa-lo, mas o como isso, ao mesmo tempo que a torna tão obviamente vulnerável, não faz dela a vítima. O desejo, mesmo não correspondido, é ativo, é dela. Mesmo o sofrimento absurdo por alguém que não está, a confissão de que se faria de tudo para que ele voltasse não há torna ridícula.

Acho que tem algo de trágico ali. Algo de defeito trágico no desejo da Pj Harvey, sabe, como todo herói de tragédia grega tem uma falha que inescapavelmente o destrói. Ela se auto-destrói no tanto que deseja e isso de certa forma a descola do outro. Ela existe sem ele, ela existe em sua dor e vontade e sacrifício. Há uma espécie de força nesse rastejar todo.

Não tenho certeza se o último parágrafo fez algum sentido.

Mas eu admiro, e invejo, a coragem de quem rasteja no chão e se expõe no risco de não ser correspondida. Eu não consigo. Eu recolho bloquinhos de gelo enquanto queria mesmo rastejar em areia do deserto. Rastejamos hoje na aula de dança moderna, achei poucas coisas que já fiz na vida tão sensuais quanto rolar no chão, andar como um gato e sentir o peso do meu corpo estirado, mole, se movimentando de uma forma muito lânguida, nessa ideia de estar toda em contato com uma espécie de terra (chão de tacos de madeira, mas enfim né). Às vezes noto o quanto tenho retirado o calor do meu rosto, o quanto assumo uma beleza de princesa das neves, fria, inatingível. É mais desejável a pessoa que deseja, há uma energia sexual imensa na PJ Harvey que implora, há vida.

Nessa busca por ser inatingível eu mato muita coisa, eu arranco muito do que é vivo em mim.

Não queria, não queria a proteção que vem as custas dessa morte. Não queria essa segurança que é Admirável Mundo Novo, essa ideia de que é melhor ficar mais ou menos bem o tempo todo do que arriscar sofrer. Aquele discurso, “I want laughter, I want real sin” é uma das minhas partes preferidas da literatura.

E nem é como se eu estivesse bem, para começar.

Talvez eu preferisse passar a sofrer de desejo, essa dor que sangra de verdade, sangue quente e vivo, do que pelo que não pode ser e só faz necrosar partes minhas que eu ainda quero.

 

In the suburbs I learned to drive

And show her some beauty
Before all this damage is done

Tenho alguém que me diz que, de todas as coisas que poderiam dizer muito sobre mim, o fato de minhas duas bandas favoritas serem Belle and Sebastian e Nine Inch Nails é a maior delas. Eu dava risada, bagunçava o cabelo dele e disfarçava que eu sabia muito bem o quanto isso era verdade e que ele havia voltado para minha vida no show de uma banda que parecia “Nine Inch Nails meets Belle and Sebastian” só para sair de novo.

Eu sempre pude entender, e explicar, porque Belle and Sebastian. Porque algo que parece fofo, mas é terrivelmente melancólico, as letras sobre tédio, desajuste e sobre saber que no fundo não se morre de amor, há coisas piores, há dores piores. Eu sempre pude ler as letras das músicas e me sentir exatamente como um personagem nelas. É como aquele amor pela pessoa que tem gostos em comum, que você pode explicar o que ama nela, porque se apaixonou.

Nine Inch Nails é diferente. É a banda que eu escolheria se precisasse escolher apenas uma banda favorita, embora existam algumas coisas que eu ouça com mais frequência. Eu não consigo viver de ouvir o The Downward Spiral, nem mesmo o The Fragile o tempo todo, como talvez eu não conseguisse viver com o cara pelo qual eu fui desesperadamente apaixonada, porque tudo era tão envolvente que era tóxico demais.

Mas nesse fim de semana, vendo o show deles de novo, depois de dez anos, algo fez muito sentido. Nine Inch Nails não é minha banda preferida por qualquer motivo articulável ou explicável, mas porque o Trent Reznor transforma em som o barulho dentro da minha cabeça.

Não é algo agradável de se perceber, nem uma resposta que eu estivesse ativamente buscando. Eu só estava ali, no alto de uma colina, ao mesmo tempo feliz e angustiada como nunca (porque se você está apenas feliz em um show do NIN supondo que esteja fazendo errado) em um dos momentos entre as músicas em que tudo era barulho, estranho, esquizofrênico, claustrofóbico, e eu percebi. March of the Pigs é como viver dentro da minha cabeça.

Se não é uma percepção exatamente desejável, há algo muito reconfortante nisso. Há algo de um acolhimento enorme em se perceber que alguém pode fazer algo que traduz perfeitamente a experiência de ser você. Você não está sozinha. Não é assim tão defeituosa, quebrada, incompreensível quanto querem te fazer acreditar que é. Mais do que tudo: você não está sozinha. Sei que repito, mas não sei se conseguirei algum dia expressar o como me sinto quando percebo que não estou sozinha.

E talvez seja esse um dos grandes motivos porque somos tão atraídos pela música, ou pelo menos pelo qual eu sou tão atraída pela música: é um jeito de perceber que não estamos sozinhos.

Eu gostaria muito que a Lorde existisse quando eu tinha dezessete anos. Eu gostaria demais de um álbum que é tanto sobre tédio e matar o tédio em outra pessoa e a sensação de estar esperando para que sua vida aconteça. Eu não tenho dezessete anos há muito tempo, mas ainda há algo nas letras dela que me transporta de volta, que me lembra daquele tédio gigante, onipresente, dominador. Acho que poucas experiências da minha vida foram tão formadoras quanto aquele tédio e eu gostaria muito de não ter estado sozinha.

Tenho pelo The Suburbs o mesmo amor da experiência compartilhada de tédio. Do tédio olhado para trás, anos a frente, quando nos tornamos outras pessoas e declaramos guerra ao passado, aos subúrbios, ao tédio. “They told us we’d never survive” e não sobrevivemos mesmo. Nem juntos, nem separados.

No show o Win Butler disse que The Suburbs, e possivelmente todas as músicas deles, são sobre saudades. Entendo, sempre achei que eram mesmo, sempre senti essa saudades agridoce de algo que não foi bom, mas que hoje por qualquer motivo há saudades. Tenho saudades dele, tenho saudades do vento no meu cabelo quando descia ladeiras de bicicleta, tenho saudades do sol de fim de tarde na beira da piscina em verões infinitos. Mais que tudo tenho saudades de quando eu ainda achava que as coisas poderiam fazer sentido.

Ouvir The Suburbs, poder não ter limites ao gritar “when the first bombs fell we were already bored” foi uma das melhores experiências da minha vida. Ao contrário da noite anterior, no show do Arcade Fire eu estava apenas feliz, porque não era como um mergulho no ruído do meu cérebro, mas como um abraço de alguém que por dez anos vem cantando essa coisa extremamente amarga e linda e doce e sofrida que foi virar adulta. Em mais dias do que eu gostaria eu penso que deveria tatuar “businessmen drink my blood like the kids in art school said they would” na minha testa, só pra não esquecer do quanto é verdadeiro.

Eu não acho que algum dia, nesses 25 anos, estive tão feliz quanto naquela uma hora e meia. Não acho mesmo. Não acho que estive tão em paz, não acho que realmente já tinha parado de desejar estar na Índia, na Tailândia, em Roma. Ontem a noite, nenhum lugar do mundo era melhor do que a plateia do Arcade Fire. Nesse fim de semana, nenhum lugar foi melhor do que aqueles palcos. Em nenhum outro lugar eu veria o Trent Reznor, ou daria pulinhos felizes em um gramado ensolarado cercada de gente amada. Em nenhum outro lugar eu teria vontade de chorar da pura felicidade daquelas músicas.

Eu não conseguiria, e nem quero, explicar porque nunca na vida fui tão feliz quanto ali. Eu não conseguiria explicar porque eu percebi que NIN é como o som na minha cabeça. Quando eu saí do Nine Inch Nails eu me sentia tão realizada que fiquei por algum tempo pensando se haveria um texto enorme ou se eu simplesmente não diria nada. Acabei optando por um texto só, para tudo, para todo o fim de semana, pelo meu coração partido em Hurt e o sorriso que eu não conseguia conter em Wake Up.

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No limite das coisas

Um dos comentaristas do Bergman que eu li dizia que, no início de O Sétimo Selo nós estávamos claramente no limite de algo enorme. A divisão clara entre céu e mar, a fotografia contrastada e a narração afirmando que o sétimo selo havia sido aberto.

Não me interessa muito falar de Bergman aqui, agora, mas gosto da expressão que o autor usa “we’re on the very edge of things”. Gosto dessa palavra, “edge”, nunca consegui traduzir de uma forma apropriada. Limite, ponta, beirada. Como quem se debruça no precipício e olha o que tem lá embaixo.

É uma sensação muito estranha essa de estar na beirada das coisas.

Estranha de um jeito bom, eu diria, acho. Mas honestamente não sei, não tenho certeza.

Eu entreguei a dissertação. Eu escrevi 90 páginas sobre um assunto e agora estou aqui esperando virar mestra. Eu não fiquei especialmente feliz de me formar. Aliviada, sim. Feliz de mudar de ares, mudar de vida. Mas só. Eu nunca duvidei que conseguiria, eu não fiz nada do qual me orgulhasse profundamente para me formar. Foi difícil, mas não sugou cada pensamento original que havia dentro de mim.

Fazer um mestrado foi diferente. Eu duvidei muitas vezes. Mais vezes do que o contrário, eu achei que não seria capaz. É uma constância que eu não tenho, um senso de responsabilidade que me falta e articular meu conhecimento em algo vagamente inédito. É criar uma coisa. Se você lê esse blog há pelo menos dois posts sabe o quanto eu não me sinto em nada segura das coisas que podem sair de dentro de mim.

Mas algo saiu e eu entreguei. Nunca estive na beira de algo assim. Não fiquei especialmente feliz quando passei no vestibular, quando formei, quando entrei no mestrado. Nada disso requeria algo que eu me sentia tão insegura de fazer. Mas ter sobrevivido a minha própria formação enquanto “intelectual”, ter escrito 90 páginas que não saíram de outro lugar além da minha cabeça, foi me levar mais longe do que achei que poderia.

Eu deveria ter pensado nisso antes. Eu deveria saber disso antes. Se eu soubesse, acho que não teria começado. Se eu tivesse imaginado o quanto isso me custaria emocionalmente talvez eu tivesse optado por outro caminho. Outro tema ao menos. Um que não fosse tão meu. Não consigo decidir se foi bom que eu não sabia.

A filosofia barata diria “mas que ótimo que você não sabia, foi e fez algo que achou que não seria capaz, mas conseguiu”. Mas há um preço. Eu não gosto nunca de esquecer o preço das coisas. Eu certamente consegui, eu certamente escrevi 90 páginas e defenderei essa coisa e vou virar mestre. E algumas pessoas me verão na noite desse dia e nunca, na vida delas, terão me visto assim. Mas do lado de dentro eu tenho um campo de batalha.

Eu conheço alguém que foi a guerra. E minha impressão foi a de que ele nunca voltou, embora te diria que não se arrepende. Não se arrepende, mas não voltou. Eu não me arrependo de tudo que tive que matar para conseguir lidar com isso, mas eu não voltei também. Ainda não.

Tenho dito que me sinto completamente vazia e não sei se consegui ser entendida. Não sobrou nada dentro de mim. Nenhuma capacidade de pensar, nenhuma palavra, nenhuma força para lidar com coisas que eu não consigo lidar. Mal sobrou capacidade de estar contente, embora eu me sinta na beirada de estar.

Matei o lado de dentro fisicamente também. Tusso, minhas costas doem, meu estômago dói, eu passo 70% do tempo achando que vou vomitar. Por duas semanas eu dormi menos de 4 horas por noite e me alimentei basicamente de café, torradas e marlboro light. Eu não poderia ter feito de outro jeito. Eu não poderia ter ignorado as vozes na minha cabeça se estivesse menos no limite, eu não poderia parar de me dizer que cada palavra escrita era uma bobagem se eu não estivesse operando em um corpo desesperado para que aquilo acabasse. Me pergunto quantos anos de terapia são necessários para que eu desenvolva uma relação ao menos minimamente saudável com o meu corpo. É bem provável que o câncer de pulmão venha antes.

Mas a questão de estar no limite das coisas é que, conseguindo ou não, você precisa avançar. Por mais vazia que eu esteja por dentro, acabou. Acabou e a vida agora é outra. Mas eu estou tão vazia que preciso ir embora antes que a vida seja outra. E estou na beirada disso também.

Na beirada de ir não sei para onde, não sei de que jeito. Me recuso a fazer roteiros, me recuso a ter planos. Me recuso a ouvir qualquer palavra contrária. Eu não posso explicar que não posso continuar sem isso.

Eu virei outra pessoa nesses dois anos. Nessas duas semanas de forma ainda mais radical, eu virei outra pessoa. Eu matei algo, algo que eu precisava matar há muito tempo, mas como todas as grandes mortes ela não veio de graça. Eu não poderia escrever um livro duas semanas atrás, eu posso agora. Eu não poderia entender a melhora que as minhas críticas tiveram no último ano, eu posso agora.  Mas o custo foi enorme e eu estou exausta. Exausta, crua, cheia de marcas que vocês não podem ver.

Eu me pergunto qual o sentido de textos tão overshare. Quem se importa com o que passa dentro da minha cabeça assim. Gosto mais dos pequenos ensaios, das reflexões sobre perguntas que, imagino, passam pela cabeça de outros. Mas esse eu entendo. Nos últimos dois anos me foi perguntado várias vezes o que eu estava fazendo, por que eu precisava de tanto tempo, o que, afinal era tão difícil. Por que eu precisei deixar tão pra depois, por que duas semanas tão infernais?

Porque sim. Porque eu gostaria de ser um ser humano mais funcional, mas não sou. Não sei se minha resposta é inteligível, mas alguma hora eu precisava responder.

 

Na minha pele

Quantas vezes seguidas eu posso ouvir Lost Cause? Quantos dias eu posso passar sem ler uma única página de literatura? Quantas semanas sem ver um filme? Quanto tempo encarando sem parar páginas que eu mesma escrevi?

Eu tenho dito que é muito difícil escrever um mestrado. Que é mentalmente exaustivo e que me dá um medo enorme isso de elaborar algo que saiu da minha própria cabeça. Eu não confio na minha cabeça, sabem? Então de vez em quando eu paro para assistir Girls, porque preciso de meia hora de ar. E aí a mãe da Hannah me solta sobre o Adam: “he’s unconfortable in his own skin”.

Eu fecho o computador correndo, escorrego pro chão outra vez e fico ali, muito quieta, por muitos minutos, esperando para ver se essa frase vai embora. Ela não vai. Desconfortável na própria pele. Como algo que não cabe, não entra, como se a camada que cobrisse o que eu tenho por dentro fosse fina demais para realmente esconder e o medo gigantesco de que ela se torne transparente.

Eu sempre tive essa impressão de uma espécie de monstro escondido em 1,57, olhos verdes e rosto de boneca. Eu já lamentei muito ter rosto de boneca. Não porque não goste dele, mas porque acho injusto que a gente acabe com um rosto tão pouco representativo do que acontece do lado de dentro, acho tão injusto que “my pretty mouth will frame the phrases that will disprove your faith in men”.

Mas a gente acaba sendo quem é e tendo o rosto que a vida, e a genética, resolveram que teríamos. Eu tenho certeza que tenho menos rosto de boneca hoje do que aos 15, agora que eu já achei que ia morrer de sofrimento, que já passei mal no elevador dos outros, que já decidi que não me importo muito em ser gentil com meu corpo. Talvez envelhecer seja um pouco isso, talvez a gente vá passando por processos de fazer encontrar o de dentro e o de fora.

E nesses processos, em uma tentativa de se sentir melhor na própria pele, eu desenhei nela.

Lembro de quando fui assistir Alabama Monroe e pensei que nunca tinha me sentido tão sexy por ter tatuagens. Ou nunca tinha achado alguém tão sexy por ter tatuagens. Eu gosto muito de como a câmera do filme passeia pelo corpo dela, pelas imagens, da luz amarelada e bem difusa que eles usam nesses momentos. Gosto de como a narrativa constrói a personagem mostrando o quão disposta ela é a vestir a própria vida na pele e ao mesmo tempo a consciência  de que a vida muda, as coisas passam, não é por isso que os desenhos não podem ficar.

Até pouco tempo atrás eu não era das pessoas visivelmente tatuadas. Eu contava 4, mas não acho que seria aquelas meninas que alguém diz no bar: “ah, o banheiro é a porta do lado daquela garota tatuada”. Hoje em dia acho que sou. E de certa forma, conforme eu desenho nela, minha pele se torna mais confortável para mim.

Quanto mais eu visto nela o que me dói, as frases de alguém que enfiou a cabeça no forno aos 30 anos, a minha inquietude extrema e alguma delicadeza, mas ela me parece casar, cobrir o que eu quero que cubra, se adaptar. Aos poucos, eu vou cabendo na minha própria pele, embora ela ainda me seja bastante desconfortável.

Às vezes eu gostaria que o Universo pudesse ser apenas um pouco menos cruel. Veja, não precisa ser legal, podia ser só indiferente. Podia só não me enfiar em uma situação em que não ficar louca dependeria de estar um pouco mais confortável com quem eu sou, que eu não precisasse lidar o tempo todo com o fato de que algo aqui não está certo e eu não consigo esconder, não consigo iludir uma outra pessoa de que está.

Não precisa mandar amor da vida, já disse aqui que nem quero, só não precisava me mandar direto para a cama de alguém que alimenta o animalzinho que eu tenho do lado de dentro. Só não precisava levantar o espelho em que eu vejo minha pele sem desenhos, sem remendos, transparente, com tudo que eu quero esconder e não posso, com tudo que é monstruoso e terrível e mora do lado de dentro.

Não precisava.

Mas eu não quero ficar louca. Não sei bem quando foi que eu tomei essa decisão, mas tenho a impressão de tê-la tomado em algum ponto da vida. Deve ter sido quando eu cheguei muito perto de perder quem eu sou e decidi que não quero.

Hoje em dia eu pareço sufocar. Não é escrever um mestrado. Não é ter que elaborar algo dentro de um cérebro no qual eu não confio. Não é ele também. Eu não sei o que é, mas a metáfora da redoma de vidro parece apropriadíssima. Você vê o lado de fora, mas não pode chegar lá e o ar do lado de dentro é viciado, antigo, sufocante.

Você se esforça tanto para viver dentro da própria pele que acaba presa dentro dela, mas não é confortável. E você recebe todo dia o tapa na cara de que, de fato, não é agradável olhar para o que é possível ver através da sua pele. Então eu sigo desenhando nela, não porque desenhos tornem qualquer coisa mais opaca, mas porque no processo de fazer isso, como no processo de escrever, eu tenho a chance de achar beleza no que coloco para fora.

Também minha escrita vem de tudo isso que eu acho monstruoso, mas é uma chance de me apropriar, de domar, de olhar bem no rosto de um lobo e ver que no fundo ele é um animal bastante bonito e aprender a lidar com aquilo.

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Como voltar pra casa

Um dos maiores clichês da humanidade é aquele que diz que home is where your heart is. Ou home is wherever I’m with you, que no fundo é a mesma coisa. Eu sempre defendo que clichês são clichês porque alguma coisa neles é real, fácil e óbvio, mas real, e acho que há muito de real nesse, especificamente.

Lar não é onde você está, é onde, de alguma forma, seu coração fica em paz. Mas eu me pergunto como vocês sabem onde deixaram o coração?

Por muito tempo eu achei que meu lar fosse uma pessoa. Ele havia sido levado para longe, muito longe, e se perdido quando aquela pessoa se tornou outra, alguém que eu não conheço mais. Mas nesse caso, eu não teria recebido meu lar, e meu coração, de volta?

Estou buscando há mais de um ano o guichê de reclamação para corações extraviados.

Eu gosto da ideia de que lar é onde ficou algum tipo de afeto, algum tipo de amor, mas eu sou tão esquecida, tão desorganizada, que nunca me lembro onde deixei as coisas importantes. E será possível que, quando a pessoa capaz de te dar alguma paz se torna outra pessoa, ela leve consigo esse afeto para algum tipo de limbo? Para sempre seu lar vai ser um fantasma de alguém? Uma pessoa que morreu, embora ainda esteja bem viva andando por aí?

Passei por muita coisa nessa vida, mas acho que isso de descobrir que alguém não existe mais, embora exista, vai ser para sempre o mais cruel que o Universo pode fazer comigo.

É como se eu tivesse entrado em uma avião, mas na última hora mudaram o destino e o número do voo, mas a minha mala ainda foi enviada para aquele primeiro voo, que já não existe mais e ninguém pode localiza-la. Porque ela não se extraviou, ela está em algum lugar, esse lugar só não existe mais.

Triângulo das bermudas afetivo.

Mas talvez não seja assim. Talvez eu realmente tenha recebido de volta tudo aquilo que deixei com alguém que já não existe. Talvez meu lar não estivesse com ele, para começar, eu só gostaria que estivesse porque parecia bonito, romântico, reconfortante. Clichê. Verdadeiro e fácil, mas mais fácil do que verdadeiro.

Não é a primeira vez que falo sobre isso aqui. Tenho um texto sobre fazer lar nas pessoas de quando estava na Turquia. Penso muito nessas coisas quando viajo pelo motivo óbvio de estar fora de casa, mas, principalmente, porque nunca sinto falta de casa. Casa sendo, como uma amiga minha já disse, sua vida, não necessariamente o espaço físico. Eu não sinto e há poucas sensações que invejo como essa.

Imagino a maravilha que deve ser deixar sua mala no chão, olhar em volta e amar todas as coisas que são sua vida, a sensação de continuidade e estabilidade. Já vi muita gente voltar para casa e vi o quanto deveria ser gostoso. Eu sempre quero sentar no chão e chorar porque não quero estar aqui. Toda volta de viagem me garante dias de inferno porque eu estou de volta a um lugar que não quero estar, a uma vida que não quero ter.

Mas o problema é: onde está o lugar em que eu quero estar? Qual é a vida que eu quero ter?

Sinto falta das pessoas. Acho que algumas pessoas são o mais perto que chego dessa sensação de pertencer, de estar em paz, de que ali é exatamente onde eu gostaria de estar. Estranho muito cada vez que cuidam de mim, sou capaz de perguntar “por que raios você se importa?” simplesmente porque um cara me diz pra pisar na parte larga da escada, senão vou acabar caindo. Acho que as pessoas que eu chamaria de lar são aquelas por quem eu consigo segurar o instinto de gatinho selvagem e não morder quando me dão um prato de leite. Ou um copo de bebida, que seja.

Eu posso ficar ali, com essas pessoas, por um bom tempo, mas há uma certa sensação de paz que não existe. Eu senti algumas vezes que estava exatamente onde queria estar, mas é sempre passageiro, é sempre um segundo, o segundo em que eu olho pela janela e vejo campos de cana no interior de Cuba e puf, passou, foi embora, perdi. Eu queria que essa sensação ficasse.

Não sei se ela pode ficar. Talvez não possa, talvez não para mim. E volto a me perguntar como vocês sabem onde deixaram o coração. Porque eu não sei.

Semana passada, quando desci do metro e saí na rua em Madri pela primeira vez, eu estranhei o quanto não estranhava. Eu estranhei o quanto havia perdido aquela sensação de estranhamento, de novo, de deslocamento que sentia cada vez que pisava em uma cidade nova. Nunca havia visto Madri, como nunca havia visto Córdoba, ou Sevilha, ou Granada, mas todas elas me pareceram perfeitamente familiar. Assim que emergi do metrô em Madri, eu me senti em casa.

Mas casa não pode ser todos os lugares do mundo em que ainda não estive. Por mais que eu goste muito do Henry Miller dizendo que o lar dele é o mundo, o mundo todo, não pode ser. Não pode ser porque eu gostaria que lar fosse um lugar capaz de frear minha inquietude, eu gostaria tanto de não contar os dias para ir de novo, de não estar tão desesperada para ir embora que faço planos de tocar violino em praças da Europa (nem sei tocar violino), eu queria tanto, mas tanto, chegar em algum lugar e não querer ir embora.

Mas eu estou, cansada daqui, sufocada, desesperada para ir embora. E eu vou, porque não tenho escolha, exceto enlouquecer e prefiro realmente não ficar louca.

Mas eu gostaria mesmo de saber para onde a companhia aérea mandou meu coração. Onde foi parar esse maldito voo que não existe e onde, afinal, é lar.

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Toda solidão em um quadro do Hopper

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Me voy, mais uma vez

Eu gosto muito de ir, mas às vezes me pergunto se faz diferença o lugar em que vou chegar.

Estou indo hoje à noite, de novo, um mês e meio depois de ter voltado. Não é que não queira ir para onde vou, não é que a Andaluzia não pareça linda e eu não queira ver Guernica, mas acho que nunca estive tão ansiosa para uma viagem e não faz sentido.

Sei que nem sempre é preciso encher a cara no topo de um cortiço, se jogar do barranco ou trepar com um turco no alto de uma colina para que uma viagem seja boa. Sei disso. Mas ajuda.

Sei que o mundo é lindo em si, independente das merdas em que eu me meto. Sei também que me meto em merdas quando estou perto de casa. Me pergunto se faz tanta diferença para onde estou indo ou só a desculpa para sair. E parar.

Talvez eu esteja ansiosa para parar. Para não voltar com infinitas histórias aleatórias. Para só caminhar por museus, ver palácios e beber sangria. Para que a vida adote um ritmo mais lento, mais pausado, para que eu possa respirar.

Uma das coisas que mais gosto quando viajo é o como o tempo passa mais devagar. Eu não vejo as semanas passarem quando estou aqui, abro o olho e já é quinta feira, mas longe de casa as horas se alongam, se preenchem. É quase como roubar tempo e eu adoro a ideia de roubar tempo.

Eu preciso parar. Desligar as coisas. Eu me recuso muito a admitir, mas eu tenho certos limites. As vezes eu canso.

Nunca quis tanto estar longe de um lugar como agora. Nunca quis tanto sair de São Paulo como agora. 8 anos depois, já deu, já não serve, não caibo, não quero. Preciso largar muitas coisas que nunca vou largar enquanto continuar aqui.

Tenho enormes dificuldades com pausas. Tenho enorme dificuldades com abrir mão de alguma coisa. Sempre quero o que não posso ter, sempre quero estar onde não estou. Mas quando estou longe só posso estar onde estou, só posso ficar ali.

Eu preciso parar. Eu preciso ser só eu e quadros e cadernos. Então estou indo, dessa vez ainda no maravilhoso mundo do capitalismo portanto comunicável e possivelmente com textos no blog. Vejo minha vida de novo depois do carnaval.

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