Mas ano que vem eu não morro

Existem anos épicos na vida. Anos que, se um gráfico de intensidade fosse feito, extrapolariam qualquer medida e seriam aquele cume muito bem delineado, o everest da história dos anos. 2014 foi esse ano para mim.

Eu sei que tenho dezembro quase todo. Sei que é cedo para esses posts clichês de balanço. Mas foi tanta coisa que eu não posso mais com esse ano e tudo que me sobra é puxar o freio um pouco antes, entender que para mim ele já acabou.

2014 foi o ano que começou com alguém dizendo “eu queria uma taça de espumante” e uma taça de espumante magicamente sendo posta na mão dela. Foi o ano dos desejos realizados. Nas primeiras horas de 2014 eu estava no topo de um cortiço/mansão em Havana, vendo a cidade toda lá do alto, completamente bêbada e pensando que eu não tinha a menor ideia de como tinha ido parar lá. Não naquela noite, embora isso também. Mas na vida. A minha vida, de alguma forma, tinha me levado a ser a pessoa no topo de um cortiço/mansão decadente cubano e seja lá como isso tivesse acontecido, eu estava satisfeita.

A primeira lição desse ano foi: eu não sei bem como cheguei aqui, mas eu cheguei em algum lugar e eu gosto dele.

Uma das primeiras coisas que fiz em 2014 foi ser roubada em um país socialista e participar de uma reconstituição criminal. É bastante coisa que um ano que já começou assim tenha só sido ainda mais aleatório ao longo dos outros doze meses.

Em 2014, eu: defendi um mestrado, visitei 14 países, perdi meu passaporte, cruzei a fronteira entre a Sérvia e a Bósnia e sobrevivi, me engracei com um bósnio, um austríaco, um australiano, um mexicano, um luxemburguês e um americano. Eu visitei o túmulo do Bergman. Eu vi a ponte de Praga iluminada sob a chuva e eu me apaixonei quase a primeira vista. Eu tive três empregos. Eu comecei um vlog. Eu decidi entrar no doutorado. Eu me joguei de um penhasco. Eu quase fiquei louca.

Não é um exagero, não é uma figura de linguagem. A dor que eu vinha guardando em mim por 25 anos de repente estourou, me sufocou, envenenou todo meu sangue, minha fala, minha pele. Minhas mãos começaram a tremer sem parar. Eu passei 56 horas sem dormir. Meu cabelo começou a cair. Eu deixei de comer. Eu quis, de verdade, morrer.

E então um dia eu entrei pela sala do meu analista e anunciei que ia embora, que eu ia embora senão ia morrer. Que eu não queria ficar ali para ouvir os diagnósticos dele, que eu queria ir embora. E chorei sem parar por quase uma hora. Ele assentiu com a cabeça, me deu três meses de receitas e me deixou ir embora.

E eu fui. Sozinha. Sozinha com toda a dor e a loucura e o medo que tinha em mim. Foi uma aposta alta. Uma aposta que eu não tinha a menor certeza.

Mas eu voltei. A minha dor voltou comigo. Mas a minha loucura não.

Em algum ponto entre o sul da França e a Escandinávia eu achei meu centro. Eu descobri quem eu queria ser. Eu lembrei das luzes de Havana se espalhando lá embaixo e me lembrei que eu ainda não tinha ido a Índia. Eu não poderia morrer antes de ir pra Índia.

Quando eu voltei eu decidi que metade das minhas roupas eu já não queria, eu cortei o café, eu voltei a dançar, eu mandei consertar minha bicicleta. Eu desenhei na minha pele a lembrança de que eu preciso ficar. E eu lembrei da sensação do lugar onde eu queria estar.

2015 eu começo em casa. Com as pessoas que são minha casa. Com meus pés na areia e todo amor do mundo. Eu quero, embora não saiba se consigo, colocar pontos finais em histórias que eu já não posso mais carregar comigo. O começo de 2015 não me promete o melhor dos mundos, daqui, ele é o ano que já começa com meu coração partido. Mas agora eu acho que tudo entrou no lugar suficiente para que ele não carregue todo o resto de mim junto. Para que ele não rache as estruturas.

Eu não sei disso, eu só acho.

Eu quero viajar de novo. Eu quero ir a Ásia. Eu quero entrar no doutorado. Eu quero escrever um livro. Eu quero o mundo.

Mas mesmo que eu consiga tudo que eu quero, nunca seria um ano como foi esse. 2014 foi meu melhor ano. Porque eu quis morrer, mas não morri. Porque se eu chegar a todas as vinte milhões de coisas que eu ainda quero é porque, nesse ano, eu não morri.

Passados três meses eu não fui buscar outra receita. Eu voltei a dormir. Eu voltei a comer. Meu cabelo cresceu e eu não quero cortá-lo até o limite do socialmente aceitável. Eu entendi a dimensão do inferno dentro de mim, mas eu desisti de tentar mantê-lo a portas trancadas. Eu estou aprendendo a conviver com meus demônios, fazer amizade com eles,  quem sabe jogar umas partidas de xadrez.

Na Eslováquia. Passando calor, mas toda feliz da vida.

Na Eslováquia. Passando calor, mas toda feliz da vida.

Horário de óbito: desconhecido

Eu não sei quando parei de notar sua casa toda vez que passava por ali. Quando parei de imaginar a pessoa que agora dorme na sua cama, os livros com os quais ele agora povoa sua estante. Não sei bem quando parei de tentar calcular o fuso horário de onde você estava, ou reunir pistas, como naquele jogo da Carmen Sandiego, sobre o seu paradeiro.

Ironicamente, Carmen Sandiego é como às vezes meus amigos me chamam. Mas quem foi não fui eu.

Eu não sei bem quando foi, mas eventualmente eu só parei. Em algum momento, que eu nunca soube qual, algo morreu em mim.

Quando foi que eu comecei a esquecer o você que eu conhecia? Quando eu esqueci sua voz e as piadas ruins? Quando eu parei de esperar?

Eu ouço risadas ecoando histericamente por eu dizer que parei de esperar. Mas eu não sei, eu não sei se algo (algo que eu poderia chamar de amor, mas prefiro não) se retirou demim e o que deixou foi a teimosia, a curiosidade, a necessidade de pagar pra ver. Os planos racionais de que se eu listasse as coisas que eu quero de alguém nessa vida, eu não poderia conseguir mais do que tinha em você.

Eu não sei quando meu corpo perdeu a lembrança do seu. Mas ele perdeu. Eu já não saberia reconhecer seu perfume se ele estivesse no homem que se senta ao meu lado do ônibus. Eu não poderia revisitar a sensação da sua língua na minha, dos seus dedos nos meus cabelos.

Eu lembro vagamente de como você apoiava a mão na minha cintura e dos olhares no início, muito no início. Daquela vez que você ficou na ponta dos pés para me olhar uma última vez pela tela do elevador.

Há muito tempo atrás, da primeira vez que alguém foi embora de mim, eu percebi que tudo começava a morrer quando já não lembrava da voz dele. Quando já não era capaz de imitar o sotaque. Quando uma história morre afinal? Quando é que tudo termina?

“História”, que palavra estranha de se escolher. Minha mãe fala “história”: “ah, eu e fulano tivemos uma história”. Eu prefiro caso, relacionamento. Eu pensei em usar amor, mas eu não saberia achar onde estava o amor nessa história, se ele morreu, se ele chegou a nascer. Quando foi que tudo acabou?

Não foi, e acho que podemos concordar nisso, quando “a gente acabou”. Eu tentei. Tentei dizer “foi divertido”, mas você, deus sabe porque, não me deixou fechar as portas. Terminou quando seus emails pararam de chegar todos os dias? Quando eu parei de ter medo da dinamarquesa de pernas longuíssimas em uma praia em Bali? Quando esqueci sua voz?

Eu sou obcecada com marcar a morte de relacionamentos. Já falei sobre isso aqui um milhão de vezes. Me importa pouco quando começa, mas quando eu posso sair por aí livre de você? Quando eu vou parar de tentar montar cenários, prever conversas, ter medo?

Eu tenho dificuldade demais de entender o fim das coisas. Não porque eu não me conforme. Mas eu quero linhas, postos, marcas. Quero um carimbo de fronteira: pronto, agora você não está mais nesse relacionamento. Gosto dessa metáfora. Algumas fronteiras se cruza fácil, oi, oi, carimbo, carimbo, acabou. Outras você passa aproximadamente 2 horas sendo interrogada por um sérvio muito pouco amigável.

Eu levei anos para ver o fim de um outro relacionamento. Ele estava lá antes. Ele estava lá muito antes. Também não sei quando. Sei que não foi quando sentei no chão do aeroporto de Guarulhos e chorei compulsivamente até o segurança achar que o pacote de drogas pesadas no meu estômago tinha estourado. Foi em algum ponto depois disso. Mas antes de quando eu olhei nos olhos dele e disse “não é mais isso, não é mais você”, no ato mais cruel já realizado na minha existência.

Eu queria saber se a gente acabou para saber de onde se parte. De onde, caso o caso seja esse, se começa de novo. Eu sou outra pessoa hoje, eu imagino (espero) que você também. Somos outro “nós dois?” É um novo filme com os mesmos atores, ou um remake? É Woody Allen em infinitos filmes com a Diane Keaton ou é Antes do Amanhecer/Pôr do Sol/Meia Noite?

Tenho plena consciência do absoluto ridículo que sou eu, a essa altura da coisa, querendo limpar essa história. Querendo entender. Querendo coisas as claras. Eu sei, eu sei. Se eu fosse você, estaria rolando no chão e rindo até os pulmões falharem. Mas acontece que eu não posso mais, com essa sombra, com esse ar, com essa espera.

Quando eu parei de notar sua casa, quando eu esqueci sua voz, quando eu deixei de saber onde você estava, eu achei que tinha acabado. Que tinha morrido. Que eu estava livre. Que eu tinha parado de esperar.

Eu não parei. Algo foi embora, mas a sombra ficou. A marca dos móveis que você desencosta da parede. O rastro de perfume de alguém que acabou de sair do elevador. Aquele horário irritante de um sábado a noite sem programa que você não consegue saber se já é hora de colocar o pijama e desistir.

Eu só queria que tudo isso tivesse sido suficiente para eu desistir. Para eu saber se queria desistir. Para eu finalmente entender o que quero de você.

Disseram por aí que eu era a Taylor Swift dos blogs

Há muitas coisas nessa vida das quais eu não me orgulho. A frequência com que tenho postado aqui. A quantidade de livros que compro. Aquele ex namorado desgraçado. A frequência com que ouvi Taylor Swift na semana passada.

Eu poderia pedir perdão. Eu poderia ter fotografado o olhar de julgamento das pessoas que trabalham no mesmo recinto que eu. Mas eu vou apenas me justificar.

Dia desses eu dei carona para uma amiga saindo do ballet. Talvez um bom termômetro de amizade seja o fato de que você simplesmente coloca um cd (sim, inteiro) da Taylor Swift para tocar mesmo com alguém de carona no seu carro. Esse alguém certamente a ama apesar de qualquer vacilo. Enfim, dei carona para um amiga que me disse: “é porque você é a Taylor Swfit dos blogs.”

Hum…

Eu lembro desse outro amigo que um dia me disse “eu jamais tentaria ficar com você porque não quero acabar post de blog.” Justo” foi a única coisa em que consegui pensar. Às vezes me pergunto quantos relacionamentos meus foram estragados pela consciência que eles podiam ter que, mais cedo ou mais tarde, menos ou mais poeticamente, iam acabar expostos para toda a internet.

Eu tive esse namorado que se incomodava profundamente com eu fazer do overshare profissão. Com os pedaços dele que iam parar em roteiros, ensaios, contos. Ele lia obsessivamente uma intenção no roubo, um desejo oculto nas tramas. Anos atrás, matei meu melhor amigo no meu primeiro conto publicado e até hoje  tenho um gosto amargo no fundo da boca, um medo da culpa que vai me corroer quando ele for embora (porque algumas pessoas nesse mundo existem para ir embora cedo demais).

Meu projeto de arte é uma exposição extrema. A exposição tão extrema faz com que nenhum potencial assunto desse site seja desavisado. Você, ao tomar minha mão pela primeira vez, assina uma espécie de pacto com o diabo em que aceita tornar-se palavra, texto, personagem.

Taylor Swift dos blogs.

Mas minha paixão não justificada (só acredito em amor irracional, perdão, qualquer ser com um mínimo de senso sabe que vai dar merda) não é bem por isso. É aquela identificação real, brega, honesta, “de raíz”, com as letras das músicas.

Meu relacionamento com a Taylor Swift começou no momento em que notei uma letra que dizia basicamente “the haters gonna hate, the players gonna play e ¯\_(ツ)_/¯”. Eu lidei muito mal da primeira vez que alguém me odiou gratuitamente (gratuitamente as in eu não estava pegando regularmente o namorado dela, quando esse foi o caso eu apenas aceitei meu destino). Eu demorei muito tempo para assimilar o fato de que não importa o que eu fizesse, quão simpática ou civilizada eu fosse, uma certa fulana me odiava e deixaria isso claro para todo mundo.

Eu ainda hoje me incomodo que meu nome surja  em mesas de bares, com os julgamentos. Com os conselhos de “você não deveria chegar muito perto” que caras que eu honestamente queria receberam. “And I know you’ve heard about me”, mas eu preferia que não. Esse ano eu fui embora e uma das coisas que eu busquei foi descobrir como era não ter uma história, não ser a garota-problema, não ter lidado com seu último fora bebendo cada gota de álcool da casa, não ter levado para cama absolutamente cada cara que te apresentaram nos últimos dois anos.

Mas a verdade é que você não se livra da própria história e talvez a sabedoria popular esteja muito correta quando te manda deitar na cama que você mesmo armou. Você pode aceitá-la, pode rir, pode achar razoavelmente irônica a ideia que fazem de você e da infinita lista de homens, de vexames, pode vestir a carapuça e torná-la de uma honestidade quase desconcertante ” I’ve long list of ex-lovers, they’ll tell you I’m insane.”

E daí talvez esse cd ridiculamente chiclete tenha me ganhado em “it’s like I’ve got this music in my mind saying it’s gonna be alright”. Eu fui a adolescente mais esnobe do mundo com gosto musical. Eu fiz mestrado em cineastas suecos. Mas ultimamente minha maior identificação é com algo que me diga que tudo vai dar certo. Aliás, que diga que uma música no fundo da sua mente te fala que tudo vai dar certo. O que provavelmente quer dizer que os fatos não apontam exatamente nessa direção.

Eu tenho dias bons e dias ruins. Por muito tempo eu achei que os dias ruins no meio dos bons seriam menos perigosos. Não são. Eles te pegam de surpresa, eles puxam seu tapete, eles se tornam piores pela sensação de recaída, de fraqueza, de estar equilibrada em fundações de madeira podre. É em um dia ruim no meio de dias bons que se pula da janela. Que se passa a gostar de Taylor Swift porque é preciso acreditar que vai ficar bem, que uma hora vai ficar bem.

Mas de todas as músicas do cd, talvez a que eu mais goste é uma que diz “we found wonderland, you and I got lost in it”. Há poucas coisas que me interessam mais do que essa perspectiva obscura do prazer, do amor. Há um perigo  gritante em se isolar em um universo muito próprio, em achar que o amor basta. Ele nunca basta e ele te mergulha em você mesmo. Nem todo mundo pode mergulhar em si mesmo.

Eu gosto da pequena pílula de obscuridade, da honestidade em dizer que “somebody lost their mind”, em assumir que o amor é uma espécie de droga que te leva a lugares em que você não queria ir. Acho que nenhuma bad trip que eu tive na vida foi tão intensa quanto ter que perceber que o universo meu e dele nada mais era que isso, só meu e dele, e não podíamos continuar existindo ali. Que havia dor demais e dependência demais e escuridão demais para que se pudesse respirar ali. Levei pelo menos dez anos para perceber isso e admiro, um pouco que seja, qualquer um que pode perceber também.

Se falamos em esnobes de música, eu poderia ser como Rob Gordon e me perguntar “eu sou miserável por que ouço música pop ou ouço música pop por que sou miserável?” Eu faço esse overshare terrível porque cantoras me ensinaram a fazer assim ou eu gosto de cantoras completamente overshare porque é como eu seria de qualquer maneira? Eu seria capaz de gostar desse maldito álbum da Taylor Swift se não soubesse que ela provavelmente passou por tudo que está contando ali?

Eu acredito na identificação completamente instintiva e quase vergonhosa da música pop. Sendo assim, sobrava pouca coisa para o blog mais overshare dessa internet além de vir falar da cantora mais overshare dos tempos atuais. E se identificar com “I go on too many dates, but I can’t make then stay, at least that’s what people say”

Sobre promessas e narrativas. Ou sobre crianças prodígio

Tem essa cena na minha cabeça desde que eu vi Gone Girl, quase um mês atrás. Não tem a ver com viradas supostamente geniais ou o discurso da cool girl, que sim, eu gosto muito, mas não, não é a cena que ficou na minha cabeça quando eu saí do cinema. Não é sobre ela que eu sabia que viria falar aqui assim que decidisse voltar pra cá.

É sobre a parte que a Amy e o Nick vão a festa para comemorar o casamento da Amazing Amy, a personagem que os pais da Amy criaram inspirados nela. “Amazing Amy era um prodígio do cello, eu larguei aos 10 anos. Amazing Amy jogou voley com bolsa na faculdade, eu saí no primeiro ano do ensino médio”, Amy vai contando enquanto passa pelas figuras. Amazing Amy está sempre um passo a frente, um lugar acima, ela é sempre melhor que a Amy real. Porque ela é uma promessa que se cumpriu.

Promessas muito raramente se cumprem. A realidade se recusa muito teimosamente e nos dar o que esperamos, a condizer com o cenário criado nas nossas cabeças. A frieza do real é algo que nossos cérebros meio que se recusam a conceber.

Ser uma criança talentosa, por exemplo, é um negócio horroroso. Eu fui uma criança particularmente talentosa. Eu tocava piano bastante bem, eu jogava tenis lindamente, eu dirigia e escrevia peças, eu pintava quadros, eu antes dos 15 já falava francês. Não importa se eu queria fazer alguma dessas coisas minha vida, importava a considerável facilidade com que eu ia tomando cada coisa que decidia fazer. Aos olhos da mini-Isadora não havia muito que ela não pudesse fazer, o mundo era só esse lugar que eu escolheria tomar do jeito que quisesse.

E ninguém se deu ao trabalho de me dizer que não era assim. Todas as pessoas em volta incentivaram, elogiaram, promoveram todas as capacidades artísticas da criança talentosa. Todas as promessas.

Acontece que a potencial pianista que eu fui aos 8 anos será sempre melhor que a pianista que não fui. Os livros que nunca escrevo são melhores que aqueles que de fato escreverei. O relacionamento que eu acho que poderia ter dado tão certo é muito mais bonito do que o que arriscamos realmente ter.

Não é que crianças prodígio sempre falhem. Eu me sentiria muito ingrata se dissesse que falhei, me sentiria terrivelmente egoísta se não concordasse que consegui levar com certa proeza quase todas as coisas que me propus a fazer. Mas eu vivo no eterno medo da potencialidade das coisas. Na eterna consciência de que a realidade nunca pode atender o que se espera dela.

Eu escrevo muito pouco, comparado com o que eu gostaria. Eu nunca, jamais, em hipótese alguma, penso duas vezes antes de publicar algo aqui. Eu encaro dois parágrafos seguidos de páginas em branco e não me convenço a continuá-los. Porque eu não consigo lidar de uma forma serena suficiente com a escritora que eu queria ser, com a expectativa, o desejo a, quem sabe, promessa na minha mente.

Eu tive esse relacionamento que durou um ano e às vezes as pessoas me perguntam porque ele nunca virou algo de concreto, estabelecido, por que nunca se chamou nada. Por vários motivos, um deles o medo que eu tinha da realidade e do cotidiano se aquilo virasse algo de verdade. Como era, era como caminhar no ar. Exatamente como caminhar no ar. Incômodo, perigoso, mas de uma poesia intensa. De possibilidade pura. Sabem desenhos do Pernalonga que só cai no penhasco se perceber que já está sobre o penhasco? Quando eu percebi que caminhava no ar eu caí, feio. Mas o melhor relacionamento da minha vida continua existindo só na minha cabeça.

Eu não preciso de lições de mora sobre arriscar as coisas, sobre aceitar a possibilidade da dor para ter felicidade, bla, bla, bla, etc, etc, etc. Não falo disso. Acredito nisso até, de certa forma, em algum grau, supondo que eu acreditasse me felicidade. Não, o que quero dizer é que sempre postulamos mais felicidade do que há no mundo. E mais talento. Mais sorte. Nada nunca é do jeito que prometido.

Em Gone Girl a criança prodígio não é a única promessa não cumprida. Há diversas promessas. De amor, de cumplicidade, de relacionamento, de identidade. Ninguém é quem gostaria de ser, no filme ou fora dele.

Parece simples de aceitar. Parece melhor do que tantas coisas que eu já consegui enfiar na minha cabeça. Mas não consigo. De todos os meus mesmos, talvez o da coisa que poderia ser seja o maior. Das promessas que murcham como aqueles balões de hélio depois de alguns dias.

Mas não consigo. Porque narrativas são sedutoras. Porque as histórias que contamos dentro das nossas cabeças são boas demais para deixar passar. Eu tenho um medo gigantesco dessa ilusão, do tombo que eu tomo quando salto em uma promessa irreal.

Mas nunca é demais repetir que todas as promessas são irreais.

 

(voltamos aos pouquinhos com um texto que, simbolicamente, não é tão bom quanto poderia ser)

Um pequeno post melado sobre mulheres, amor e achar seu lugar nessa vida

A maior parte da minha infância eu passei com garotos. As pessoas que eu posso dizer que cresceram comigo, junto de quem aprendi a andar de bicicleta, caí de árvores e quebrei o braço três vezes, eram todos meninos. Eu não tive irmãos, mas minha mãe tinha um grupo de amigas, todos com filhos, e eu passei uma quantidade enorme do tempo da minha infância com eles. Convivendo, inventando jogos, ganhando no videogame e brincando de comandos em ação.

Eu não era o que se chamaria de “moleca”. Eu gostava de barbies (embora detestasse bonecas bebês), de cor de rosa, de fadas, princesas e sereias. Eu gostava de livros, jogos de tabuleiro e videogames mais do que de correr por aí. Mais do que tudo, eu sempre gostei de lápis aquareláveis e dirigir peças de teatro cujas protagonistas eram sempre meninas.

Eu aprendi muito, ao longo da vida, na minha relação com homens. A primeira pessoa que foi meu porto seguro, minha âncora, foi um homem. Foi ele que me ensinou que, na ausência de amor, carinho, colo e segurança em casa, eu podia fazer isso por mim mesma, eu poderia arranjá-los fora, e ele é, ainda, a pessoa mais importante da minha vida. Eu tive garotos que me ensinaram a andar de skate, a tocar alguns acordes de violão, que levaram a lojas de cd e me deixaram entrar no mundo deles. Eu sempre fui a confidente de algum homem na minha vida, eu sempre ouvi ao menos um me contar de amores, de inseguranças, eu já consolei no meu colo mais de um choro por coração partido.

Mas foi só esse ano que eu percebi, apesar de todo amor que eu sempre tive pelos homens da minha vida, o quanto era importante e necessário e o tamanho do bem que me faz a amizade de mulheres.

Provavelmente a coisa mais importante da minha vida é conseguir uma rede de apoio. Pessoas que vão te amar não importa se às vezes você erra, que aceitam pedidos de desculpas e te dão lugar para não ser perfeita. Que te acolhem quando o que você precisa é só saber que não está sozinha. Eu não achei isso em casa e eu não achei isso em relacionamentos amorosos, eu achei isso em grupos de amigas.

Talvez porque o mundo é construído desse jeito fodido, eu vi muitas vezes, em mim e em outras, essa resistência a “se fechar” em grupos de mulheres. A declarar girl’s night, a dizer que nessa conversa nenhum homem entrava. Acontece que é importante, que há um tipo de cumplicidade e conexão que acontece diferente quando se está entre mulheres.

Vejam, eu não estou dizendo (NÃO ESTOU) que há mais conexão entre mulheres do que entre mulheres e homens. Que é impossível ter as mesmas conversas ou mesmas intimidades. Não é. Eu já tive conversas tão explicitamente gráficas e confortáveis sobre sexo com homens, inclusive com um homem com quem já transei. Eu já chorei e pedi conselhos e falei do que eu sentia. Mas a sensação é diferente, não é mais ou menos possível ou melhor ou pior, mas é diferente.

Há um acolhimento na identidade. As coisas não deveriam ser assim, mas homens e mulheres são educados de formas diferentes e tem expectativas diferentes em relação ao mundo. Não acontece tanto de eu contar algo a um amigo e a resposta dele ser “já passei por isso”, enquanto acontece de horas serem passadas entre três mulheres contando de experiências parecidas.

Esse ano não tem sido um ano fácil para mim. Eu defendi um mestrado e passei dois meses aprontando pela Europa então não posso de forma alguma dizer que tem sido ruim. Mas tem sido difícil. Os altos foram muito altos e os baixos foram muito baixos, mas eu tenho quase certeza que quando 2014 chegar ao fim o que eu vou ter como memorável são o que os dois meses sozinha pelo mundo me ensinaram e o que as mulheres que me receberam aqui me deram. Voltar é tão difícil quanto ir é maravilhoso e elas, nos mojitos de terça-feira, nas conversas retardadas do twitter, nas idas ao ballet e nas baladas, me mostraram que havia motivo para voltar, motivo para querer ficar, para querer permanecer em algum lugar.

Eu tenho uma amiga que já me acolheu em um domingo a noite só porque eu tinha voltado de Cuba e na minha casa não tinha um único pedaço de pão mofado. Que me disse não senhora, você não vai jantar miojo e me levou para casa dela, me deu álcool, lasanha e gatos o que me parece a própria definição de amor. Em troca eu dei minha casa e minha cama a qualquer hora da madrugada que ela precise, sem explicações, sem justificativas.

Quando eu me percebo dentro de um grupo de mulheres, eu me sinto profundamente agradecida. Quando há adesão quase automática a bebidas e fofocas no meio da semana, quando as histórias só precisam ser atualizadas, quando há uma certeza forte de presença, de amor, de apoio. E no fundo, todas nós precisamos disso. Todas nós viemos de famílias pouco compreensivas, ou que estão longe, a maioria de nós é solteira e você descobre um dia que é importante ter alguém que vai se preocupar se você não respondeu mensagens por um tempo longo demais.

O mundo é cruel demais com mulheres, com nossas expectativas e auto-estima, o que eu descobri me cercando delas é o quanto isso é uma arma forte para mudar essas coisas. A descoberta da riqueza, do talento e da maravilhosidade das suas amigas é uma arma forte. A possibilidade de compartilhar vulnerabilidade ou de ver outras estando profundamente em paz com a própria sexualidade ou corpo, é uma arma poderosa. Conviver, conversar, compartilhar a experiência de ser mulher nesse mundo salva muita gente, melhora profundamente a vida de muita gente. Ouvir muito claramente que se é amada e que alguém te acha maravilhosa também.

Esse post parece um ode gratuito de grupos de meninas e girl’s night out e é exatamente isso. Porque por mais que pareça óbvio que a convivência, honesta, aberta, amorosa, com outra mulheres, faz bem, por muito tempo me apegar a esses grupos me pareceu infantil, sectário quase. Mas não é. É um tipo de segurança que só a experiência compartilhada pode dar.

Eu tenho uma melhor amiga. A vida toda eu tive “melhores amigas”, pessoas em quem eu me apegava e fazíamos tudo juntas, ou nem olhavamos pro lado na hora de escolher grupo de trabalho ou a pessoa na frente de quem você começa a chorar, não importa se é o meio do bar ou do restaurante, por coisas que nem você saberia explicar. Eu percebi, quando errei com ela, que eu nunca tinha descoberto que o amor de outra pessoa não depende do quão perfeito e sem falhas você é. Eu fui criada sem desculpas e sem tolerância para comigo. Sem espaço para que minhas falhas fossem só falhas comuns e não monstruosidades de uma pessoa com defeito. A mudança de eixo enorme que ela representou quando me mostrou isso não é pouca coisa.

No fundo esse post é só sobre a possibilidade de achar amor, de achar apoio e segurança e coisas que te fazem continuar em qualquer lugar e não necessariamente naqueles que te disseram que encontraria. Eu sei o quanto muita gente encontra repouso e segurança em relacionamentos amorosos, não foi para mim. E nem só porque eles foram ruins, ou acabaram mal, eu tive um relacionamento maravilhoso e absurdamente importante pra mim com alguém que ainda está na minha vida. Mas eu percebi que era a dimensão da amizade dele que mais me segurou. Eu não sou contra namoros e relacionamentos, mas eu descobri que o centro do meu equilíbrio e da minha segurança esteja fora deles. E eu gostaria que ele permanecesse nesses grupos de mulheres.

Seria melhor ser sereia do que humana

There’s always a siren singing you to shipwreck

Então você perde a cabeça. Você sabia que ia acontecer, você sentiu aquilo vir como a maré que sobe. Engole primeiro seus pés, depois seus joelhos e então você não pode mais voltar para o hotel e precisa pedir ajuda para um local e acha que vai ser estuprada no meio do nada (história real).

Você percebe que está vindo na terceira noite seguida em que bebe meia garrafa de vinho sozinha. Percebe quando seus cigarros acabam mais rápido. Quando não consegue controlar a velocidade do seu cérebro.

Uma doença é uma doença como outra qualquer, não há nada de especialmente charmoso em um cérebro desarranjado. Então lido com ela como com a sinusite, a bronquite, minhas 400 mil alergias. Para lidar com instabilidade emocional você precisa de um plano. Espere sua cabeça voltar ao lugar (ou vá buscá-la na Bósnia, tanto faz), respire fundo, faça uma caneca de chá verde (é preciso calma e presença de espírito) e analise sua vida.

Você é frágil demais para tudo que vinha absorvendo. Como uma árvore muito magrinha exposta ao excesso de vento. Você se deixou se apaixonar de novo, quando deu errado você saiu por aí levando para cama um e outro cara interessantes. Cabe muito pouca coisa dentro de você e então essa paixão residual saiu grudando neles que não tinham nada a ver com isso. Você precisa de tempo para por para fora o que não cabe, de livros, cadernos, precisa chorar abraçada nos gatos. Mas havia bares demais, festas demais, gente demais porque você não queria colocar nada pra fora, queria guardar tudo aquilo dentro de você.

Quis guardar tanto que saiu de si mesma.

O dia que você viu seu corpo fazendo coisas onde sua mente não estava foi assustador. Então analise por onde foi que saiu de você mesma.

Você desacelera então. Corta o café e a gastrite diminui, não acorda mais de madrugada para vomitar. Toma os remédios para dormir, dorme 7 horas por noite. Diminui os cigarros. Não bebe mais sozinha em casa. Tenta não aceitar convites todos os dias da semana. Mantém um diário mesmo nos dias que acha que não precisa. Faz ballet. Se desloca de bicicleta. Disseram que endorfinas fariam bem. Come melhor. Se afasta daquele homem interessante mas que você sente que te custará algo que não pode dar. Volta a cozinhar. Você se sente mais centrada, mais equilibrada, consegue sentir a estabilidade nos seus pés.

O problema é o tédio.

O problema da existência é que ela é insustentável. Para ter graça você precisa chegar perto demais do que te desequilibra, para manter o centro a sensação é de que não é você e isso não é o que você quer do seu tempo no mundo.

Se brincar com fogo é quem você é, é possível parar antes de se queimar? Eu acendo isqueiros e fico aproximando meu dedo do fogo, levando-o mais perto possível, sentindo o calor aumentar e o início da lambida da chama. É um jogo de intuição. Me lembro de estar deitada de bruços na cama de outra pessoa, brincando com o isqueiro de outra pessoa, que deslizava a mão pelo fim das minhas costas enquanto perguntava se aquilo era só uma maneira de me machucar sem me sentir culpada por isso. Eu não sei, respondi, talvez, mas eu não me importaria tanto se me queimasse, eu gosto de um pouco de dor.

Mas quanta dor é muita dor? Quão perto do fogo é perto demais? O quanto eu posso aguentar sem me perder por completo? Qual o risco?

Eu nunca escolhi ficar do lado seguro. Nunca acreditei na teoria de que é melhor não arriscar, de que vale mais a pena ficar em um meio termo morno do que acabar se descabelando de dor. Eu me irrito, me incomodo, fico impaciente e intratável quando a vida  se torna só uma sucessão de dias sem nada de novo. Eu sempre quis tentar de tudo, eu quis aceitar todas as chances que apareciam na minha frente.

Eu cruzei Cuba de carro. Eu pulei de paraglider. Eu me joguei de um barranco na Turquia. Eu me lembro até hoje do primeiro copo de vodca que eu decidi provar, da primeira vez que fiquei bêbada. Eu transei com mais de uma pessoa só para saber como era, só para fazer, só porque sim. Porque, por mais paradoxal que pareça, eu tenho essa vontade incansável de ir pro mundo e provar tudo que eu puder. Eu tenho um desapego enorme a vida, ao tempo da vida, ao fato de que ela vai acabar e ao mesmo tempo um desejo de experimentá-la em todas as suas possibilidades antes de decidir ir embora.

Mas como fazer isso sem me perder? Como fazer isso sabendo que eu não sou forte o suficiente para me deixar sentir tudo?

O problema é que qualquer escolha tem em si o caminho que te leva pro desastre. Se eu escolho ir para o mundo com a fome e a intensidade quase selvagem com que quero ir, eu quebro. Se decido me recolher, se fecho as portas, se tento achar um centro o tédio entra pelas minhas veias, corrói meus ossos e me mata, aos poucos. Me enlouquece tanto quanto o desastre. E o meio termo parece uma ideia linda que eu nunca saberei qual é.

Existir é absolutamente insustentável porque é sempre impossível saber qual música é uma sereia te conduzindo para o naufrágio. Porque é como levar um enorme navio em águas revoltas e cheias de pedra. É isso ou nunca deixar o porto e eu não sei como fazer essa escolha.

Mas é preciso fazer escolhas, é preciso viver e é preciso arriscar seguir sereias.

Talvez, só talvez, a arte ainda salve alguém

Logo que eu publiquei o último texto aqui a maioria das pessoas que vieram falar comigo me chamaram de corajosa. Admiraram ou agradeceram a coragem que era necessária para se expor assim, para contar sem muitos disfarces as merdas por que passei. Eu agradeci a todos, mas eu não me sentia corajosa.

Quando eu apertei em publicar, as minhas mãos tremiam. As minhas mãos tremem quando eu fico nervosa, quando eu fico com medo, quando eu tenho muita dor, física ou psicológica. Quando eu falo em público eu torço as mãos, quando eu defendi o mestrado, eu as escondi embaixo da mesa. Quando eu percebi o leve tremor naquela festa eu fiz questão de beber o suficiente para que ele parasse.

Eu não sei quando começou. Eu lembro de uma vez em que minhas mãos começaram a tremer e aquilo foi subindo, quando eu percebi, eu estava sentada no chão, abraçando meus joelhos e meu corpo todo tremia. Foi assim que eu descobri que podia perder o controle.

É um ciclo vicioso. Meu corpo responde ao meu medo, meu medo aumenta porque vejo meu corpo respondendo e ele responde ainda mais e quanto mais eu perco o controle físico, mais medo eu tenho. Você só precisa de uma crise de pânico para passar a vida com pânico de crises de pânico.

Você só precisa de um relacionamento deturpado para ter medo de todos os relacionamentos.

Em Short Term 12, quando Grace fica nervosa, ou se sente ameaçada, ela inconscientemente corta a lateral do seu polegar com a unha de seu indicador. Ela não percebe, sua unha só se movimenta repetidamente enquanto ela fala, a câmera sabe, seu namorado sabe, mas ela se fere sem perceber até que aquilo se abre e sangra.

Ao menor nível de stresse, a reação automática do organismo de Grace é se ferir. Foi nesse pequeno plano detalhe, muito rápido, quase imperceptível, em que a câmera mostra ao espectador esse gesto, em que conta pra ele que há algo de significativo nas mãos de sua protagonista, que eu entendi a que profundezas aquele filme desceria.

Quando eu olhei para minhas mãos sobre o computador e elas tremiam, eu sabia que minha única chance era apertar publicar naquele momento.

A maioria dos posts desse blog é agendado. Eu escrevo, agendo, depois de alguns dias entro aqui e reviso. Às vezes percebo que se eu revisar demais vou desistir, então deixo. Aceito alguns erros de português e frases mal escritas em favor da honestidade, o bom de ter um blog é que leva só algumas horas para um texto virar papel de peixe.

Eu não sei bem do que eu tive medo.  Eu tive um medo definido, claro e honesto de que ele viesse tirar satisfações. De que quisesse discutir que o difamei, que não era assim, ele fez isso por um comentário qualquer no twitter tempos atrás. Tive medo do meio de comunicação que eu ainda não tivesse pensado em bloquear. Não pela presença, mas porque ter que defender o que eu senti seria sofrido, eu não queria argumentar um abuso, não existem argumentos.

Mas meu maior medo foi a percepção dos outros, acho. Cada vez que alguém expressou preocupação ou tristeza por mim, eu corri em assegurar que estava tudo bem agora. Que eu estou bem, que passou. Meu maior medo era ser vista como alguém a quem se deve cuidado e preocupação, alguém cuja história pode ser olhada com pena.

Grace, voltando a Short Term 12, esteve na frente de um tribunal e contou as diversas formas pelas quais o pai abusava dela. Mandou-o para cadeia por dez anos. Mas nunca contou ao namorado. Nunca deixou que ele compartilhasse com ela da profundidade da sua dor e seus traumas, nunca dividiu com ele o espaço infernal dentro da sua cabeça. O filme estabelece um paralelo entre ela e Jayden, uma das garotas de que toma conta. É muito mais fácil expor de forma sistemática, oficial e organizada o que fizeram com você, difícil é pedir ajuda.

Eu não me senti corajosa ao postar o texto anterior porque tudo que eu fiz foi expor, acusar. É como se eu também me levantasse na frente de um tribunal e recitasse, como um rosário, o que foi feito comigo. A diferença é que eu não queria punição, eu queria deixar isso ali para que quem sabe, alguém, no meio de tanta gente que leu aquele texto, se identificasse, percebesse padrões e reconhecesse o que estava sofrendo. Eu queria declarar minha liberdade de falar disso, a impossibilidade dele de me mandar mensagens questionando o que eu dizia.

Short Term 12 é um filme sobre um tipo de abuso muito pior do que o meu. Um tipo de abandono muito pior do que o meu. Sobre crianças realmente violentadas, espancadas, colocadas para vender drogas com dez anos. Crianças cujas vidas familiares eram tão ruins que precisavam ser retiradas de suas casas.

Ninguém nunca teria me retirado da minha casa. Nenhuma assistente social teria achado que um pai ausente e uma mãe neurótica eram motivos para se retirar uma criança. Eu tive babá, fiz aulas de ballet e piano, estudei em escola construtivista, tive um gato, joguei tênis, fui umas 4 vezes para a Disney, no meu primeiro passaporte eu nem era alfabetizada e minha bicicleta era roxa brilhante com pneus brancos.

Mas o sentimento de profundo abandono daquelas crianças me tocou. Eu percebi o quanto eu desejava que alguém agisse comigo como Grace agia com elas, que alguém tivesse tido a paciência de sutilmente arrancar de mim mesma o que eu queria dizer. É fácil recitar a lista de seus abandonos e injustiças, é fácil contar acuradamente a narrativa de cada uma das vezes que minha mãe me chamou de monstro. Muito mais difícil é assumir que preciso de ajuda por causa disso.

Eu fiz naquele texto o que era mais fácil e fiz porque para algumas pessoas talvez ainda não seja, porque eu só tomei consciência de mim mesma através da arte.

Esse ano tem sido um processo de descobrir o direito que eu tenho a minha dor. As faltas enormes e a raiva. E que tudo bem, elas tem um motivo para estar ali, eu passei por coisas terríveis, talvez não terríveis a ponto de uma assistente social me tirar de casa, mas terríveis a ponto de eu viver com um constante ruído branco de dor e medo. Medo de mim mesma.

Foi na arte que eu aprendi sobre mim mesma. Muito mais do que em divãs de terapeuta, mais do que em qualquer lugar. Foi Bergman que me ensinou o quanto é devastadora a indiferença, Henry James que me mostrou o tamanho do desejo de ser amada de uma garotinha. Em Short Term 12 eu vi nas crianças a criança que eu fui e o desejo imenso, enorme, devorador, de ter simplesmente alguém que sentasse ao seu lado e te esperasse você levar seu tempo.

Eu também vi no tique de Grace o tremor das minhas mãos.

Short Term 12 é um filme terrível, daqueles que mostram o quão fodido é esse mundo. Ao mesmo tempo é um filme de um otimismo profundo, um filme que reconhece que o difícil não é falar, é assumir as consequências do que é falado. Eu posso contar sobre quatro anos de sofrimento, mas não posso dizer que esses quatro anos deixaram marcas e que sim, estou bem, mas não tão bem quanto gostaria, não totalmente bem, melhor, mas não curada e sim, eu gostaria de ajuda.

Não é preciso coragem para contar sobre abuso na frente do tribunal. É preciso coragem para assumir para um namorado que aquilo deixou marcas e por isso é difícil confiar nele e ainda se tem pesadelos e ainda se corta a lateral do polegar sem perceber.

Eu não me senti corajosa quando aquele texto entrou e tanta gente disso isso pra mim. A cada preocupação que eu afastava eu me sentia mais fraca, tanto por não aceitar mãos amigas quanto por precisar delas. E eu precisei de um filme para entender o que eu estava fazendo.

Em um texto sobre o Bergman, Woody Allen diz “in the end your art doesn’t save you” ele fala da mortalidade, de como ser lembrado não é em nada parecido com realmente viver para sempre. Uma vez que estou morto, foda-se que lembram de mim. Faz sentido. Fazer arte também não cura ninguém das próprias dores, dos próprios transtornos, das próprias mãos que tremem. Fazer arte é só fazer arte, é só por pra fora, pode ajudar, mas não salva.

Talvez a sua arte não te salve, mas a dos outros sim. Sua arte não salva a você mesmo, mas a alguém. Vir aqui e falar de um namoro horrível não conserta o tempo que passei nele, não conserta minha distância, minha hesitação, meu medo. Mas talvez ajude outra pessoa e entender os seus. Talvez eu possa salvar alguém pela arte, talvez ela seja a única forma de me salvar.