Sobre desamor e corações partidos

Love is the ultimate outlaw. It just won’t adhere to any rules.

Eu notei esses dias o fenômeno mais interessante da minha vida e que resolvi chamar de: como eu só me apaixonei uma vez, mas tenho perpetuamente um coração partido.

Eu efetivamente só me apaixonei uma vez. Ok, talvez duas. Nas duas eu perdi antes de ter de verdade, eu tive, mas não foi meu e acabou antes de criar qualquer tipo de raízes. É simbólico, sintomático e uma provável consequência natural de quem eu sou e quem eles eram. Ainda assim, parece que eu tenho um coração mais partido que o da Taylow Swift.

Eu não me apaixono, mas eu espero. Talvez isso seja a coisa mais egoísta que eu já tenha dito em público, mas eu espero que algo em mim vá fazer alguém ficar.

Eu não quero que alguém fique pelos cachos no meu cabelo, pelos meus olhos verdes-quase-cinzas, porque eu gosto das mesmas coisas que ele, porque eu sou doce, ou divertida. Como qualquer artista/aspirante a artista/metido a artista, eu quero que alguém fique porque eu tenho talento.

Eu quero que alguém fique pela precisão com que eu posso tocar a Sonata ao Luar, pelo meu senso de humor, pela minha capacidade de escrever coisas bonitas no papel. O problema é: eu não acredito em nenhuma dessas capacidades. Então no fundo meu coração não se parte porque eu me apaixono, mas porque eu não causo fascínio suficiente em alguém para que essa pessoa fique. Eu disse que seriam as coisas mais egoístas que eu já confessei.

E no fundo não tem a ver com a pessoa que vai, tem a ver comigo mesma esperando algum tipo de confirmação sobre o que eu faço. Uma confirmação diferente daquela que me faz concordar que eu possa ser uma boa crítica, é uma confirmação de que o que eu faço toca alguém, move alguém o suficiente para que ele confunda o que foi feito com quem o fez e queira ficar.

Eu vivo com o eterno coração partido de não ter sido suficiente para que alguém ficasse, por não ter sido melhor do que a próxima, mais engraçada, mais talentosa, mais especial. Eu vivo com o eterno coração partido de saber que eu não sou especial para ninguém (eu queria completar com ninguém é, mas talvez alguém seja).

A gente acha que querer ser artista nos faz especial, não faz, talvez, quando muito, faça insuportável. E um belo dia, na curva da esquina, vai haver a menina que realmente é e você perde para ela e a perda, por mais que eu nem o quisesse tanto assim, por mais que isso não tenha a ver com ele, tem o gosto amargo de não ser boa suficiente. Nunca.

Eu nunca entendi porque você veio, eu nunca vou entender porque você começou a ir embora. Porque um dia você esteve encantado comigo e de repente já não estava. Eu nunca vou saber o que deveria ter feito para você ficar.

Who knows how to make love stay?

Que eu cansei da minha fuga

As pessoas viajam por mil motivos. Para ver lugares, para conhecer o mundo, para terem experiências espirituais, para se encontrarem.

Eu fujo.

Cada vez que eu entro em um avião, um ônibus, um carro, tudo fica onde eu estava. Cada vez que eu durmo em um quarto de hotel ele é minha casa, minha bolha, as quatro paredes dentro das quais eu concentro minha existência nesses poucos dias.

Essa sensação já me fez ter um pequeno romance em um quarto de hotel que eu tentei levar pra fora, mas desde o início sabia que não daria certo, que ele só existia na medida em que nós dois estivessemos fora do tempo e do espaço normalmente habitado. Das coisas que podiam ter sido e não foram.

Eu já fiz malas de impulso pro Rio de Janeiro porque é pra onde é fácil fugir. Eu já me internei lá por duas semanas porque continuava sem querer voltar pra minha própria vida. Hoje eu começo a desconfiar que estraguei o melhor esconderijo que eu tinha (mas isso é assunto pra outro post).

O assunto desse post é que eu fui pra Paris. Eu sabia que ia, mas ainda assim fui fugida. Com um plano de fuga bem elaborado e um mapa do tesouro, mas fugindo, como sempre. Então eu cheguei lá e não tinha mais cara de fuga.

Paris teve cara de casa, de uma forma como São Paulo nunca teve. E não é porque é Paris, porque é fácil se sentir em casa em um lugar como Paris. Não é. Pra mim nunca é e eu já fui a uma boa quantidade de lugares maravilhosos.

Paris não teve cara de casa pelo Pompidou (que é um dos meus lugares preferidos do mundo), teve cara de casa pelo supermercado, o metrô, o cheiro do vento, a humidade do ar. É uma sensação nos meus ossos que não achei que fosse ter, que eu não achei que fosse para mim. Uma sensação de caber no cenário, de respirar no ritmo certo, do sol bater do jeito exato para minha cor de cabelo. É estúpido, é clichê, é poético do jeito que eu menos gosto de ser poética, mas também é verdade.

Eu sei que vou chegar lá e querer fugir. Eu sei, eu me conheço. Eu sei que tudo que eu tenho feito nessa vida é tentar ignorar o que eu sei: que eu perdi a pessoa que me fazia sentir em casa, que casa era onde eu estaria com ele e eu perdi. Perdi porque ele não existe mais.

Mas talvez, só talvez, eu não queira. Talvez eu tenha a mesma sensação que eu tive nesses dez dias, de que minhas partes encaixam ali, que eu me fundo como o resto exatamente como quando você acerta no quebra-cabeça.

Eu não sou otimista e essa esperança é muito leve, ainda assim, estou planejando a rota pra casa.

 

IMG_7228

(esse blog tem bons textos, esse definitivamente não é um deles, mas blog pessoal serve pra chorume de vez em quando então tá aí)

Go with the flow

Faz quase um mês que eu deveria ter escrito esse post. Ao menos, faz quase um mês que ele existe na minha cabeça. Mas talvez toda essa demora, o fato de que um mês depois ele continue existindo em mim mais ou menos da mesma maneira seja evidência do que quero dizer com ele.

Há coisas que nos fazem. Coisas que tornam a gente quem a gente é. Eu sempre fui um pouco fascinada, e bastante assombrada, pela ideia de que eu poderia ser completamente outra pessoa se algumas coisas tivessem acontecido diferentes. Eu pulei um ano na escola, poderia ter decidido não pular, aquela menina que foi minha melhor amiga poderia ter entrado em outra escola, eu poderia não ter passado um verão inteiro com gesso no braço, meus pais poderiam ter trepado em um outro dia, meus avós poderiam não ter conseguido sair da Polônia.

Mas há outro tipo de coisa. Aquelas que de alguma forma nós somos capazes de reconhecer como blocos, tijolos de quem somos. Eu consigo apontar algumas pessoas, uma pessoa em especial, que eu sei dizer o quanto me fez, o quando ainda corre nas minhas veias e o quanto por mais que eu tenha deixado para trás eu nunca deixei.

E quase um mês atrás, no meio do show do Queens of the Stone Age eu tive a sensação das coisas quem me fizeram quem eu sou. No meio de três dias em que eu usei vestidinhos estampados de coração com all star sujo de lama, aliás, no meio de três dias em que o que eu mais fiz foi enfiar o pé na lama eu quis voltar 8, 9, 10 anos e contar para o eu do passado que um dia ela estaria exatamente onde queria estar.

No One Knows foi a primeira música que eu aprendi a tocar no baixo. Baixo que eu escolhi porque era preciso ser hipster antes do termo até na escolha de instrumento. Foi a música que eu vi alguém tocar na bateria enquanto eu deitava em um sofá que eu não deveria deitar e perdia os tênis entre as coisas de uma outra menina. E perder os tênis entre as coisas de outra menina, não poder ser a menina que deixa as coisas ao lado da bateria, também me fez quem eu sou.

Há coisas que se pode perder. E eu fiz um longo e dolorido experimento de descobrir, do pior jeito possível, tudo aquilo que eu não posso perder, porque são parte da estrutura, dos ossos, do esqueleto de quem eu sou. A música, algumas músicas, são parte disso.

A música que me lembra que um dia eu pintei o cabelo de rosa na pia e quis mudar o mundo. E eu falo tanto nisso, tanto nessa menina que eu fui porque ela me assombra ainda hoje, porque ela vive como a pior juíza das escolhas que eu faço quanto adulta. Porque ela é parte do que me faz quem eu sou.

Parece irônico que hoje eu me sinta em paz com minhas escolhas sabendo que uma menina de 16 anos de cabelos rosa e unhas pretas aprovaria. Mas ela sabia, ela sabia de tudo que eu ia ter que aprender a lidar porque não queria abandonar, porque ela não queria, não quer morrer.

Há coisas que nos fazem quem somos. Enfiar o pé na lama enquanto uma banda me lembra da pequena tormenta que eu sempre fui certamente é uma delas.

Anytime you became the girl that you wanted to be
Oh I told you all along there was no point looking to me

Gatinhos, `as vezes, são algo realmente triste

Ontem à noite eu perdi um gatinho. Ontem a noite porque esse post é programado, no caso eu estou escrevendo enquanto perdi o gatinho. E talvez, talvez, eu nem o tenha perdido. Talvez ele ainda esteja zanzando pela minha garagem e essa história tenha um final feliz. Mas eu não acredito realmente em finais felizes.

Eu estava saindo do alemão, fui pegar o carro no estacionamento e uma coisa pequenininha, branca e querida veio se enroscar na minha perna. “Ele tá procurando uma dona”, o moço me disse. Por um minuto eu pensei que não devia, que eu não sabia se ele tinha alguma doença, se ia acabar brigando com a Cléo, se, se, se. Mas eu não sou o tipo de pessoa capaz de deixar um filho de gato para trás, simplesmente não sou. Da mesma forma que eu demorei tanto tempo para desistir de alguém que precisava de mim, mas não me deixava chegar perto. E me dói até hoje se eu penso por muito tempo no que queria ter dado a essa pessoa.

Ele entrou no carro, mal miou, mas na hora de sair entrou de baixo de um carro. Pus comida, leite, água, esperei, esperei, ele veio, comeu, quase me deixou colocar a mão nele e outro carro chegou. Assustou com o barulho e sumiu. Engraçado, podia mesmo parecer a descrição de alguns dos meus relacionamentos.

O que dói em tudo isso é que eu me apeguei ao gatinho. Antes de chegar em casa ele já tinha nome: Gatsby, se fosse macho, porque é o nome que há anos eu sei que seria do meu próximo gato, ou Margarida, se fosse menina, porque afinal eu estava saindo do Goethe. Quem lê isso até pensa que eu sou aquela menina que você sorri e ela acha que você é o amor da sua vida. Não sou. Às vezes até queria ser.

Eu demoro a me apegar. Eu demoro pra deixar chegar perto. E eu fujo se fazem um movimento brusco, se tentam me segurar e eu não esperava. Eu me entendo com os gatos: é um carinho infinito, um amor enorme e intuitivo, que sempre vai saber quando você precisa de uma lambida, ou de um afago, mas você precisa esperar que eles venham até o seu colo. Talvez porque eu seja tão arisca, tão arredia em tudo, dói quando eu me apego a algo que vai embora.

Eu perdi dois gatos já, um para a velhice, a outra pro acaso, que é o nome que gente bem educada dá pra destino. E eu perdi esse gatinho que já era meu, de olhinhos azuis tão expressivos. Eu sempre reparo nos olhos dos gatos, a coisa que eu mais gosto na Cléo, minha gata já estabelecida, é que ela tem os olhos da exata cor dos meus, que tem uma cor um pouco esquisita.

Dói a sensação de que ele é tão pequeno e eu não soube cuidar. Assim como eu não sei cuidar de todas essas coisas que escapam fácil. Mas dói que eu queria, que ele me seguiu até o carro, me olhou como quem quer ser levado embora, mas não soube ficar. Dói mais do que quando um ser humano fez exatamente isso comigo, dói mais do que quando eu fiz com seres humanos.

É curiosa a tristeza das coisas tristes. Objetivamente, concretamente tristes. Esse blog foi muito feito da minha melancolia, disso que corre nas minhas veias e me faz ter um pé do outro lado e de alguns momentos em que eu achei que não convinha contar de onde vinha a concretude da tristeza. Mas perder um gatinho é algo triste, não importa quantas vezes aconteça e não importa que ele foi meu por meia hora.

Ele foi meu. E me faz sentir a dor das coisas que foram embora antes que eu deixasse de querer que elas ficassem.

Sobre Ulysses, iogurte e o quanto isso não importa

Um tempo atrás, a essa altura já não sei se há algumas semanas ou alguns meses, eu sai com uma amiga e também não lembro porque eu comecei a dizer “porque aí, eu estou lá comprando iogurte grego e de repente eu percebo que parei no meio do supermercado, estou segurando um potinho azul e contemplando a existência de um jeito que parece fucking Ulysses na minha cabeça” (na época eu estava lendo Ulysses, que eu acabei faz um tempo e gostaria de poder marcar um ponto na coluna “ser humano adulto completo”, mas sei que não, não faz diferença).

E meu deus, poucas coisas que eu já disse foram tão verdadeiras quanto essa frase.

Estou eu fazendo qualquer coisa cotidiana, prática e necessária da vida e pah, de repente eu paro e sou completamente incapaz de continuar me comportando como ser humano normal pelos próximos dez minutos. Eu estou lá, sendo razoalvemente pragmática e responsável, comprando iogurte e coisas cozinhaveis em vez de miojo e bolacha e de repente eu me pego pensando que biscoito é uma palavra muito mais instintiva para mim, mas eu meio que insisto em falar bolacha por puro e simples hábito de birra desenvolvido ao longo dos anos para irritar minha mãe carioca. No que eu obviamente começo a pensar nesse meu hábito de fazer birra com as coisas e, por exemplo, ter a necessidade insuportável de responder com “não, sou um holograma” (ou outra resposta engraçadinha do tipo) cada vez que alguém pergunta “já chegou?”.

E aí eu estou contemplando toda minha estrutura psíquica/emocional/atômica/subatômica no corredor do supermercado. Ou no ponto de ônibus. No caixa eletrônico. Na fila do pão.

A Dindi tem um texto maravilhoso sobre essa nossa mania de achar que somos só nós que fazemos uma determinada coisa. Obviamente, embora meu ego queira achar o contrário, eu não sou a única pessoa que se vê contemplando as escolhas da vida enquanto tenta simplesmente viver. E eu não sou a única pessoa do mundo com tanta dificuldade de ser pragmática, prova é que eu não sou a única com um diploma em cinema e um mestrado em ciências da religião (quero adicionar habilidades em sueco e russo, mas está um pouco difícil a prática da coisa).

Então não sou só eu que quando tem que realizar uma tarefa simples da vida cotidiana se vê paralizada pela cotidianeidade (não me importa se não existe) da vida. Joyce foi lá e escreveu 1100 páginas sobre isso, 1100 páginas herméticas e maravilhosas. Então não, não sou só eu.

Mas é uma sensação de uma solidão brutal, essa de se sentir paralizada pelo fato da vida ser só vida. É desolador esse momento que você se vê escolhendo um iogurte em detrimento de outro e pensa “é só isso?” Sim, Isadora, é só isso. E você não é James Joyce.

 

Lady Lazarus

Do you think that I can’t feel
When I touch you there’s words on your body

Esses dias eu escrevi na minha pele. Eu já tinha algumas tatuagens, mas dessa vez eu escrevi algo, explícito, direto. Eu estampei nas minhas costas um verso de Lady Lazarus, Sylvia Plath dizendo “for the eyeing of my scars, there is a charge”.

É curioso se você pensar que tatuagens nada mais são do que cicatrizes. Eu já disse isso aqui, mas eu marco muito fácil, um arranhão de gato, um acidente com a faca, aquele dia que você me segurou mais forte. Meu corpo é coberto de marcas: sardas, manchas, cicatrizes, tatuagens, um eventual hematoma está sempre lá.

E conforme algum tempo passa, a novidade passa, uma tatuagem é como uma marca de nascença: algo que faz parte da sua pele, que está ali, como parte intrínseca, inseparável de você. As pessoas me perguntam se eu vou enjoar e eu nunca consigo faze-las entender que já não há o que enjoar, elas estão ali e pronto, são parte de mim, é como se tivessem sempre existido. É como me perguntar se eu enjoo da cor dos meus olhos.

Mas é claro que são marcas que você escolhe. São a parte da sua história que você decidiu contar na pele, em oposição aqueles que o mundo impôs em você. Eu não escolhi afinal cair em uma tamareira aos dez anos de idade, mas eu escolhi o Hamsa na minha nuca. E eu escolhi dizer que para olhar minhas cicatrizes há um preço.

Essa é a tradução que eu encontrei na minha versão de Ariel, que é bilingue, mas eu não gosto dela. Eu acho que a frase original tem uma ambiguidade que a tradução perdeu, me parece que o que a Sylvia Plath queria dizer não é apenas que há um preço a ser pago para se chegar perto, mas que uma vez perto há um custo.

Lady Lazarus é um poema sobre o que há de mais escuro naquela que fala e não se sai ileso de chegar perto disso. Eu gosto mais desse significado, foi esse significado que me fez tatuar essa frase. Sim, claro há um preço para se chegar perto, ou pelo menos, há um longo processo, especialmente no meu caso. Mas me interessa menos pensar nas barreiras entre eu e os outros e sim no fato de que é impossível sair ileso se alguém te deixa chegar perto suficiente para ver suas cicatrizes.

Talvez especialmente aquelas que fecharam errado.

foto (5)

 

Correções

… cada família infeliz é infeliz à sua maneira 

Eu não sou boa com pontualidade, qualquer um que já saiu pra tomar cerveja comigo sabe disso. Eu tenho alguns talentos: senso de humor sarcástico, fazer doces e consolar pessoas, mas pontualidade e organização definitivamente não fazem parte deles. Assim, eu venho aqui agora falar de The Corrections, quase um mês depois de ter lido o livro.

O engraçado de falar de um livro um mês depois de ler é que eu não lembro mais o que queria originalmente vir falar. Não lembro há ponto de ter passado os últimos dez minutos encarando a página em branco do WordPress e considerar “deixa, demorei demais”. Mas não, não. The Corrections, vamos lá.

The Corrections é um livro longo. Longo, com vários narradores, várias histórias e aquela história tradicional de “o que há por baixo do subúrbio americano” que aliás eu gosto muito. Talvez seja ter crescido em um lugar que, se você parar pra pensar, parece um pouco os subúrbios americanos de livro, mas algo nessas histórias me atrai. Me lembra ouvir que eu estava ali porque minha mãe tinha escolhido estabilidade, segurança e calma e então descobrir que a ex-namorada do cara com quem eu ficava pulou da janela.

Ou talvez seja meu simples desgosto por tudo que é organizado, limpo, “como se deve”. E talvez por isso eu tenha gostado tanto de The Corrections.

Em Freedom (que eu gostei até mais) o Franzen trata de personagens que querem escapar, aqui eles querem se conformar, se corrigir. É um livro sobre uma mulher que só gostaria que seus filhos fossem como deveriam ser, sobre um homem que teme ser deprimido mais do que tudo porque isso não é como ele deveria ser, sobre outro que foge de tudo que o pai acha que ele deveria ser porque isso é que ele acha que deveria ser e sobre uma moça que faz todo o esforço para ser algo, mas nem sabe bem que raios deveria ser.

Eu me identifiquei com ela. Eu grifo livros e eu recobri de asteriscos e setas as partes da Denise. Não que eu seja idêntica a ela (ela é, afinal, organizada), mas a sensação de que há um padrão a ser seguido mesmo que você não saiba exatamente qual é ele soou bem familiar.

The Correction é um livro sobre uma família infeliz. Infeliz como todas as famílias são infelizes, embora cada uma à sua maneira. Mas The Corrections é um livro bem próximo da maneira da minha família de ser infeliz, aquela maneira que espera que você seja algo e é claro que você (ninguém) nunca é. É um livro sobre querer se corrigir, de que, por que, ninguém sabe.

No fim de The Corrections os personagens acabam bem. Porque querer ser o que você deveria não é um grande drama e o Franzen é realista: há algo por baixo da existência de subúrbio, há algo por baixo de toda família, mas no fim nós estamos aí, razoavelmente bem, a maior parte da humanidade. Talvez seja um livro sobre isso, sobre ser ordinariamente infeliz como todo mundo o é, e talvez por isso eu tenha gostado tanto.

(esse não é absolutamente o texto que eu tinha planejado, mas oh well)

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 515 outros seguidores