Noite passada foi a madrugada mais curta do ano

Em algum momento você me pediu desculpas porque tinha fumado demais, estava com gosto de cigarros. “Não tem problema”, eu disse. Queria ter dito “eu gosto de gosto de cigarros. Gosto ainda mais do gosto de cigarros diferentes dos meus, mais fortes que os meus. Eu gosto de como o cheiro de fumaça mistura com o perfume, nunca mistura da mesma forma, mesmo em homens que usam o mesmo perfume e fumam os mesmos cigarros.”
“Eu gostaria de acreditar em algo, como aquele homem saindo agora da igreja”, você me diz. Eu concordo, eu também. Invejo as pessoas que vejo beijarem as portas das catedrais ortodoxas, invejo os homens que batem a cabeça até sangrar no kotel, invejo esse homem saindo da igreja as 5 da manhã, em uma madrugada gelada do verão em Sarajevo.
Invejo as pessoas menos conformadas com a ordem do mundo. Menos conscientes de que uma madrugada de verão é só uma madrugada de verão. Menos lúcidas e racionais quanto a insignificância das coisas. Pessoas que teriam por 5 segundos achado que valia a pena anotar seu nome inteiro.
Eu não anotei. Mesmo bêbada, vendo o sol nascer nas ruas de uma capital europeia, há um tipo de ilusão que não me permito. “E se nós ficássemos mais uma noite aqui?” Você me pergunta, sem qualquer pingo de seriedade. Eu sorrio, solto da sua mão, examino os furos de bala nas paredes de um prédio, me viro e respondo “e se nós fossemos para o meu quarto agora?”
Drina, você me contou, é o nome de um rio. Também é a marca de cigarros que você fuma quando está na Bósnia. Ivo Andric escreveu um livro chamado a ponte sobre o Drina. Interrompo, comprei um livro dele uma vez, ainda não li, mas não é esse. Esse é realmente muito bom, você me diz, e você costuma ser exigente com as coisas, os livros que lê ou as meninas que beija no meio da rua, então eu deveria confiar.
Rio. Mas não, o que eu comprei se chama “The Damned Yard”, provavelmente porque me lembrou graveyard e tenho uma certa obsessão com cemitérios. Não faz sentido, você diz. Não, não faz, eu sorrio de novo, balanço a cabeça em negação por trás do copo de cerveja e então trago meu próprio cigarro, que é só o último marlboro light de um maço escrito em húngaro.
Você gosta do meu sorriso. Reparou em mim porque eu ria alto no meio da rua e batia palmas como uma criancinha. “You smile like you mean it”. Rio mais ainda, digo que isso é uma música do The Killers. Que banda ruim, você diz, rindo. Concordo, rio de novo. Você não ri tão fácil quanto eu, mas gargalha quando o americano que anda com a gente imita um inglês aristocrata. Eu não consigo dizer porque é tão engraçado, mas nós dois concordamos que é terrivelmente engraçado e não conseguimos parar de rir.
Concordamos também que The Killers é uma banda ruim. Você pergunta se gosto de jazz, não, não gosto, mas ouvi você e o americano falando sobre um bar de jazz e podemos ir. Vamos e no telão tem Tina Turner, voz e cabelão, no auge dos anos 80. Desconfio que o lugar tenha sido um bunker nos anos 90, também desconfio que saímos sem pagar. Você pede uma cerveja preta, diz que preciso experimentar e pede uma pra mim, também pede um copo de rakia. Pergunta se já provei rakia, sim, conto do meu aniversário na Capadócia, de como fiquei amiga do garçom e virei uma dose de raki, que me disseram, é a mesma coisa,
Sim e não. Sim, mas eu preciso provar o desse lugar. Dou um gole do seu copo, é melhor sim. Você se vira e me beija de repente, muito rápido, antes que o gosto da bebida tenha a chance de sair da minha boca. Gosto disso. Quando você faz isso, decido que quero te levar para cama.
Também decido que quero te levar para cama porque é isso que isso é. Sexo. Porque quero mandar mensagens contando como transei com um bósnio, não como passei uma madrugada inteira trocando de bares e me perdendo pelas ruas de Sarajevo até o sol nascer.
Quando fui comprar cigarros hoje vi um maço de drinas. Quase comprei apenas para lembrar do gosto. Percebi que nem te pedi para experimentar um. Seria um gesto inofensivamente poético, comprar cigarros da marca que o moço da noite passada fumava. O que não vou ver de novo e não me permiti, nem por um ínfimo tempo, imaginar que seria diferente.
Quando o sol começou a nascer, você se espantou. O jogo começou meia noite, que horas você achou que seriam? Tempus fugit, você me diz. Time flies, eu traduzo, mais para mim mesma, enquanto estou muito compenetrada lendo sobre o bombardeio a essa rua. E se nós ficássemos mais uma noite em Sarajevo? E se fossemos para o meu quarto agora?

Um maço de marlboro lights, por favor.

There’s too much love to go around these days

Há pouco mais de duas semana longe de casa, há nem sei quanto tempo longe daqui, eu começo a querer escrever nos meus postais: “me desculpem, eu fugi”

É uma fuga glamurosa, sem dúvidas. Escrevo isso sentada em um trem italiano e por uma janela vejo campos de trigo, pela outra o Adriático (ou seria o mediterrâneo? Mediterrâneo é meu mar preferido, em parte porque ele não tem a mesma cor dos meus olhos e não me lembra da minha própria inconstância). Mas uma fuga é sempre uma fuga e há sempre um gosto amargo lá no fundo da boca.

Estou feliz, claro. Estou mais feliz do que me lembro de ter estado nos últimos 9 anos.

Não, mentira. Estive tão feliz assim em praias da Turquia e estive tão feliz assim mais perto de casa também, é dessa lembrança que eu fugi.

Eu fui embora porque podia ir, foi fácil ir embora, pouca coisa (para não dizer absolutamente nada) me prendia em casa. Mas eu teria ido mesmo que precisasse revirar tudo e desmontar minha vida. Era isso ou ficar louca.

Ainda não sei se vai me impedir de ficar louca, a razão é algo muito frágil, afinal. Há essa frase em Através de um Espelho que gosto muito “é horrível ver sua própria confusão e entendê-la.” Sylvia Plath, Zelda Fitzgerald, Virginia Woolf falaram disso: pior do que perder a razão é o momento anterior, a consciência muito aguda, perfeitamente clara e lúcida de estar perdendo o controle.

Eu perdi o controle.

Sobre mim mesma, sobre a minha mente, sobre o efeito que os outros tem sobre mim, sobre o que era real ou não.

É como se eu vivesse muito perto das portas do inferno e elas estivessem muito mal fechadas. As vezes eu simplesmente não tenho mais forças e deixo abrir.

No museu Rodin eu vi as portas do inferno. Um milhão de pequenas figuras de bronze torturadas, retorcidas, seus rostos repletos de agonia. Gosto da palavra agonia, acho preciso e interessante o conceito de algo que está em processo de morrer, sentindo a vida se esvair de tal forma que a morte parece uma benção. Uma misericórdia ao menos.

A agonia é pior do que a morte. Pior do que a loucura completa.

Acho irônico quando esses textos surgem, quando eu deixo de lado a ironia e as gracinhas e torno público algo brutalmente honesto. Eu faço tanto esforço para esconder a agonia. Já citei Bergman, então estou liberada para citar Game of Thrones, existe um episódio em que o Tyrion vira para o Jon Snow e o aconselha a vestir a falha como uma armadura. Ninguém nunca vai esquecer quem você é, dói menos se você lembra primeiro.

Eu não posso me livrar do tormento da minha própria cabeça, então eu a visto como uma armadura. Eu faço tipo, eu rio irônica, eu faço um charme de fazer péssimas escolhas e ter uma tendência a pouca autropreservação como se fosse uma escolha. Não é. Eu bebo como se não tivesse medo da minha relação com o álcool. Eu tenho.

Eu fujo pra Europa quando minha vontade era fugir pro fundo do mar. Muito literalmente, mais de uma vez.

Eu fujo sozinha, não passo mais de 5 noites no mesmo lugar, saio de manhã muito cedo sem me despedir. Eu preciso fechar feridas que a proximidade com os outros alimenta. Eu preciso do isolamento para costurar devagar os meus pontos. Pelo menos eu costuro bastante bem, se me dão o tempo.

Eu falei sobre isso aqui já, sobre a tendência que temos de esquecer que cicatrizar é um processo, da mesma forma que eu talvez não deva beber após uma intoxicação alimentar, eu não deveria ter chegado perto antes das coisas fecharem.

Sendo sincera, tenho poucas esperanças de realmente fecha-las, mas se pararem de soltar sangue e pus amarelo repugnante, já é alguma coisa.

Ao mesmo tempo me sinto egoísta, me sinto quase culpada que eu precise me afastar de todo tipo de proximidade, não só daquela que é nociva. There’s too much love to go around this days. Há muito amor, eu nunca consegui agradecer com a sinceridade merecida a todo mundo que realmente foi ser feliz comigo no frio e na chuva.

É por isso que minha vontade é pedir desculpas. Desculpas por não sentir falta, não ainda, por não querer voltar pra casa, embora eu ache que vá. Guardo a pequena possibilidade de não no fundo do meu cérebro como um torturado que guarda um pouco de veneno.

No fundo ele não quer morrer, no fundo eu não quero ir embora assim. Não fugida, não dessa forma. Não como quem se levanta e se veste muito silenciosamente e parte deixando para o outro apenas uma cama ainda quente.

Quando eu for, eu não quero fugir. Há uma tremenda teimosia nessa decisão, a teimosia de prova-los errados e de não ser como ele, não ter tanto medo, não ser tão covarde. Nós somos terrivelmente parecidos, é claro, nós fomos almas gêmeas, mas eu não quero.

Em algum lugar, deuses gregos riem de mim. Moira, eles dizem. O quinhão que me cabe. Se o quinhão que me cabe é fugir, então eu vou apenas rodar e rodar e acabar como Édipo. Cego por ter tentado fugir da própria tragédia.

As vezes acho que quero me consolar da dor transformando-a em tragédia. Outras, creio que todo ser humano é trágico e pego um livro do Philip Roth em busca de confirmação do velho amargurado e misógino. A literatura dele é exatamente sobre isso, o que há de trágico no que é cotidiano e ordinariamente humano.

Pastoral Americana é a tragédia de querer ser normal. Complexo de Portnoy a tragédia (uma tanto engraçada) do desejo.

Me pergunto se estou condenada a um velho detestável e mocinhas que escreveram sobre estar nas raias da loucura.

Depois de pouco mais de duas semanas de fuga, eu sinto o controle voltar. Minhas mãos pararam de tremer, eu parei de chorar de forma convulsiva, eu voltei a dormir, eu diminui os cigarros, eu bebo um pouco menos. Eu fui capaz de dizer para mim mesma que não entraria em pânico e não entrei. Sentir que cérebro e corpo são uma coisa só é uma sensação reconfortante, nunca a subestimem.

Eu falo devagar porque tenho medo das minhas palavras. Eu ainda tenho meu corpo tenso porque tenho medo dele, da determinação em se ferir que ele tem as vezes.

Texto número 212909 sobre voltar para casa

Estou lendo aquele livro do Zambra chamado Formas de Voltar Para Casa. Acho engraçado que depois que comecei a conviver com “gente dos livros” tem umas épocas em que todo mundo parece estar lendo a mesma coisa, em geral algo razoavelmente curto e que acabou de ser lançado e que lemos por curiosidade, recomendação, vontade de falar sobre o livro com alguém.

Tenho na lista os outros dois do Zambra, mas por já ter uma pilha de livros emprestados que preciso devolver, vinha adiando o pedido para as pessoas que sei que os tem. Mas não pude escapar de um livro com esse título. Em primeiro lugar porque é um belo título e em segundo porque não sei voltar para casa e quero desesperadamente aprender.

Há uma frase, que fica bem no topo de uma página e que diz “aprender a contar sua história como se não doesse”. Aprender a contar sua história como se ela fosse mais uma, como se fosse igual a do próximo. Todo mundo dói, todas as famílias tem problemas, toda criança tem traumas. Imagino que tudo isso seja verdade, mas também imagino que algumas famílias sejam piores que as outras e algumas pessoas precisem aprender a contar sua história como se não doesse.

Famílias felizes se parecem. Cada família infeliz é infeliz a sua própria maneira.

A literatura é fascinada com as famílias infelizes. O cinema também. Talvez porque famílias felizes se pareçam. A história de uma família feliz é a história de muitas famílias felizes e dia desses li um jovem escritor em um belo texto no jornal dizer que literatura se faz de sangue, morte e tragédia. Ninguém quer saber do que dar certo. Ninguém quer saber das famílias felizes.

Formas de Voltar Para Casa é, de alguma forma, a história de uma família feliz. Ou a história de como não se conta a história de uma família feliz, mas da família infeliz da casa ao lado. É a história da culpa porque sua família é feliz. Porque na sua família não há mortes, desaparecidos, torturados. E se surpreender porque alguém cuja história contem mortos, desaparecidos e torturados eventualmente te conta sobre tudo isso entre cafés do starbucks, como se nada fosse, como quem conta do playground que brincava na infância, como se não doesse.

Esses dias me peguei, entre um gole de mojito e uma batata frita, contando minha história como se nada fosse. Contando que aos cinco anos me perdi no Louvre e minha mãe levou mais de duas horas para perceber. Contando que casa sempre foi sinônimo de algo que era uma merda e até hoje eu tenho dificuldades para entender que não é. Com meu rosto apoiado na mão, do jeito que sei que faço quando estou muito atenta a alguma coisa, eu o ouvi contar a história dele, que talvez também doesse, mas que ele narrava como se não.

Fico me perguntando quantas vezes na vida fui beijada porque contei minha história como se não doesse e meu interlocutor achou que ela deveria sim doer. Me pergunto quantas vezes na vida fui beijada por dó, por puro carinho, como uma maneira de me agradecer por ter contado aquela história como se ela não doesse. Ou como uma forma de me dizer “calma, vai ficar tudo bem”.

Voltei hoje de manhã para a casa da minha mãe. Volto para ir embora. Entro no meu quarto e percebo que nada mudou desde que saí de casa, 8 anos atrás.

Pompeia é o lugar mais impressionante que já estive. Um dia falei aqui sobre Pompeia, Hiroshima e Ai Weiwei, tempo congelado e memória. Pompeia é impressionante porque ela não decaiu, não morreu como Éfesos, Machu Picchu, ou outras ruínas em que estive, ela simplesmente parou. Em um momento, o tempo congelou.

Me sinto um pouco assim ao entrar no meu quarto. Ali, em janeiro de 2006, o tempo parou. Os livros nas estantes são os mesmos, as fotos nas paredes são as mesmas. Fotos de gente que já não significa mais nada para mim e fotos de gente que ainda significa o mundo. Em uma foto somos tão novinhos, eu estou tão bronzeada, nossos rostos eram menos bonitos, ainda não haviam assumido os traços que assumiriam alguns anos depois.

Olho para foto e vemos que éramos, somos talvez, ambos, muito bonitos. Mas nos nove anos desde essa foto nossos rostos adquiriam um tipo diferente de beleza, nossos olhos se tornaram menos transparentes.

Mas naquele quarto o tempo parou. Naquele quarto meus cabelos batem no ombro e são um loiro escuro e cinzento, uso uma camiseta do Bikini Kill e abraço pessoas que não vejo já nem sei há quanto tempo.

É muito estranho voltar para casa.

Me pergunto por que nunca joguei fora essas fotos, por que minha mãe nunca reformou esse quarto. Vejo mais uma foto, minha prima aos treze anos em um vestido preto de renda, aquele ano em que vimos a guerra. Sento no chão e entendo que voltar para casa é como brincar de quebra-cabeças, que não retiro as fotos ou jogo fora aquele cachorrinho de pelúcia ridículo porque me contam minha própria história. Me contam como eu cheguei aqui. Como meu cabelo deixou de ser loiro de água suja para ser loiro dourado, loiro platinado, ruivo, loiro dourado outra vez; nos ombros, curto, longo, muito longo, muito curto, médio, longo.

Porque são as peças da história que eu conto casualmente enquanto examino o molho em um potinho e provo devagar com a batata frita. Como se aquele molho fosse algo que me importava mais do que o que eu estava dizendo. Peças da história que eu paro de contar para dizer “por que estou falando disso mesmo?”, me lembro e volto a falar de museus de Paris, você sabia que no Pompidou eles expõe filmes? Quase chorei de amor quando vi que tinham La Jetée.

 

 

Já que tenho nome de bailarina

Na Mostra do ano passado, vi um filme grego chamado Todos os Gatos São Brilhantes (melhor nome, sim, eu sei) que era sobre uma moça com um pouco menos de 30 anos, um diploma de artes de uma faculdade importante, mas que não sabia bem o que queria da vida. Não que ela não pudesse ir estudar fora, ou ser indicada pra um trabalho na faculdade ou em alguma galeria pelos pais, professores universitários, ela só não sabia se era isso que queria.

Ela vai flutuando pelo filme, vagando pela vida dela, sendo  babá de um garotinho fofo, encontrando pessoas e desencontrando como se estivesse apenas se deixando levar. Na cena final, que eu procurei no youtube, mas não consegui encontrar, ela está em uma festa e começa a dançar, um pouco tímida, um pouco desconfortável, olhando para fora e tentando entender o que os outros estão fazendo. Até que ela entra por completo em si mesma. Fecha os olhos e balança a cabeça e dança, só dança, sozinha, imersa na música e nela mesma.

Gosto muito desse final e dessa metáfora sobre encontrar seu próprio ritmo.

Me lembra a cena da festa em Azul É a Cor Mais Quente  que resume tudo que eu mais gosto no filme: um espectador da vida, a câmera que observa, silenciosa, a Adele. Eu disse algumas vezes que gosto mais do título francês, La Vie D’Adele, porque resume mais o que é o filme, o estudo, o registro miuncioso e obsessivo, da vida de alguém. Não é sobre a relação das duas moças, é sobre perseguir obsessivamente uma delas.

Eu gosto dessa cena mais do que de todo o resto do filme (que, não me levem a mal, eu gosto muito!) porque resume esse espírito que me interessa muito. Ela está sozinha, em um misto de feliz e desconfortável, sexy, entregue. Consigo imaginar a Adele Exarchopoulos ignorando a câmera, as luzes infernais, o set de filmagem, tudo, e só dançando.

Poucas coisas te permitem um isolamento tão grande do mundo exterior quanto dançar.

Eu faço aulas de dança moderna e enquanto improvisamos, a professora pede diversas vezes para que a gente tome consciência umas das outras ou, ao contrário, para que cada uma se desligue da sala. `As vezes fechamos os olhos e temos que ter consciência do movimento externo. É uma sensação muito estranha de estar presente e ausente, junta e sozinha. Quando ela pede por uma composição, que cada bailarina preste atenção na outra, responda e interaja com a outra, sem perder sua vontade de movimento, eu tenho a sensação que queria meus relacionamentos assim.

Queria meus relacionamentos como aulas de dança moderna em que meu movimento é meu, só meu, expressão do que eu quero, sinto e penso naquele momento, mas ao mesmo tempo preciso olhar para as outras meninas na sala. Às vezes vou em direção a elas, as vezes recuo, respondo, encaro, às vezes rodamos uma em volta da outra, brincamos de seduzir. Tem na aula uma menina que deve ter seus dezessete anos, é alta, magrinha e tem os cabelos muito compridos e eu acho terrivelmente sexy. Imagino que ela nem saiba, que quando ela descobrir talvez se torne menos, mas fico completamente fascinada com a elegância dos movimentos dela, com a entrega, com o mundo só dela em que ela entra quando dança.

Sempre saio das aulas de dança moderna me sentindo também terrivelmente sexy. Algo a ver com a consciência do próprio corpo, com utiliza-lo como expressão, com a busca por uma organicidade. “Vocês tem que ser meio bicho”, não cansa de repetir minha professora. Tenho achado essas aulas a melhor decisão que já tomei, poucas coisas me ensinaram tanto sobre o que é a arte (ouviu bem Argan???)

Domingo fui sozinha ao show do Au Revoir Simone e em algum momento me peguei dançando como Elektra (a protagonista de Todos os Gatos São Brilhantes) ou Adele. Sozinha, jogando meu cabelo de um lado para o outro me importando pouco, na verdade, me importando nada, com tudo que não fosse eu. Foi um dos shows mais felizes, mais adoráveis que já estive. Três meninas lindas, fazendo dancinhas queridas e aquele som um pouco de sonho. O que eu mais gosto em sintetizadores é o som que não parece de verdade, que não vem de nenhum instrumento de “verdade”.

Me lembro quando era criança e tinha aulas de música na escola, uma vez tivemos aulas sobre instrumentos e eu aprendi o que era um sintetizador. As crianças insistiam em dizer que o sintetizador estava imitando algum som: “agora é som de piano/agora de gato/agora de chuva” e a professora dizia “não é som de nada, é som de sintetizador”.

Quero uma banda de synth pop. Quero uma banda de som que não é de verdade e que faça shows onde as pessoas podem balançar a cabeça, dançarem sozinhas e esquecerem que há um mundo em volta.

A entrega da dança é diferente de quando me trancafio em mim mesma. A entrega da dança é entrega mesmo, é como se eu me puxasse pela mão, suave, gentilmente, e me levasse para dentro de mim com suavidade. O eu que encontro na dança é um eu que eu gosto, é um eu que se move com graça, que cria algo interessante, que pode ser olhado sem repulsa. Acho curioso que durante toda a vida, o ballet da infância, o sapateado, o ballet agora, a dança moderna, eu ouço das professoras que tenho leveza. Que posso errar, não ser tecnicamente tão boa, mas que salto sem fazer barulho, que me movo como se não pesasse nada e isso tem pouco a ver com peso corpóreo. Muitas vezes, a professora de moderna me pede para ter peso, porque não tenho.

Nunca quis ter peso, não é mesmo? Vou tatuar uma âncora próxima ao pé para me lembrar de ter, para me lembrar de voltar.

Eu não quero voltar.

Eu estou indo embora em 9 dias. Sozinha. Estou indo ver o mundo, mas mais que isso, estou indo ver a mim mesma. Estou indo passar tanto tempo comigo mesma que não vou ter opção a não ser parar de me odiar. É um tratamento de choque. Não sei se vai dar certo, não sei se posso sair por aí tendo a mesma sensação que quando danço sozinha. Acho tão irônico que eu me odeie tanto e ao mesmo tempo me recuse tanto em perder, queira me agarrar tão fortemente ao que eu sou, quero meu movimento, minha dança, mesmo que ela olhe para o outro, quero que seja minha.

Acho que o arranjo mais delicado do universo, mais que qualquer jogo de moléculas, ou átomos que forme uma nebulosa, é esse entre eu e o outro. Entre minha dança e do outro. É saber que há alguém ali, compondo comigo, mas ser minha mesmo assim. Três anos atrás eu achei que era minha outra vez, mas não era. Estou indo ver se descubro como se faz. Estou indo ver ser aprendo a ser sozinha o suficiente para poder ser com outro.

Só se pode quebrar o mesmo braço duas vezes

Parece algo muito óbvio que, quando se remenda algo quebrado, aquilo nunca volta a ser o que era. Eu me lembro quando era criança e um enfeite da minha penteadeira (eu tinha uma penteadeira de princesa quando era criança, ainda não superei a perda dela, me perdoem) caiu no chão e o como eu chorava enquanto minha mãe dizia “não espatifou, é só colar”. Tenho a impressão de que parei de chorar por um minuto, olhei bem para cara dela e disse “continua quebrado”, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

E é, mas a gente se esquece. A gente se esquece muito fácil que mesmo que você conserte, as coisas continuam quebradas.

Eu me lembrei disso porque estava lendo um livro cujo narrador é um menino extremamente inteligente, mas autista. E a mágica de um livro com esse narrador é a absoluta literalidade com que ele vê o mundo e nós, nessa vontade de ser extremamente complexos e querer que nada seja preto no branco, esquecemos. Ele não pode mentir, ou usar metáforas, porque elas são uma forma de mentira. Ele não pode contar mentiras pra ele mesmo. Não pode esquecer que quando uma outra criança rasgou um desenho, mesmo que a professora remende, o desenho segue rasgado.

Eu quebrei meu braço esquerdo duas vezes na infância, se quebra-lo de novo, ele não se calcifica mais. Precisaria tirar um pedaço de osso da perna e colocar no braço porque há um limite na capacidade de recuperação dos ossos. Não tenho ideia se é possível ver algum tipo de linha, rachadura ou falha, caso eu tire um raio-x do braço, chutaria que não. Mas eu não posso esquecer que ele foi quebrado. 15 anos depois e eu ainda preciso me lembrar que meu braço esquerdo não pode mais se quebrar sem que eu passe por uma cirurgia relativamente complicada.

Talvez todas as coisas do mundo tenham um limite de recuperação, não apenas ossos. Mas a gente esquece. A gente esquece que não vai se recuperar pra sempre, que não vai ficar igual era antes, que não pode continuar quebrando o lado de dentro para sempre.

Não consigo imaginar porque meu braço esquerdo pode ser quebrado apenas duas vezes, mas meu cérebro acha que pode levar infinitos golpes e continuar funcionando.

Quase disse “coração partido”, mas não é isso, embora eu goste da expressão. É brega, mas eu gosto, gosto de muitas coisas bregas, o Romeu e Julieta do Baz Luhrmann é a principal delas. É porque não é exatamente uma questão de coração partido, não é exatamente uma questão de amor (ou paixão vai) não correspondido. É se colocar em infinitas situações que você sabe que vão te quebrar e pode ser ter gostado de um cara, mas pode ser tantas outras coisas.

É engraçado, ou irônico de uma forma trágica, que passamos a vida ouvindo, e nos convencendo, de que  não se morre de coração partido. De que passa, recupera, remenda. “It’s not like I’ve been send up to war, there are worse things in this world”*. Mas sanidade mental é um negócio tão frágil e conheço gente que foi mandado para guerra e também teve o coração partido e eu não sei qual das duas coisas o quebrou irremediavelmente. Se a guerra, ou o amor, ou tudo que veio antes ou tudo que veio antes que precisou mandá-lo para a guerra.

Nós vivemos nos convencendo que os golpes não são tão violentos assim, que é possível continuar, passar por cima, recuperar. Mas os remendos vão acumulando e eles são remendos, nada volta a ser o que era. E eu não quero dizer com isso que realmente se morra de coração partido, mas que é uma atenção válida, uma percepção que deveríamos ter com mais frequência, esse de que sempre é possível ver a linha de remendo.

E entender que algumas coisas talvez só façam sentido se forem perfeitas.

Me lembro também de algum projeto de artes que envolvia fazer muitos círculos e da professora me ensinando a usar o compasso e dizendo que eu não poderia parar a volta, ou retirar o grafite do papel porque senão o círculo não seria perfeito. Eu jamais conseguiria emendar de um jeito imperceptível, era preciso que não tivesse um ponto de interrupção, ou não funcionaria.

Enquanto estou as voltas com uma das coisas mais importantes que já fiz, me pergunto muito se não há um conserto que eu queria tentar fazer. Um remendo que talvez valesse a pena, mesmo que eu pudesse ver a rachadura, mesmo que não fosse como antes, mesmo que não pudesse ser quebrado uma segunda vez porque já alcançamos o limite da recuperação.

A resposta a que tenho chegado é: não.

Há muito tempo, nós estávamos em um ônibus que cruzava um país em guerra e ele me disse que achava uma pena as crianças que cresciam ali, dos dois lados. Porque era importante saber que o mundo era um lugar defeituoso, quebrado, imperfeito, mas era necessários aqueles anos antes disso em que se acredita que as coisas fazem sentido e são perfeitas e tudo funciona. Como se aquelas crianças nem tivessem a chance de uma perda da inocência.

Eu estava olhando pela janela e não me virei para dizer que tinha sido a mesma coisa com a gente, de alguma maneira. Nem eu, nem ele, por motivos que são diferentes de crescer em um país em guerra, tivemos a ilusão de que as coisas estavam perfeitas, de que não existia dor. Algo sempre faltou e eu me pergunto se sua cota de consertos diminui porque você nunca imaginou que as coisas poderiam ser perfeitas.

Não lembro se ele realmente tocou meu cabelo ou só estou completando com o que era um hábito nessas horas. Uma vez ele também me disse que chegaria o dia em que eu não precisaria mais dele e eu não disse que era uma bobagem, eu acreditei, eu também achava isso. Na época eu era mais otimista.

Tem coisas que só fazem sentido se são tudo que você conheceu de perfeição na vida. Tudo que você conheceu de amor incondicional e cuidado e colo e casa. Talvez seja como crescer. Como sair da casa dos pais. Se eu deixo cair uma daquelas taças de cristal tcheco finíssimo que existem na casa da minha mãe, faz algum sentido tentar cola-la? Supondo que quando ela caiu não tenha se espatifado em pedaços impossíveis de se juntar.

Entender que nem tudo pode ser consertado me parece uma lembrança que falta a quase todo mundo, quase o tempo todo. É claro que você pode tentar colar, mas continua quebrado. E `as vezes não faz sentido.

 

https://www.youtube.com/watch?v=K3xIib0VE_4

Fausto aprendeu no que dá querer demais

Não precisa de um passeio muito longo pela literatura pra perceber que nós estamos constantemente sendo punidos por querer demais. Prometeu, Fausto, alguém do Shakespeare que eu suspeito seja Macbeth (desculpa, meu repertório de Shakespeare é um negócio BEM falho, pretendo resolver algum dia), Raskolnikóv, até o Swede em Pastoral Americana.

Digo até o Swede porque parece que mesmo em um universo completamente aleatório, dominado pelo acaso que é um animal cruel (já falei disso aqui) se é punido por querer demais. Ele quis ser americano, ao invés de judeu, o que é um passo maior que as pernas, mas possível. Mas ele não quis apenas ser americano, quis ser a América de certa forma e daí a tragédia é inevitável.

A maior lição do personagem, e uma das melhores passagens da literatura contemporânea, é que a vida não faz sentido. Mas ainda assim, será que toda a tragédia ali é aleatória mesmo? Sem nenhuma conexão com o que ele quis, quem ele é, com o fato de ele querer demais?

Nós queremos relacionamentos que deem certo com alguém por quem sejamos perdidamente apaixonados. Queremos empregos que não sejam detestáveis e queremos um milhão de outras coisas como roupas, móveis, viagens, etc, etc, então tem que pagar bem também. Eu quero ler todos os livros, ver todos os filmes, assistir todas as séries, escrever todo dia, uma indicação de publicação pro mestrado, um doutorado em Paris, uma passagem pra Índia e ter minhas unhas feitas.

Eu quero ser amada por pessoas e quero ir embora. Tudo ao mesmo tempo. Como se fosse possível.

Eu quero laços e quero a liberdade suprema da ausência deles. Eu quero ir e quero estar aqui, eu quero o mundo todo e ainda quero pessoas em volta de mim. Não dá, ou se ganha o mundo e se perde o aqui, ou ao contrário. Eu estou em um caminho bem claro de ser punida por querer demais.

Eu me assusto muito cada vez que quero algo. Deve ser algum tipo de culpa judaica bizarra ou só minha cabeça um pouco defeituosa, mas eu tenho muito medo quando quero algo porque meu instinto é dizer a mim mesma que não mereço. Que não posso ter. Que a existência é só essa condenação de desejar coisas, eternamente.

Acho que algum filósofo grego comparou homens com cavalos com a cenoura na frente. Schopenhauer (rolou um google pra saber como escreve, um beijo pra acadêmica disléxica) falou muitas coisas, muito deprimentes, sobre ser escravo da própria vontade. Eu tenho pouca tendência a achar que devemos para de desejar, não me atrai em nada a ideia de que algum tipo de felicidade possa estar na ausência de coisas, não gosto da ideia de equilíbrio, meio termo. Sou mais fatalista que isso: acho que estamos condenados a desejar coisas, sempre, a querer demais e sofrer por isso.

E querer coisas e querer mais coisas assim que conseguimos essas primeiras. Lembro daquele moço que eu saia que gostava de dizer que todo objetivo é ouro de tolo porque uma vez que você chega lá passa a querer outra coisa. Achava isso extremamente sábio da parte dele, que sempre me pareceu ao mesmo tempo em paz e atormentado com o fato de que ele também queria demais.

Eu não sei se tenho mais medo de conseguir o que quero ou de não conseguir. Não sei se meu medo é pura e simplesmente da intensidade com que quero as coisas, quando quero. É engraçado que eu já ganhei algumas vezes a interpretação de ser fria, ou distante, ou pouco interessada em sentimentos por conta desses anos solteira. Ao contrário, acho, eu acabo querendo tanto e me apaixonando tanto e ao mesmo tempo eu quero tanto a mim mesma, ao mundo que não se pode querer tanto duas duas coisas sem enlouquecer.

Talvez não se possa querer nada nesse tanto sem enlouquecer.

Tem aquela frase da Sylvia Plath também que diz que quando queremos desesperadamente coisas demais, estamos muito próximos de não querer nada. Talvez. Acho que faz algum sentido. Isso de querer tudo, querer o mundo, querer todas as coisas é só uma forma de lidar com esse desejo todo quando não se quer nada, especificamente. Eu detesto a maneira como me sinto esvaziada quando passo a querer demais uma mesma coisa, eu detesto quando esse querer todo se concentra em alguma coisa. Detesto e tenho medo.

Querer alguma coisa, uma coisa real e concreta e possível de ser apontada, é arriscar perder. Eu tenho dificuldades enormes de admitir, pra mim mesma, o quanto quero algumas coisas, o quanto não ter pode puxar meu tapete, eu detesto olhar de frente quando essa intensidade de querer se transforma na intensidade da dor de não ter. Provavelmente por essa certeza de que não posso ter o que quero, ou por medo de ter e não ser aquilo, não estar satisfeita.

Eu passei anos querendo algo, alguém, achando que as coisas fariam mais sentido, eu faria mais sentido, uma vez que conseguisse. E quando eu consegui já não fazia mais sentido, nenhum, eu já não queria aquilo. E de alguém que tinha metade eu passei a ser alguém que não tem nada. Já perdi muita coisa nessa vida, nada nunca doeu como isso, nenhuma dor nunca foi tão quieta e tão persistente, nunca houve uma falta mais torturante.

Então melhor não querer nada.

Querer algo e fazer coisas a respeito disso requer um mínimo de fé que se vai conseguir. Quando a Capes me faz aquela pergunta muito idiota de por que eu mereço uma bolsa, eu só posso responder se achar, pelo menos um pouco, que mereço. Acho razoavelmente possível quando sou capaz de listar critérios objetivos, sou completamente incapaz quando preciso dar um salto de fé em mim mesma.

Por exemplo, quando se quer uma outra pessoa. Ir atrás requer um mínimo de fé que algo em você é interessante, desejável, que é possível querer estar com você. Kierkegaard que me perdoe, mas tenho achado mais fácil saltar na fé em deus do que acreditar nisso. E eu definitivamente não acredito em deus.

Talvez eu tenha lido literatura demais e tenha aprendido muito bem que sempre se é punido por querer demais. Eu certamente li livros do Philip Roth o suficiente para saber o quanto somos escravos do desejo e o quanto a verdadeira comunhão humana é impossível. Bergman pode até dizer o contrário, eu posso até ter escrito todo um mestrado sobre saltar no outro independente de garantias, mas isso é muito mais uma versão da coisa que eu quero comprar, mas não consigo. Mais do que qualquer desejo, querer uma outra pessoa vai inevitavelmente atrair uma punição.

Falei ali em cima que tenho muito pouco interesse por quem vem dizer que abandonar vontades ou achar uma espécie de equilíbrio no desapego gera felicidade. Não acho, mesmo, sou daquelas que acredita em intensidades, em sofrer muito e ser muito feliz por espaços curtos. Mas nem sempre é uma aposta que se pode bancar, eu acho cada vez mais que não posso. Que preferia não querer absolutamente nada e a abrir mão dos dois lados da moeda, preferia a imagem de distante e inatingível que de vez em quando fazem de mim. Eu queria mesmo partir corações sem remorso como as vezes acham que eu faço. E eu queria realmente parar de partir o meu.

E não só com pessoas. Com textos, com tudo. Com a pessoa que eu sou. Eu queria realmente parar de atrair a fúria do universo sem sentido para mim porque quero demais. Mas eu li literatura suficiente pra saber que isso é impossível.

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Sobre uma metáfora estranha entre estrelas e obsessões

Não sei por que, como, por que motivo ou alinhamento cósmico, enquanto alimentava um câncer de pele  tomava sol estendida na areia nesse feriado, me lembrei que, há dois anos atrás, eu estava naquele primeiro Lollapalooza, aquele que teve Foo Fighters.

Foo Fighters foi um show que eu esperei. Um show de uma banda que eu já não ouvia muito naquela época, já não ouço tanto hoje em dia, mas que era importante, por causa de outros tempos, outras histórias, outra vida. Foi um show que me fez feliz e que me fez sair dali para encontrar alguém que entendia, entendia a importância de tudo aquilo, a felicidade, a nossa obsessão com aquela banda e aquelas músicas e as bandas e as músicas em si.

Eu acho que um bom jeito de conhecer uma pessoa seria traçar um mapa das suas obsessões.

Nós todos somos um pouco obcecados com alguma coisa. Não necessariamente obcecados de um jeito doentio personagem de filme do Aronofsky, mas todos nós temos qualquer coisa que desperta uma paixão teoricamente não proporcional ao que é.

A música foi assim para mim por muito tempo. A minha versão adolescente abarrotava o quarto de cds e esperava por downloads que demoravam dias de bandas de hardcore da Armênia. Eu tinha orgulho, de um jeito nojentinho porém simpático meio Alta Fidelidade, de ter um ipod bem mais cheio que a maioria dos meus amigos, mas não todos. Tinha aqueles dois ou três obcecados que compartilhavam o mesmo tipo de obsessão. Tinha ele, que compartilhava o mesmo tipo de obsessão.

O tempo passa, nossas obsessões mudam, eu troquei a música pelo cinema e as bandas de hardcore da armênia por filmes da nouvelle vague tcheca, mas ainda assim, me parece um movimento profundamente importante esse de aceitar, entender, abraçar, as paixões irracionais do outro.

(a frase anterior foi possivelmente um pleonasmo, porém se eu sair falando disso vai ser todo um outro post e deixa pra depois até porque ideias estão raras preciso fracionar a coisa pra manter o blog andando)

Eu tive um namorado por muitos anos. Dito cujo namorado já foi citado aqui algumas vezes como um grande erro. De fato foi e às vezes eu me pergunto por que não consigo parar de falar nele, meio que deveria parar de falar nele antes que um processo por difamação (calúnia não porque nada é mentira) chegue aqui em casa. Por sorte tenho muitos amigos advogados, tenho até uns casos por aí que acho que só cultivo para ter advogados que posso pagar com o corpo. ESQUECE, VAMOS VOLTAR AO ASSUNTO DO POST.

Enfim, dito cujo namorado que foi um erro aparece aqui com frequência porque erros são muito bons para te fazer pensar sobre alguma coisa. Não naquela história clichê de “ai, você aprende com os erros”. Aprende bosta nenhuma tá? Estou aqui, fielmente cometendo os mesmos erros repetidamente sem nenhuma sabedoria para me impedir, porém, sempre se pode parar para pensar sobre eles e fazer um texto pseudo engraçadinho como forma de achar que o erro não foi tão em vão quanto parece.

(minha ironia está com fogo no rabo hoje, perdoem as piadas cretinas, voltaremos a programação normal de melancolia no próximo post)

Me pergunto quantos textos sobre o ex namorado preciso escrever para parar de sentir que desperdicei quatro anos.

Tenho esse gosto muito amargo de anos perdidos, de tempo desperdiçado quando ele passa tão rápido. Não é porque acabou (imaginem se eu começo a achar que desperdicei todo tempo que passo em relacionamentos que acabam? só imaginem!), nem porque acabou mal, mas porque, enquanto ainda não tinha acabado, ele não conseguia abraçar minhas obsessões.

Ele nunca conseguiria entender porque estar naquela plateia do Foo Fighters era tão importante para mim. Ele nunca conseguiu, e mais do que isso, nunca quis, entender as caixas de cd que na época eu ainda carregava de um apartamento para o outro. Enquanto eu estive com ele, eu parei de ouvir música. Não parei, parei, mas parei de descobrir coisas novas, de investigar, de saber o que acontecia. Eu não fui a um show do Smashing Pumpkins que, mesmo sabendo que era só o Billy Corgan e uns caras aleatórios, queria muito ir; quase não fui ao show do Radiohead.

Não fui porque cada ingresso comprado requeria que eu me explicasse, que eu tentasse expressar porque aquela experiência era válida, porque eu “podia” ir em shows, porque aquilo não era uma simples expressão do culto burguês mercantil da personalidade (eu JURO que esse termo foi usado, provavelmente desse jeitinho mesmo). E é algo muito exaustivo e muito violento tentar explicar suas obsessões.

É violento porque é quase como uma justificativa de quem você é. Tentar explicar racionalmente uma obsessão é tentar fazer seu ser caber em explicações de causa e efeito que respondam a um conceito abstrato. Eu passei anos fazendo isso e não recomendo nem a esse mesmo ex namorado.

É possível conhecer alguém pelo mapa das coisas que a fazem feliz sem motivo, que a fazem começar a falar sem parar quando outros nem imaginavam que havia tanto a se dizer.

Eu passei a preferir os confessadamente obcecados.

É uma investigação interessante essa das obsessões. Por que Bergman? Por que Sylvia Plath? Por que Nine Inch Nails? Por que Pollock? Eu não sei responder para mim mesma, mas tenho uma vaga ideia, uma intuição. Eu consigo intuir algo dos outros quando eles me contam as coisas pelas quais são obcecados. É quase como montar constelações.

Gosto tanto de constelações que penso em tatuar uma.

Mas é quase como pegar pequenos fragmentos do que nos move e tentar ligar os pontos, formar uma imagem, dar algum significado. Uma obsessão é significativa porque fala a uma parcela instintiva, ela te pega pela mão e leva sem que isso passe pelo cérebro, sem que você saiba dizer por que aquilo te fascina tanto.

Fascinar é uma das minhas palavras preferidas, justamente porque diz respeito a algo que não se pode explicar, uma atração de uma ordem estranha, meio mágica, meio onírica. E tudo que atrai alguém como mágica, como sonho, deve dizer muito a respeito dele.

Eu gosto de conhecer as pessoas. De montar esses quebra-cabeças com o que elas me mostram. Acho que uma das minhas fases preferidas de relacionamentos é aquele início muito início em que as conversas ainda não tem fim porque estamos brincando de dar ao outros as estrelas da constelação. Justamente por isso é tão dolorido quando essas estrelas não são aceitas.

É profunda a dor de de dar peças a alguém e as ter devolvidas. Não, isso não serve, essas coisas que você ama não servem, você não serve. Não quero discorrer sobre o porque de alguém continuar com alguém mesmo depois de devolver tudo aquilo que o forma, tenho hipóteses, mas não me interessa falar sobre isso agora. Mas das poucas decisões confiáveis da minha vida, uma é essa:permanecer onde possam estar minhas obsessões.